quinta-feira, 14 de julho de 2011

O analista de Bagé

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta.

Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

- Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

- O senhor quer que eu deite logo no divã?

- Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

- Certo, certo. Eu ...

- Aceita um mate?

- Um quê? Ah, não. Obrigado.

- Pos desembucha.

- Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

- Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

- Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.

- Outro...

- Outro?

- Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

- E o senhor acha...

- Eu acho uma pôca vergonha.

- Mas...

- Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...

Mas acabou concordando.

- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! Qual é o causo?

- Bem - disse o homem - é que nós tivemos um desentendimento...

- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

- Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

- Não fala comigo!

- Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

- Ela tem um problema de carência afetiva...

- Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

- Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento, porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...

- Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

- Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

- Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

- O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

- Mas isso tá ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.

- Eu?

- Ela. Tu espera na salinha.
___________________________________________________________________

Por: Luís Fernando Veríssimo

Fonte: VERÍSSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. Porto Alegre: L&PM, s.d. .p. 78-80.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O sabiá do Almirante


O Almirante gostava muito de ir ao cinema na sessão de oito às dez. Era um Almirante reformado e mui­to respeitado na redondeza por ser bravo que só bode no escuro. Naquela noite, quando se preparava para ir pro ci­nema, a empregada veio correndo lá de dentro, apavorada:

— Patrão, tem um homem no quintal.

Era ladrão. Pobre ladrãozinho. O Almirante pegou o 45, que tinha guardado na mesinha de cabeceira e saiu bufando para o quintal. Lá estava o mulato magricela, en­colhido contra o muro, muito mais apavorado que a do­méstica acima referida. O Almirante encurralou-o e deu o comando com sua voz retumbante:

— Se mexer leva bala, seu safado.

O ladrão tratou de respirar mais menos, sempre na encolha. E o Almirante mandou brasa:

— Isto que está apon­tado para você é um 45. Seu eu atirar te faço um furo no peito, seu ordinário. Agora mexe aí para ver só se eu não te mando pro inferno.

O ladrão estava com uma das mãos para trás e o Al­mirante desconfiou:

- Não tente puxar sua arma, que sua cabeça vai pe­los ares.

- Não é arma não — respondeu o ladrão com voz tímida: — É o sabiá.

- Ah... um ladrão de passarinho, hem? — vociferou o Almirante.

E, de fato, o Almirante tinha um sabiá que era o seu orgulho. Passarinho cantador estava ali. Elogiadíssimo pelos amigos e vizinhos. Era um gozo ouvir o bichinho quando dava seus recitais diários.

Vendo que o outro era um covarde o Almirante re­solveu humilhá-lo:

- Pois tu vais botar o sabiá na gaiola outra vez, vaga­bundo. Vai botar o sabiá lá, vai me pedir desculpas por tentar roubá-lo e depois vai me jurar por Deus que nunca mais passa pela porta da minha casa. Aliás, vai jurar que nunca mais passa por esta rua. Tá ouvindo?

O ladrão tava. Sempre de cabeça baixa e meio enco­lhido, recolocou o sabiá na gaiola. Jurou por Deus que nunca mais passava pela rua e até pelo bairro. O Almirante enfiou-lhe o 45 nas costelas e obrigou-o a pedir descul­pas a ele e à empregada. Depois ameaçou mais uma vez:

- Agora suma-se, mas lembre-se sempre que esta arma é 45. Eu explodo essa sua cabeça se o vir passando perto da minha casa outra vez. Cai fora.

O ladrão não esperou segunda ordem. Pulou o muro como um raio e sumiu.

O Almirante, satisfeito consigo mesmo, guardou a arma e foi pro cinema. Quando voltou, o sabiá tinha desaparecido.
_____________________________________________________

Por: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).

Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

Liberdade Liberdade!


Andando nu pelo apartamento já gozava a sen­sação de liberdade tantas vezes  sonhada. Entrou no ba­nheiro e meteu a mão dentro da banheira, sentindo a tem­peratura da água. Estava tépida, acariciante como espuma de sabonete em anúncio de televisão.

Fechou as torneiras e foi se enfiando na banheira devagarinho, prolongando o prazer. A água, por causa daquela lei de Arquimedes que muitos pensam chamar-se "Eureka", começou a transbor­dar e a molhar o chão.

Dane-se! Que tudo se molhasse à vontade; estava sozinho em sua casa, podia fazer o que quisesse.

Puxa vida! Solteiro outra vez!

Sorriu satisfeito e ficou olhando o próprio umbigo.

Onde estaria aquela chata agora? Bem... não teve tem­po de ir muito longe. Provavelmente na casa da mãe, aquela velha cretina. Laurinha, nas brigas que tiveram ao lon­go daqueles seis anos de casamento, sempre ia para a casa da mãe.

Pouco importava para onde tinha ido. Ah... esta ti­nha sido a briga definitiva. Enfim, só! O homem, quando casa, tem duas alegrias: na primeira noite, em companhia da mulher, quando murmura carinhoso "enfim, sós!", e na primeira noite depois que a mulher se mandou, quan­do murmura aliviado "enfim, só!".

Achou o pensamento um bocado filosófico e voltou a se interessar pelo umbigo, testemunha muda, constante e próxima de sua vida conjugai:

— Quanta chateação, hem, compadre? — perguntou ele ao umbigo, falando alto, assustando-se com o som da própria voz. Epa, assim, não! Falando sozinho iam pensar para que era maluco. Ora, mas não havia mais ninguém ali para achar qualquer coisa a seu respeito. Se houvesse alguém já tinha dado o teco. E lembrou-se que nunca demorava assim no banho como estava demorando agora, porque a voz esganiçada de Laurinha viria lá do corredor, pra chatear:

— Vai ficar morando no banheiro, vai?

De repente começou a fazer planos. Laurinha tinha se mandado de vez — isto era ponto pacífico. Arrumaria o apartamento a seu modo. Contrataria um mordomo; sem­pre achou o detalhe bacanérrimo. Um cara que cuidasse de suas roupas, seus compromissos sociais, que nem na­quele filme do Jack Lemmon, que o mordomo se interes­sa até pela comida que o patrão comia.

O umbigo estava estufado, olha só... andava comen­do demais. Também, com aquela vida chata que estava levando, emagrecer pra quê? Mas contrataria um cara pri­meiro time, desses que se orgulham de servir um patrão alinhado, como ele. Em primeiro lugar, mandaria fazer uns ternos novos, organizaria um barzinho na varanda, cheio de bossinhas, para receber os amigos. Os amigos e as amigas. Garotas bem desinibidas, indo à cozinha pre­parar canapés. Ia ser o máximo.

Saiu do banho e imaginou-se sendo enrolado, pela solicitude do mordomo, numa tremenda toalha felpuda de cores berrantes. Atravessou o corredor molhando o tapete. Azar o dele... e entrou no quarto. A cama poderia ser a mesma, com outro espaldar de cabeceira, madeira trabalhada, antigão... móvel antigão. O armário de Lauri­nha saindo dali, ia ficar espaço para uma escrivaninha legalzinha, com muitos objetos masculinos espalhados: ca­chimbo, binóculo, essas bossas.

Acabou de se enxugar e atirou a toalha em cima da cama. Num reflexo condicionado, já ia apanhar a toalha e pendurar, como fazia sempre, mas conteve-se. Precisava ir se acostumando a ser servido. Breve teria empregados para fazer as coisas chatas que Laurinha o obrigava a fa­zer.

Essa noite jantaria fora: num desses restaurantes so­fisticados. Talvez depois desse uma esticada pelos bares, flertar com uma grã-fina qualquer. Quem sabe, trazê-la até ali para... claro, era preciso começar vida nova. A vida que ele merecia.

Caminhou sorrindo para a sala e estava servindo um drinque, assobiando "These foolish things", quando a cam­painha tocou. Outra coisa que iria mudar: aquela campai­nha estridente, antipática, por uma dessas que fazem "bim bom".

Acabou de servir a bebida e fechou a garrafa de cris­tal. A campainha tocou outra vez. Caminhou tranqüilo para ver quem era. Laurinha, com voz choramingosa, de olhar baixo e toda encolhidinha, perguntou:

- Posso entrar, Neném?

É... quem nasce pra cavalo vai morrer pastando. Que entrasse logo. E pensou: - Pelo menos, durante as próxi­mas 24 horas, ela não será tão chata.
______________________________________________________

Por: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).

Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.