Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O Moleque Festeiro


Na encosta de uma serra muito alta e a pique, de Santa Maria de Taguatinga, entre barrocas e cardos, morava um homem muito rico e mau, que fizera voto de entoar uma ladainha, todas as noites pela passagem de São João.

Eram verdadeiras festas, muito concorridas, em que o pecado das danças livres excedia à devoção religiosa. O homem residia só e jamais conhecera os carinhos de uma esposa ou a alegria do sorriso de um filho …

Como companheiro tinha apenas um molecote, um cão e um gato preto. O menino era o emissário perpétuo por quem mandava os convites para as festas de São João. Era só nessa ocasião que abria a bolsa e deixava os patacões correrem a mãos cheias; nos outros dias não aliviava a lágrima de um pobre ou de uma viúva necessitada.

Certa vez, o pequeno mestiço partiu em busca dos convivas e voltou só: ninguém o acompanhara. As casas dos amigos estavam fechadas e ninguém respondera a seu chamamento.

O homem indignou-se e disse ao menino que fosse buscar quem quer que fosse, rico ou pobre, até mesmo o Pé-de-Garrafa, se o encontrasse. Era imprescindível o cumprimento do voto. No caminho apareceu um cavaleiro elegante, muito bem vestido, tinha esporas de prata e estava em traje de festa.

Ao convite do emissário do homem rico, respondeu afirmativamente e acompanhou-o ao sítio das barrocas e dos cardos. Era um só convidado, porém a festa começou logo.

Depois da ladainha dançou muito, fazendo tinir as esporas, que tiravam fogo no assoalho. Nunca o homem rico e miserável vira um convidado assim: só ele enchia a sala, devorava todos os manjares e dançava por uma súcia inteira. Acabada a festa, o cavalheiro misterioso convidou o homem rico para uma festa em seu palácio e desapareceu, quando a aurora vinha raiando.

Um mês depois um pajem veio buscar o homem rico para a festa do dançador misterioso do São João. Os olhos do homem rico foram vendados e os dois se puseram a caminho. Chegariam à meia-noite. O palácio do anfitrião não era longe de Santa Maria de Taguatinga. Barrancos e valados, brenhas e barrocais, matas e tabuleiros transpuseram os dois caminhantes.

Afinal chegaram, a venda caiu e uma elegante habitação maravilhou o hóspede da casa da encosta ao sopé da serra da Taguatinga.

Atravessado o pórtico dourado, penetraram em um grande salão e ali, maliciosamente, estavam enfileirados os vestidos curtos e os sapatinhos de salto alto de Formosa, as impudicas "toilettes" da Baía e os "maillots" cariocas. Noutra sala o homem rico viu uma porção de cavalheiros conhecidos: o Cel. F. F., o Major C. B. e Sr. H. M., etc., etc., pessoas há muito falecidas. Um cheiro de enxofre espalhou-se neste momento, por todo o palácio …

E o homem rico compreendeu tudo:

Estava no palácio do diabo …



I. G. Americano do Brasil: Lendas e Encantamentos do Sertão. - Edições e Publicações Brasil, São Paulo, 1938, pp. 49-50. - Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ouro maldito


“Chegara eu a Pirapora, nas margens do caudaloso São Francisco, em noite quente, mas de chuva forte, que me não permitiu sair do hotel. Após o jantar, servido o café, levantei-me da mesa juntamente com outro hóspede, que ali morava e que comigo havia palestrado durante a refeição. Parecia ele homem viajado e experimentado nas coisas do sertão mineiro.

Para mim, que ali ia pela primeira vez, a palestra era instrutiva e convinha mantê-la. Indagando o nome, disse-me ele que se chamava João José de Freitas, mas que era conhecido em todo o sertão como Januário, por ter nascido na cidade de Januária, que, rio abaixo, dista de Pirapora cerca de 40 léguas.

Dando-lhe também o meu nome, convidei-o a passarmos a uma larga varanda que dava para o lado do rio. Mas Januário preferiu uma sacada que dava para a mata, justamente em sentido oposto ao rio.

Acompanhei-o sem protestar, mas estranhando intimamente aquela preferência. O arguto olhar do sertanejo, não escapou, porém, a minha estranheza íntima.

Logo que nos sentamos em cômodas cadeiras com fundo tecido em cordas de palha de milho, ofereceu-me um cigarro da mesma palha, e, em preâmbulos, foi dizendo:

— Seu doutor está estranhando eu não querer ficar do lado do rio ... Mas é que o rio me entristece muito, principalmente à noitinha.

— Mas por que lhe acontece isto, seu Januário?! ... ao senhor, que parece homem habituado ao sertão e aos caudalosos rios deste grande vale!

— É por isto mesmo, seu doutor. Quem vê essas águas não sabe quanta coisa triste elas escondem. Vou lhe contar um fato que se passou comigo e que mostra a razão por que me entristeço quando estou à beira dum rio.

Há dez anos, éramos três amigos: eu, o Raimundo e o Celestino; todos três muito unidos pela luta constante na vida que levávamos como faiscadores e garimpeiros. A busca ao ouro e ao diamante, nas cabeceiras deste grande rio e nos seus afluentes, era nossa única ambição. Onde havia notícias dessas coisas preciosas, lá estávamos nós trabalhando, algumas vezes em vão; outras, porém, ganhando muito, mas sempre gastando muito, também. O que vem fácil, fácil vai.

Um dia soubemos que neste rio São Francisco, um pouco abaixo daqui, entre as bocas das Velhas e do Jequitahy, havia naufragado uma embarcação que vinha de longe, lá do Paraúna, e ia para Juazeiro, na Bahia, levando pesada carga de ouro e de diamantes.

Um parente do Raimundo tinha assistido ao naufrágio e marcou o lugar certo em que afundou o barco. Era junto a um grande penedo a pique, que forçava o rio a fazer uma volta ligeira e perigosa, em garganta apertada com muita correnteza.

Nós três vimos logo ocasião de fazer fortuna. E resolvemos empreitar o salvamento do tesouro, com a vantagem de metade do que pudéssemos arrancar do fundo do rio.

No momento, porém, era impossível. O rio estava de enchente e as chuvas turvavam muito as águas. Tivemos que esperar mais de mês pela vazante.

Já sabíamos, porém, que o lugar era fundo e dava muita piranha, de modo que o trabalho só podia ser feito com escafandro. Por isso, enquanto esperávamos a vazante, o Celestino foi ao Juazeiro buscar um escafandro de um amigo dele, que o havia comprado a um embarcadiço em São Salvador.

Mas o escafandro tinha os tubos de borracha vermelha, cor que atrai a piranha, porque ela pensa que tudo que é vermelho é carne. Resolvemos, entretanto, o caso, cobrindo os tubos com tiras de metim preto.

E quando as águas baixaram e clarearam, lá fomos nós rio abaixo, com o nosso barco bem equipado para trabalhar o escafandro.

A princípio, custamos a encontrar sinais do barco naufragado. Mas, descendo um pouco, a uns trezentos metros abaixo do lugar marcado pelo cunhado do Raimundo, conseguimos ver a proa de um barco atolado no fundo. Não podia ser outro.

Como prevíamos, o lugar era muito fundo. Só mesmo com escafandro se podia chegar lá.

Amarramos o barco com espias em terra, porque a poita não tinha firmeza para aquela corrente e precisávamos fixar bem o barco, porque o trabalho era demorado.

Feito isso, tiramos a sorte qual de nós três tinha que descer no escafandro. Caiu para o Raimundo, que não fez cara-feia. Era assim que nós trabalhávamos.

A princípio, tudo ia muito bem. Mas, quando o Raimundo fez o sinal de que tinha tocado o fundo, dando dois puxões no cabo, depois de o afrouxar duas vezes, o metim preto, devido ao roçar do cabo, soltou-se num pedaço, descobrindo o tubo vermelho. E logo apareceu uma piranha assanhada. Bati na água com o remo para espantar o peixe. Mas o Celestino achou melhor mergulhar na água para tornar a cobrir o tubo. Não achei bom: disse a ele que as piranhas podiam vir em maior número.

Celestino espiou bem, e, vendo que era uma só, perigosa para o tubo e não para ele, resolveu mergulhar, com o que acabei concordando.

Mas, tão logo ele caiu n’água e pegou o tubo, o rio empreteceu... Saia piranha de todo lado. . . Não se via mais nada. . . Bati com os remos n’água, sem resultado. . . Em vez de subir o Celestino só subia sangue.

Experimentei o tubo: já estava cortado. . . Puxei o cabo: estava partido.

Larguei a bomba de ar ... larguei tudo, para pegar nos dois remos, ... e entrei bater na água como um possesso.

Bati muito, bati até não poder mais, não sei por quanto tempo. . . Em um ponto que a luz era mais forte, vi, no meio do bando de piranhas esfaimadas, os ossos do Celestino, já quase esqueleto só! ... os pelos me arrepiaram em todo o corpo e eu não vi mais nada!

Quando voltei a mim, estava deitado no fundo do barco, que, tendo quebrado as amarras, vogava rio abaixo, volteando em um remanso.

Tinha perdido um remo ... estava escurecendo ... fiquei apavorado!

Com o remo que ficou, remei febrilmente para terra, e conseguindo encostar o barco na praia do remanso, saltei horrorizado, fugindo a todo fôlego daquelas águas tenebrosas.

Andei algumas léguas, sem rumo, até que, perdendo as forças cai sem sentidos. Só acordei ao amanhecer, como quem acorda de terrível pesadelo. Não queria acreditar no que tinha acontecido.

Procurei, mais calmo um pouco, tomar alturas, para saber onde estava. Fiquei satisfeito quando vi que estava na estrada que vai da Barra do Jequitahy a Guaicuhy, cidade em que morava um amigo nosso, o Zé Vicente. Para lá fui, mais morto do que vivo.

Em duas palavras, contei o caso ao Zé, bebi um trago, comi um pouco, sem saber o que ... e só fui descansar no barco do Zé, com quem desci o rio novamente, até o lugar sinistro.

Mas não podíamos ver mais nada. Por ter chovido nas cabeceiras dos rios, a água, que na véspera era clara, estava agora barrenta. Deitamos garateias a tarrafa, para ver se agarrávamos qualquer coisa: o Raimundo no escafandro ou os ossos do Celestino. Nada conseguimos.

Todos os dois ficaram lá, e o tesouro também. Ninguém tentou tirar do fundo aquele ouro maldito!

Depois dessa luta em vão, seu doutor, me veio um febrão, que durou mais de 15 dias. E a toda hora eu via o Celestino e o Raimundo lutando com as piranhas, ao mesmo tempo que uma voz me dizia que aquilo era o prêmio da ambição.

Que horror! seu doutor! Nunca mais peguei na bateia, nunca mais entrei num vau ...

— Mudou de vida, então, seu Januário? — perguntei eu para mudar a conversa.

— Mudei, sim, senhor. Agora só compro e vendo ouro e pedras, com pequeno lucro ... E vou bem, graças a Deus. Só quando me lembro dessas coisas é que ainda me arrepio todo, como o senhor está vendo.

— Mas, seu Januário, para que recorda essas coisas tristes?

— É a sina, seu doutor! ...

— Mas vamos esquecer ‘— concluí eu. — Vamos tomar um trago e jogar um pouco ...

— Ah! o senhor gosta do trago ?!. Então vai beber produto da minha terra.,. Oh! Quincas! (Grita o Januário para o copeiro). Traz aí uma “Januária” ... daquela que a tia Zeferina mandou no Natal! ...

Servida a bebida, pura de cana, fomos jogar, tendo eu desviado a conversa do caso macabro.  Mas, quando acabamos e nos demos o “boa-noite”, o Januário falou:

— Seu doutor, quero um favorzinho seu.

— !?! ...

— Reze um Pai-nosso pro Raimundo mais o Celestino ... Eles merecem.”

(Original de Felix Sampaio)


Fonte: revista semanal "Carioca", de 12/09/1936.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Fábula do Menino e o Jacaré


Era um Menino que morava numa aldeia. A aldeia tinha um lago com um Jacaré muito feroz. Todos os dias o Menino ia passear no lago. E sua mãe dizia: “Menino, cuidado. Não chegue muito perto do lago que o Jacaré te pega”. Mas o Menino ia.

Uma sexta-feira toda a aldeia se assustou com gritos: “Ai, socorro que estão me matando. Ai, socorro que estão me matando”. Os moradores armaram-se de todas as bombas (atômicas, de hidrogênio e plutônio) que estavam a mão e correram para o lago para que o Jacaré não matasse o Menino.

E quando chegaram ao lago não encontraram o Jacaré. E o Menino apontando para eles e suas bombas ria, ria, a bandeiras despregadas. Depois de dizerem que essas coisas não se faziam os moradores da aldeia voltaram para a aldeia.

Quando, no dia seguinte, foram acordados por gritos: “Ai, socorro que estão me matando. Ai, socorro que estão me matando”. E eles pegaram todas as bombas que estavam à mão e correram para o lago e não deixar que o Jacaré pegasse o Menino. Lá chegando os moradores da aldeia não encontraram o Jacaré do lago, mas o Menino ria, ria, a bandeiras despregadas.

Por isso, quando no domingo os gritos “Ai, socorro que estão me matando. Ai, socorro que estão me matando”, invadiram a aldeia, os moradores riram, riram, a bandeiras despregadas e disseram: “Desta vez ele não nos pega. E assim o Menino pode comer o Jacaré, sossegadamente, apesar dos horríveis gritos que soltava o pobre animalzinho.

MORAL: Deixa os outros confiarem em ti, antes de comeres o Jacaré.



Fonte: "O Capitão" - Ano I - Nº XXXV - Fábula e desenhos de Jaguar - Jornal "Última Hora", de 29/2/1964.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O morto vivo

Naquela noite, enquanto os tropeiros do Brejo se acocoravam ao redor da fogueira, contando histórias, o Zé Piaba fez com que todos se calassem e principiou:

— Nem conto... Quando a “coisa” me deu, eu fiquei imóvel como pedra dormindo em fundo de açude. Por mais vontade que tivesse de me levantar não podia...

Puxou um pequeno tição, acendeu o cigarro de palha e prosseguiu, após algumas baforadas:

— Minha mulher, a Raimunda, quando deu pela “bicha”, achou que eu tinha esticado a canela. Abriu a boca no mundo, a chorar e foi logo chamar o compadre Bernardino para tratar do enterro. O mais interessante é que eu não acreditava na minha morte, pois via e ouvia tudo.

Até não pude esquecer nunca a ocasião que a minha costela se lamentava, dizendo ficar sozinha neste mundão de Nosso Senhor. Eis que o compadre, sem cerimônia, a apertou nos braços, e disse que ela não se incomodasse tanto, que se casaria com ela. Como ele era viúvo, seria um casamento igual, de dois viúvos. Ela ficou mais consolada e tudo ficou combinadinho, ali mesmo nas minhas barbas.

Quando foi noite fechada, começaram a chegar os conhecidos. A Raimunda, a todos que lhe davam os pêsames, ia oferecendo boia de carimã com café.

Mais tarde, coisa dumas 10 horas, enfiaram um pau nos punhos da rede. Lá fora a lua era uma beleza, tomando banho no rio que parecia uma lâmina cortando os campos.

Saíram com o “defunto” e foram pela estrada, cantando umas cantigas horríveis, de arrepiar couro e cabelo. Se eu pudesse teria tremido como queixo de impaludado dos Amazonas. Mais porém eu estava caipora mesmo. Nem para tremer prestava. Nem um sinalzinho de vida. Inda hoje parece que ouço a bruta:

Repouso eterno 
Dai-lhe, Senhor, 
Dá luz perpétua 
O resplandor. 

Quando acabaram essas “ladainhas” já os galos abriam o bico a cocoricar. Eu voltei para o ponto de partida, isto é, para o mesmo lugar em casa, pois o enterro seria no dia seguinte.

De manhã, foi que eu vi o negócio espritar-se mesmo. Iam enterrar-me vivinho da Silva, sem mais nem menos. Mentalmente fiz uma oração à Nossa Senhora das Candeias para que iluminasse o espírito daquela gente e não fizesse comigo aquela judiação. Vocês nem calculam como sofri.

Depois que o Padre rebolou uma porção d'água benta em riba de mim, o enterro foi marchando subindo a ladeira para o cemitério. Eu sentia um terror mortal. Acho que minha garganta estava toda cheia por um nó bem grande que não me deixava gritar. Seria nó mesmo ou apenas suposição? Não sei. O que sei é que, quase na hora H, vi que já podia fazer algum movimento.

Estendi a mão e peguei um dos gajos que iam me levando pelo paletó. Ele se virou e quando deu fé daquilo, nem digo nada: soltou a rede no chão. O outro fez o mesmo. E todos, julgando que eu era alma do outro mundo, deram de gâmbias e catrâmbias. Desandaram a correr que nem um estouro de garrotes bravios.

O compadre Bernardino, o apalavrado futuro marido de minha mulher, pensou que aquilo eram artes do Não-sei-que-diga. Quis meter-me uma carga de chumbo nos couros. Mas felizmente a garrucha negou fogo. E todos corriam com medo de mim como um bando de satanás...

A minha cara-metade só foi para casa depois que o doutor foi ver-me e disse que eu tive um ataque de “calapsia”. Ele disse uma coisa mais ou menos assim. Um nomão feio, arrevesado, que só o tal doutor sabe dizer direito.

E assim eu escapei das garras da morte. Quando à noite apareci de repente num samba, todo lampeiro, o povo quis correr, pensando que era assombração.

O compadre Bernardino é que parece que não gostou nadinha. Pouco tempo depois morreu. Penso que de tristura ou paixão recolhida.

Jayme Sisnando 
___________________________________________________________________________
Fonte: Revista O Malho, de maio/1944

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O homem que pôs um ovo

Um marido tinha uma mulher muito gabola de saber guardar segredo. Vivia dizendo que as outras eram saco rasgado e ninguém podia confiar no juízo dela. Tanto se gabou e se gabou que o marido pensou em fazer uma experiência para ver se a mulher era mesmo segura de língua.

Uma noite, voltando tarde para casa, o homem trouxe um grande ovo de pata, que é muito maior do que os da galinha e deitou-se na cama. Lá para as tantas da madrugada, acordou a mulher, todo assustado e pedindo que ela guardasse todo segredo, contou que acabara de pôr um ovo! A mulher só faltou morrer de admiração mas o marido mostrou o ovo e ela acreditou, jurando que nem ao padre confessor havia de dizer o que soubera.

Ora muito bem. Pela manhã, assim que o marido saiu para o trabalho a mulher correu para a vizinha e, pedindo segredo de amiga, contou que o marido pusera um ovo na cama e estava todo aborrecido com essa desgraça. A vizinha prometeu que ninguém saberia mas passou o dia contando o caso, ao marido, aos vizinhos, aos conhecidos, sempre pedindo segredo.

E como quem conta um conto aumenta um ponto, toda vez que a história passava adiante o ovo ia mudando de número. Primeiro era um, depois dois, depois três. Ao anoitecer já o homem pusera meio cento de ovos. Voltando para casa, o marido encontrou-se com um amigo e este lhe disse que havia novidade naquela rua.

- Qual é a novidade?

- Não soube? Uma cousa esquisita! Imagine que um morador nesta rua pôs, penso eu, quase um cento de ovos, seu mano! Diz que está muito doente e que cada ovo tem duas gemas. É o fim do mundo.

O marido não quis saber quem estava de vigia. Entrou em casa, chamou a mulher, agarrou uma bengala e passou-lhe a lenha com vontade, dando uma surra de preceito, que a deixou de cama, toda doída e com panos de água e sal.

Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada. Por isso é que os antigos diziam que:

Quem tiver o seu segredo
Não conte a mulher casada
Ela conta ao seu marido
O marido aos camaradas...
__________________________________________________________________________
(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Enganai-me sempre assim

No mundo há poucos seres tão libertinos quanto o cardeal de… do qual, considerando-se que ainda seja homem saudável e vigoroso, permiti-me guardar o nome em segredo. Sua eminência tem um acordo feito em Roma com uma dessas mulheres cuja profissão oficiosa é fornecer aos devassos objetos necessários ao alimento de suas paixões; todas as manhãs ela leva até ele uma jovem de no máximo treze a catorze anos, a qual monsenhor só usufrui da maneira inconveniente com que os italianos não raro se deliciam, de modo que a vestal, saindo das mãos de Sua Grandeza tão virgem quanto antes, possa, uma segunda vez, ser vendida como nova a algum libertino mais decente.

A matrona, totalmente a par das máximas do cardeal, não encontrando, certo dia, a seu alcance, o objeto cotidiano o qual era obrigação sua fornecer, imaginou travestir como uma menina um belíssimo menino do coro da igreja do chefe dos apóstolos; colocaram-lhe uma peruca, uma touca, saiotes, e todo o aparato falso que se devia impor ao santo homem de Deus. Todavia, não se lhe pôde conferir o que realmente ter-lhe-ia assegurado semelhança total com o sexo que ele imitava; mas essa circunstância muito pouco embaraçava a alcoviteira…

– Ele não pôs as mãos lá nestes dias, – dizia àquela dentre suas companheiras que a ajudava na trapaça ele só visitará, com toda a certeza, o que assemelha essa criança a todas as meninas do universo; assim, nada devemos temer…

A mãezinha se equivocara; decerto ignorava que um cardeal italiano era homem de tato muito delicado, e gosto apurado o bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira vez:

- Per Dio santo, - exclama o homem de Deus – sono ingannato, questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!

E ele verifica… Contudo, nada acontecendo de muito embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-me sempre assim. Mas quando a operação terminou:

- Senhora, – diz ele à aia – não vos censuro por vossa confusão.

- Monsenhor, desculpai-me.

- Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque… O que eu não vir no primeiro momento, verei neste aqui.
___________________________________________________________________________
SADE, Marquês de - Contos Libertinos

O marido padre

Conto provençal

Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinhão, e a de Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas isolado, denominado Saint-Hilaire, assentado no cimo de uma montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita.

Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire - eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas todas as portas de quantos estão à sua volta.

Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge.

No que tange ao Sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir.

Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna (1), rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente?

Desse modo, esse homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da Sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por esposo. Conforme já dissemos, o Sr. Rodin parecia fazer vistas grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes em que o queriam bem longe.

Entretanto, a ocasião era boa. A ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor-lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a Sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la...Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a sair, Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite... Só faltava, portanto, a ocasião.

Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte, Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à realização dos seus desejos.

- Oh, por Deus, senhor magistrado, - diz o monge ao amigo - como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo num momento mais oportuno do que este; ando às voltas comum caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim de serventia sem par.

- Do que se trata padre?

- Conheceis Renoult, de nossa cidade.

- Renoult, o chapeleiro.

- Precisamente.

- E então?

- Pois bem, esse patife me deve cem écus(2), e acabo de saber que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto vos falo, ele já tenha abandonado o Condado... Preciso muitíssimo correr até lá, mas não posso fazê-lo.

- O que vos impede?

- Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a missa fosse para o diabo, e os cem écus voltassem para o meu bolso.

- Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

- Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.

- Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

- Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo de... A meia légua daqui; criatura angelical que, à força da austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido; creio que me dissestes que estudastes para ser padre.

- Certamente.

- Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.

- Faço-o como um arcebispo.

- Ó meu caro e bom amigo! - prossegue Gabriel lançando-se ao pescoço de Rodin - são dez horas agora; por Deus, vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça... Sim, meu amigo, a caça, creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região!

- Vosso plano é bom - diz Rodin - e, para vos fazer um favor, não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria pecado nisso?

- Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum, talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado venial.

- Mas seria preciso repetir a liturgia?

- E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós... Reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais... Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz... eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.

- Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora! Ainda faltam duas horas para o almoço!

- E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes alguma coisa.

- E a tal missa que é preciso celebrar?

- Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-la; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

- Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.

- Bem - diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer boas recomendações do amigo ao sacristão... - contai comigo, meu caro; antes de duas horas estarei aqui - e, satisfeito, o monge vai embora.

Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita tão imprevista.

- Apressemo-nos, minha cara - diz o monge, esbaforido - apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante... Um copo de vinho, e mãos à obra!

- Mas, e quanto a meu marido?

- Ele celebra a missa.

- Celebra a missa?

- Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita, atirando a Sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano...

O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes...

Ele se põe a persuadir a Sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.

- Mas, meu anjo - diz, enfim, a beldade, perfeitamente persuadida - sabeis que se esgota o tempo... Devemos nos separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.

 - Não, não, minha querida - diz o carmelita, apresentando outro argumento a Sra. Rodin -, deixai estar, meu coração, temos todo o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós... Uma vez mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia consagrada.

Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.

- Apenas o quod aures - diz ele - embaraçou-me um pouco; eu queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu me recompusesse; e quanto aos cem écus , padre?

- Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras partes.

Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a Gabriel.

- Celebrei a missa - dizia o grande tolo, rindo com todas as forças - sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as espáduas de Renoult com um forcado... Ele dava com a vara; que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! Boa e querida mãezinha! Como essa história é engraçada, e como os cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto eu celebrava a missa?

- Ah! Meu amigo - responde a mulher - parecia inspiração dos céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos; enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja, meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.
___________________________________________________________________________
SADE, Marquês de - Contos Libertinos

(1) Antiga medida de comprimento de três palmos; (2) Antiga moeda francesa.

sábado, 29 de setembro de 2012

Encontro em Samarcanda


Reza a lenda que um rico mercador árabe, percorrendo o buliçoso mercado de Bagdá, encontra a Morte e esta o informa que dentro de três dias lhe vai levar o mais querido dos seus servos.

Aflito, o mercador chama o servo, dá-lhe um saco de moedas e ordena-lhe que viaje para Samarcanda, cidade longínqua e cosmopolita, situada na movimentada Rota da Seda, enganando assim os desígnios da Morte.

Dois dias depois, deambulando pela cidade, o mercador encontra de novo a Morte, e esta, surpreendida pergunta-lhe:

- Que estranho! Que fazes aqui?

Atrapalhado, o mercador respondeu:

- Exerço o meu mister. Porque perguntas isso? Ao que a Morte responde:

- Por nada de especial. Apenas fiquei espantada, pois tenho amanhã um encontro com o teu servo em Samarcanda e não te esperava encontrar aqui na cidade.

--------------------------------------------------------

Então é isso: ninguém foge ao seu destino. Um dia vai chegar a minha hora, a do caro leitor, de todo mundo: a morte é a única inevitabilidade que conhecemos a partir do dia em que nascemos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Homem no mar

De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele.

Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá.

Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Janeiro, 1953.
___________________________________________________________________________
Extraído do livro "A Cidade e a Roça" - Rubem Braga - Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 11.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Strip-tease

Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.

Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.

Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".

Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."

Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

______________________________________________________________________

Fonte: Texto de Martha Medeiros

quinta-feira, 1 de março de 2012

Um acusador fantasmagórico

Ouvi contar a história que me parece verídica de um homem trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato, mas de um assassinato que ele não imaginava ser possível ao conhecimento humano desvendar.

Quando teve de fazer juramento no tribunal declarou-se inocente, e a corte começou a carecer de provas, só aparecendo suspeitas e circunstâncias. No entanto, todas as testemunhas possíveis foram examinadas, colocando-se estas, como é de costume, num pequeno estrado, para serem visíveis de todo o tribunal.

Quando a corte pensou que não tinha mais testemunhas para inquirir e já estava o homem prestes a ser absolvido, ele deu um salto no lugar onde se achava, como se alguma coisa o amedrontasse. Recobrando, no entanto, a coragem, apontou com o braço para um sítio onde se situavam usualmente testemunhas para depor em julgamento, e fazendo sinais com a mão disse:

- Meritíssimo. Isso não é justo. Isso não é legal. Ele não é uma testemunha legal!

A corte ficou surpresa e não podia entender o que queria dizer o homem. Mas o juiz, um homem de mais penetração, compreendeu o que se passava e, fazendo calar alguns da corte, que desejavam falar e que talvez tivessem ajudado o homem a recuperar a razão, disse:

-Quietos! - disse ele. - O homem vê alguma coisa mais do que nós vemos. Começo a entendê-lo.

E, virando-se para o prisioneiro:

-Como? - disse ele. - Ele não é uma testemunha legal? Creio que a corte aceitará o que disser quando vier a falar.

-Não, Meritíssimo. Não é justo. Não pode ser permitido - declarou o prisioneiro, com uma veemência confusa em sua fisionomia que demonstrava que ele tinha um coração audaz, mas uma consciência culpada.

-Por que não, meu amigo? Que razão você apresenta para isso? - perguntou o juiz.

-Meritíssimo - respondeu este -, nenhum homem pode ser testemunha em causa própria. Ele é uma parte, meritíssimo. Ele não pode ser testemunha.

-Mas você se engana - disse o juiz pois você é indiciado em nome do Rei, e o homem pode ser uma testemunha do Rei, como no caso de um assalto nas estradas nós sempre permitimos que a pessoa assaltada apareça como testemunha, porque, se não fosse assim, o assaltante não poderia ser condenado. Mas nós ouviremos o que tem a dizer quando for inquirido.

Isso foi dito pelo juiz com tanta gravidade e de uma forma tão natural que o criminoso no banco dos réus respondeu:

-Se o senhor permitir que ele seja uma testemunha, eu serei um homem morto.

Essa última palavra ele a pronunciou em tom mais baixo do que o resto, mas pediu uma cadeira para sentar-se.

A corte ordenou que lhe fosse dada uma cadeira, a qual, se não lhe houvesse sido oferecida, teria feito uma falta capaz de fazê-lo cair ao chão. Observou-se que, quando se sentou, aparentava grande consternação e que levantou as mãos várias vezes, repetindo:

-Sou um homem morto! Um homem morto!

Por fim, o juiz disse-lhe:

-Olhe aqui, Senhor... (chamando-o pelo nome). Não lhe resta mais do que um caminho, e eu o lerei para o senhor, do texto das Escrituras.

E, pedindo uma Bíblia, ele a abriu no Livro de Josué, e leu o texto de Josué 7, 19: "Então disse Josué a Acã: Filho, dá glória ao SENHOR Deus de Israel, e a ele rende louvores; e declara-me agora o que fizeste, não mo ocultes".

A essas palavras, o assassino que se condenava a si mesmo rompeu em choro e em lamentação por sua miserável condição, e fez uma inteira confissão do crime. E, quando a terminou, explicou da seguinte maneira os motivos de sua surpresa: que vira a pessoa assassinada no estrado das testemunhas, pronta a ser inquirida e prestes a mostrar a garganta que fora cortada pelo prisioneiro, e que, como disse o réu, permaneceu olhando-o com uma terrível fisionomia. E isso o deixou atônito, como é natural. E, contudo, não houve aparição real, não houve espectro ou fantasma. Tudo lhe pareceu existir por causa de sua culpa e pela agitação de sua alma, inflamada e surpreendida pela influência da consciência.


Daniel Defoe (1660-1731), o célebre autor de As aventuras de Robinson Crusoé foi um dos mais prolíficos escritores que se conhece, com mais de 500 títulos publicados. Entre os inúmeros gêneros que abordou (religião, política, sociologia, história, ficção, poesia) no seu jornal The Review (que ele escrevia praticamente sozinho). Defoe acreditava profundamente na reencarnação e escreveu  Contos de Fantasmas baseado em entrevistas ou relatos conhecidos. Segundo ele, os episódios aqui relacionados – com exceção dos que estão agrupados sob o título de "Falsos fantasmas" – são todos verdadeiros e, em alguns deles, ele estaria disposta a ir em juízo, levando testemunhas e provas concretas. "A aparição da senhora Veal" é um dos exemplos.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O diabo brinca com um mordomo

Um cavalheiro na Irlanda, que vivia perto da casa do conde de Orrery, enviou seu mordomo uma tarde para uma aldeia próxima, a comprar cartas de baralho.

Quando este passou por um campo, divisou um grupo no meio, sentado em torno de uma mesa, onde havia várias iguarias. Quando se aproximou do grupo, todos os seus componentes se levantaram e o saudaram, expressando o desejo de que se sentasse e com eles partilhasse da comida. 

Um deles, no entanto, sussurrou as seguintes palavras no seu ouvido: - Nada faça do que eles o convidam a fazer. - Então, como ele recusou a aceitar-lhes o convite, a mesa e todas as iguarias que a eles guarneciam desapareceram, mas o grupo entrou a dançar ao som de vários instrumentos.

Foi outra vez o mordomo solicitado a participar dos divertimentos, mas nada o convencia a neles ingressar. Por esse motivo, os membros do grupo abandonaram o seu divertimento e começaram a trabalhar, solicitando ainda ao mordomo que a eles se juntasse. Este, no entanto, recusou. Assim, diante de sua terceira recusa, eles todos desapareceram e deixaram o mordomo sozinho, o qual, muito consternado, regressou à casa sem os baralhos, desmaiou quando passou pela porta, mas recuperou os sentidos e contou a seu patrão tudo o que se passara.

Na noite seguinte, um dos fantasmas veio para o pé de sua cama e disse-lhe que, se ousasse dela sair no dia seguinte, seria carregado. Aceito esse conselho, manteve-se quieto até a tardinha, mas, tendo necessidade de urinar, aventurou-se a colocar um pé para fora da porta, coisa que ele tinha acabado de fazer quando uma corda lhe foi passada pela cintura, à vista de várias testemunhas, e o pobre homem foi arrastado para fora da casa com uma rapidez inexplicável, seguido por muitas pessoas.

Mas não foram bastante ágeis para alcançá-lo, até que um cavaleiro, muito bem montado, encontrando-o na estrada e vendo muitos seguidores atrás de um homem puxado por uma corda, sem que ninguém o forçasse, pegou da corda e o parou em sua carreira, mas, em pagamento, recebeu uma tal lambada nas costas, com uma das extremidades da corda, que quase caiu do cavalo. No entanto, sendo um bom cristão, ele se mostrou excessivamente forte para o diabo, e resgatou o mordomo dentre as mãos dos espíritos, trazendo-o de volta para seus amigos.

O lord Orrery, ouvindo falar de tais lances, para conhecer-lhes melhor a verdade, mandou chamar o mordomo, com permissão de seu empregador, e pediu-lhe que passasse algumas noites em sua casa, ao que o empregado obedeceu. O empregado, depois de ali pernoitar pela primeira vez, disse ao conde que o espectro voltara a visitá-lo e lhe dissera que naquele mesmo dia ele desapareceria nos braços dos espíritos, por mais que se tomassem medidas para impedir que isso acontecesse. Diante do que foi levado a um grande aposento, onde se encontravam em grande número pessoas santas para defendê-lo dos assaltos de Satã, entre as quais estava o famoso restaurador de pessoas enfeitiçadas, o senhor Geatrix, que morava nos arredores, e sabia, como se pode supor, como tratar o diabo tão bem quanto qualquer outra pessoa. Além disso, havia dignitários eminentes na casa, entre os quais dois bispos, todos esperando o acontecimento maravilhoso de tal inexplicável prodígio.

Até que decorresse parte da tarde, o tempo passou-se em paz e tranqüilidade, mas, por fim, percebeu-se que o paciente encantado elevava-se do solo sem qualquer ajuda visível, o que fez com que o senhor Geatrix e outro homem, este muito forte, o agarrassem pelos ombros e procurassem trazê-lo de volta ao solo, mas sem resultado. Pois o diabo mostrou-se excessivamente poderoso e, depois de uma luta renhida entre as partes opostas, obrigou os seus inimigos a largar o homem e, retirando-lhes o mordomo, transportou-o por sobre a cabeça dos presentes e o atirou no ar, de um lado para o outro, como se fosse um cachorro num lençol, enquanto várias pessoas corriam por debaixo do pobre homem para evitar que caísse ao chão. Por quais meios, quando terminou a brincadeira dos espíritos, não se pôde achar como naquela baderna, houvesse o amedrontado mordomo recebido o menor dano, saído ileso, aparecendo no mesmo lugar, na mesma condição, para provar que o demônio é um mentiroso.

Os duendes tendo, nessa ocasião, abandonado o seu passatempo e deixado o objeto de seu escárnio repousar um pouco, para que se pudesse revigorar antes do novo ataque, o lorde ordenou que, na mesma noite, dois de seus empregados com ele dormissem, com medo de que o diabo ou outra entidade viesse e o agarrasse, cochilando. Não obstante isso, o mordomo disse ao lorde na manhã seguinte que o espírito voltara a visitá-lo, com a aparência de um falso médico, e trazia na mão direita um prato de madeira cheio de um licor verde, como caldo de carne, à vista do que tentou acordar os seus companheiros de leito.

Mas o espectro disse-lhe que suas tentativas eram baldadas, pois seus companheiros, encantados, estavam mergulhados num profundo sono, e avisou-o para não se atemorizar, porque ele era o mesmo espírito que o precavera no campo, para que não se juntasse ao grupo que ali se reunia, quando partira para comprar cartas de jogar; acrescentou o espírito que se o mordomo não se tivesse recusado a obedecer ao que lhe pedia o grupo teria passado a sofrer a vida inteira. Também o espírito se mostrou espantado de que o mordomo houvesse escapado no dia anterior, porque sabia que contra ele se formara uma poderosa combinação. Disse que no futuro não haveria mais tentativas da mesma natureza. Afirmou o espectro que sabia que o mordomo era sujeito a duas espécies de acessos e que, como amigo, trouxera um remédio que o curaria de ambos, aconselhando-o a que o tomasse.

Mas o pobre paciente, que fora miseravelmente tratado por tal espécie de charlatães vestidos de médicos, e temendo que o demônio estivesse no fundo do prato, não queria deixar-se convencer a engolir a dose, o que enfureceu o espírito. Este disse-lhe, no entanto, que sentia afeição por ele, mordomo, e que, se este amassasse as raízes de uma bananeira, sem as folhas, e bebesse o sumo, ficaria certamente curado de uma espécie de seus acessos. Mas, como punição por causa da teimosia que o mordomo havia demonstrado, sofreria da outra espécie de acessos até morrer.

Então, o doutor espiritual perguntou ao paciente se o conhecia. O mordomo disse que não.

- Eu sou - disse ele - o fantasma errante, a alma penada de seu velho conhecido John Hobby, que faleceu e foi enterrado faz sete anos. E desde então, por causa do mal que fiz em vida, tenho andado em companhia desses maus espíritos que você viu no campo, e sou levado de um lado para o outro nessa condição em que não encontro repouso, estando fadado a continuar no mesmo estado miserável até o dia do juízo final. - Acrescentou o espírito fantasiado de falso médico: - Se você tivesse servido o seu Criador nos dias da juventude, e rezado na manhã em que saiu para comprar cartas de baralho, não teria sido tratado pelos espíritos que o atormentaram com tanto rigor e severidade.

Depois que o mordomo relatou tais passagens maravilhosas ao lorde e família, consultaram-se os dois bispos, presentes entre outras pessoas de qualidade, para saber se devia o mordomo seguir o conselho do espírito e tomar o sumo da bananeira, e se fizera bem ou mal ao recusar tomar o líquido que o espectro lhe oferecera. A questão ao princípio pareceu objeto de discussão, mas, depois de algum tempo, chegaram os bispos à conclusão de que o mordomo agira como um bom cristão, em todo o assunto, pois era um grande pecado seguir o conselho do diabo em qualquer coisa, e que nenhum homem devia praticar o mal com a esperança de conseguir o bem.

Em resumo, o pobre mordomo, depois de seus sofrimentos, não obteve qualquer recompensa pelo que passara, tendo-lhe sido negado, pelos bispos, o benefício, ou a aparência de benefício, que o espírito pretendia conferir-lhe.



Daniel Defoe (1660-1731), o célebre autor de As aventuras de Robinson Crusoé foi um dos mais prolíficos escritores que se conhece, com mais de 500 títulos publicados. Entre os inúmeros gêneros que abordou (religião, política, sociologia, história, ficção, poesia) no seu jornal The Review (que ele escrevia praticamente sozinho). Defoe acreditava profundamente na reencarnação e escreveu  Contos de Fantasmas baseado em entrevistas ou relatos conhecidos. Segundo ele, os episódios aqui relacionados – com exceção dos que estão agrupados sob o título de "Falsos fantasmas" – são todos verdadeiros e, em alguns deles, ele estaria disposta a ir em juízo, levando testemunhas e provas concretas. "A aparição da senhora Veal" é um dos exemplos.

O espectro e o salteador

Uma história nos conta que Hind, o famoso assaltante, o mais famoso desde Robin Hood, encontrou um espectro na estrada num sítio chamado Stangate-hole, no condado de Huntingdon, lugar onde usualmente cometia seus roubos, e famoso por muito assalto de estrada, desde então.

O espectro apareceu na forma de um simples vendedor rural de gado. E como o diabo conhecia muito bem os lugares em que Hind se escondia e que freqüentava, chegou a uma hospedaria, pôs o cavalo na cocheira e fez com que o hospedeiro carregasse a mala que trazia, que era muito pesada, até o quarto que alugara.

Quando se viu no quarto, abriu a mala, retirou o dinheiro, que parecia estar contido em vários pequenos embrulhos, e o colocou em não mais do que dois sacos, distribuídos de maneira a pesar igualmente dos dois lados do cavalo e a chamar tanta atenção quanto possível.

E raro que as hospedarias que abrigam ladrões não sejam freqüentadas por espias, para que proporcionem aos primeiros as necessárias informações. Hind soube do dinheiro, olhou o homem, olhou o cavalo, para que os pudesse reconhecer. Apurou a direção para onde se dirigia o comerciante. Esperou-o e encontrou-o em Stangate-hole, bem no fundo da garganta entre as duas colinas, e o fez parar, dizendo-lhe que devia entregar o dinheiro.

Quando Hind mencionou o dinheiro, o vendedor simulou surpresa, fingiu cair em pânico, tremeu, demonstrou bem o medo, e num tom digno de compaixão disse:


-Não passo, como o senhor vê, de um homem pobre! Na verdade, senhor, não disponho de dinheiro. (Assim o diabo mostrou que podia dizer a verdade, quando isso lhe servia.)

-Seu velho vagabundo! - disse Hind. - Você não tem dinheiro? Vamos, abra os seus alforjes e dê-me os dois sacos, um de um lado da sela e outro, de outro. Como é que você pode não dispor de dinheiro e, contudo, seus sacos são muito pesados para ficarem, os dois, de um lado só? Vamos, entregue o que tem, ou eu o farei em pedaços neste mesmo momento.

Ao dizer isso, é claro que Hind se excedeu, pois pronunciou ameaças que não podia cumprir.

O pobre diabo lamentou-se e chorou, e repetiu que o salteador deveria estar enganado; devia tomá-lo por outra pessoa, porque ele, de fato, não tinha dinheiro.

-Vamos, vamos - disse Hind venha comigo.

E tomou o cavalo do vendedor pelas rédeas e o conduziu para dentro da mata, muito densa de ambos os lados da estrada, porque o negócio tomaria tempo e seria perigoso concluir na estrada aberta.

Quando se achava no interior da mata, disse:

-Vamos, senhor Vendedor de Gado, desmonte e dê-me os sacos neste exato minuto.

Em poucas palavras, fez o pobre homem desmontar, cortou as rédeas e as cilhas do cavalo, abriu os alforjes, onde deu com os dois sacos.

-Muito bem - disse Hind -, aqui estão eles, e tão pesados quanto antes.

Atirou-os ao chão e abriu-os com a faca: num ele encontrou uma corda para enforcar, ou baraço, e noutro deparou com uma peça de estanho sólido na forma exata de uma forca. E o camponês que se achava atrás dele disse:

- Eis o seu destino, Hind. Tome cuidado! Se Hind ficou surpreso com o que achou nos sacos - pois não havia um só centavo de dinheiro no saco onde deu com a corda -, mais surpreso ainda ficou ao ouvir o vendedor chamá-lo pelo nome, e virou-se para matá-lo, pois julgou ter sido reconhecido. Mas o sangue lhe gelou nas veias quando, virando-se (como eu disse) para matar o camarada, não deparou com mais do que o pobre cavalo.

Caiu ao chão e ali permaneceu por um tempo considerável. Não lhe foi possível dizer quanto tempo, porque estava sozinho, mas deve ter sido questão de muitos minutos. Voltando a si, por fim, partiu aterrorizado ao mais alto ponto e envergonhado, pensando no que tudo aquilo significava.

Indiquei que não havia dinheiro num dos sacos, mas havia uma moeda no outro, moeda essa que a história diz que era escocesa: uma moeda na Escócia intitulada de um "quatorze", o que corresponde em inglês a treze pence e meio penny para pagar o carrasco. É possível supor que daí tenha derivado o dito popular, até hoje em uso, de que treze pence e meio penny é o soldo do carrasco.


Daniel Defoe (1660-1731), o célebre autor de As aventuras de Robinson Crusoé foi um dos mais prolíficos escritores que se conhece, com mais de 500 títulos publicados. Entre os inúmeros gêneros que abordou (religião, política, sociologia, história, ficção, poesia) no seu jornal The Review (que ele escrevia praticamente sozinho). Defoe acreditava profundamente na reencarnação e escreveu  Contos de Fantasmas baseado em entrevistas ou relatos conhecidos. Segundo ele, os episódios aqui relacionados – com exceção dos que estão agrupados sob o título de "Falsos fantasmas" – são todos verdadeiros e, em alguns deles, ele estaria disposta a ir em juízo, levando testemunhas e provas concretas. "A aparição da senhora Veal" é um dos exemplos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O terrível velho

Era intenção de Ângelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva fazerem uma visita ao Velho Ruim. Esse ancião morava sozinho em uma casa antiguíssima na Rua d’Água, perto do mar, e tinha a reputação de ser ao mesmo tempo muito rico e muito frágil.

Tratava-se de uma combinação de qualidades muito atraentes para homens da profissão dos senhores Ricci, Czanek e Silva, que ganhavam a vida praticando aquela atividade que o tempo dignificou: o roubo.

Os habitantes de Kingsport diziam e pensavam muitas coisas sobre o Velho Ruim que, em geral, o mantinham a salvo das atenções de cavalheiros como o Sr. Ricci e seus companheiros, apesar do fato quase certo de que ele ocultava uma fortuna de grandeza indefinida em algum local de sua morada bolorenta e venerável. Com efeito, era pessoa estranhíssima, de quem se acreditava ter sido no passado capitão de clípere das Índias Orientais; era tão velho que ninguém se lembrava do tempo em que era jovem, e tão taciturno que poucos conheciam seu verdadeiro nome.

Entre as árvores retorcidas do pátio fronteiro de sua vetusta e desleixada vivenda, ele conservava uma estranha coleção de grandes pedras, agrupadas de maneira esquisita e pintadas de modo a se assemelharem aos ídolos de um obscuro templo oriental. Essa coleção afugentava, amedrontados, a maioria dos meninos que gostavam de implicar com o Velho Ruim por causa de seus cabelos e de sua barba branca, ou de quebrar as janelas de pequenas vidraças de sua casa com perversos petardos.

No entanto, haviam outras coisas que assustavam as pessoas mais velhas e mais curiosas que às vezes se esgueiravam até a casa para olhar pelas vidraças empoeiradas. Diziam essas pessoas que sobre uma mesa no andar térreo viam-se várias garrafas singulares, cada uma delas tendo em seu interior um pedacinho de chumbo suspenso por um fio, à guia de pêndulo. E diziam que o Velho Ruim conversava com essas garrafas, dirigindo-se a elas por nomes como Jack, Cicatriz, Tomazão, Zé Espanhol, Peters e Imediato Ellis, e que sempre que falava a uma das garrafas, o pequenino pêndulo de chumbo em seu interior produzia certas vibrações claras, como se respondesse.

Aqueles que tinham visto o Velho Ruim, alto e macérrimo, mantendo essas esquisitas palestras não procuravam olhá-lo de novo. Mas Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva não tinham sangue de Kingsport; pertenciam àquela geração alienígena, nova e heterogênea, que se situava fora do cativante círculo da vida e das tradições da Nova Inglaterra, e viam no Velho Ruim tão somente um barbudo trôpego e quase caduco, incapaz de caminhar sem a ajuda de sua bengala nodosa e cujas mãos magras e débeis tremiam deploravelmente. A seu modo, na verdade até compadeciam-se daquele sujeito solitário e impopular, de quem todos fugiam e para quem os cães ladravam de maneira singular. Entretanto, trabalho é trabalho, e para um ladrão que dedicou sua alma à profissão há uma atração e um desafio em um homem idoso e débil que não tinha conta no banco e que pagava suas poucas compras na loja da cidade com ouro e prata da Espanha, cunhada há dois séculos.

Os senhores Ricci, Czanek e Silva escolheram para sua visita a noite de 11 de abril. O senhor Ricci e o senhor Silva deveriam entrevistar-se com o infeliz cavalheiro, enquanto o senhor Czanek esperaria, a eles e à sua carga, presumivelmente metálica, com um carro na Rua do Cais, ao lado do portão do alto muro nos fundos da casa do ancião. Foi o desejo de evitar explicações desnecessárias no caso de inesperadas intrusões da força policial que levou a esse plano de partida serena e sem alarde. Tal como combinado, os três aventureiros puseram-se a caminho separadamente, a fim de evitar quaisquer suspeitas malévolas posteriores.

Os senhores Ricci e Silva se encontraram no portão de entrada da casa, na Rua d’Água, e embora não gostassem nada da maneira como a lua brilhava, iluminando as pedras pintadas através dos galhos florescentes das árvores retorcidas, tinham coisas mais importantes em que pensar além de tolas superstições. Temiam que fossem obrigados a tarefas desagradáveis para obrigar o Velho Ruim a se mostrar loquaz a respeito de seu tesouro de ouro e prata, pois os velhos lobos-do-mar são notavelmente cabeça-dura e avarentos.

Mas, afinal, ele era velhíssimo e debilitadissimo e havia dois visitantes. Os senhores Ricci e Silva eram experientes na arte de persuadir pessoas obstinadas, e os gritos de um homem fraco e excepcionalmente venerável poderiam ser abafados com facilidade. Assim refletindo, chegaram até uma janela iluminada e ouviram o Velho Ruim conversar infantilmente com suas garrafas com pêndulos. Depois, colocaram máscaras e bateram cortesmente na porta de carvalho, manchada pelo tempo.

A espera pareceu interminável ao Sr. Czanek, que se remexia, impaciente, no carro coberto junto ao portão dos fundos da casa do Velho Ruim, na Rua do Cais. Tinha o coração mais sensível do que o dos comuns mortais, e não apreciou em nada os gritos medonhos que ouviu na casa antiga, pouco depois da hora aprazada para a visita. Não havia ele recomendado aos colegas que mostrassem a maior gentileza possível para com o patético ex-capitão? Nervoso, ele vigiava aquela estreita porta de carvalho no muro revestido de hera. Freqüentemente consultava o relógio e se admirava com a demora. Haveria o ancião morrido antes de revelar onde ocultara seu tesouro, tornando forçosa uma busca rigorosa?

Ao Sr. Czanek não agradava esperar tanto tempo no escuro e em tal local. Percebeu então passadas suaves ou arrastar de pés no caminho do outro lado do portão, ouviu que abriam de leve a tranca enferrujada e viu a porta, estreita e pesada, abrir-se para o lado de dentro. E à luz pálida da única luz da rua, esforçou-se para ver o que os colegas tinham trazido de dentro daquela casa sinistra, que parecia agora maior do que nunca. Entretanto, ao olhar, não viu aquilo que havia esperado; pois não eram seus camaradas que estavam ali, mas apenas o Velho Ruim, apoiado serenamente em sua bengala nodosa e tendo nos lábios um sorriso tétrico. O Sr. Czanek jamais havia notado a cor dos olhos daquele homem; eram amarelos.

Coisas pequenas causam considerável agitação em cidadezinhas, e foi por isso que a gente de Kingsport falou durante toda aquela primavera e todo aquele verão a respeito dos três corpos que haviam sido trazidos pela maré, impossíveis de identificar, horrivelmente dilacerados, como por obra de muitos cutelos, e horrivelmente mutilados, como que pisados por muitas botas cruéis. E algumas pessoas até se detiveram a falar e fatos triviais como o carro abandonado que havia sido encontrado na Rua do Cais, ou de alguns gritos notavelmente inumanos, provavelmente de algum animal extraviado ou de um pássaro migrante, ouvido de noite por cidadãos despertos.

Mas por todo esse disse-me-disse ocioso de cidade pequena, o Velho Ruim não demonstrou qualquer interesse. Era, por sua própria natureza, pessoa reservada, e quando se é idoso e débil, as reservas naturais sem dúvida redobram. Ademais, um lobo-do-mar tão entrado em anos só podia ter sido testemunhas de vintenas de fatos muito mais excitantes, nos dias longínquos de sua juventude já esquecida.


O medo

Subimos ao tombadilho depois do jantar. Diante de nós, o Mediterrâneo não apresentava a mínima ondulação em toda a sua superfície, iluminado por uma lua grande e plácida. O grande barco deslizava, atirando ao céu semeado de estrelas uma enorme serpente de fumaça negra; e, atrás de nós, a água, toda branca, agitada pela rápida passagem da pesada embarcação, castigada pela hélice, espumava e parecia contorcer-se, desmanchando-se em tantos clarões que se diria que o luar borbulhava.

Éramos seis ou oito que ali nos encontrávamos, silenciosos, em contemplação, o olhar voltado para a África longínqua para onde nos dirigíamos. O comandante, que fumava um charuto conosco, retomou subitamente a conversa do jantar.

"Sim, tive medo naquele dia. Meu navio permaneceu seis horas com o rochedo encravado no bojo, sacudido pelo mar. Felizmente, fomos recolhidos à tarde por um carvoeiro inglês que nos avistara."

Então, um homem alto, de rosto tisnado e aspecto grave, um desses homens que nos dão a impressão de terem atravessado vastos e desconhecidos países, no meio de perigos constantes, e cujo olhar tranqüilo parece conservar, lá no fundo, algo das paisagens estranhas que viu, um desses homens que adivinhamos forjados na coragem, falou pela primeira vez:

"Comandante, o senhor diz que teve medo; não acredito nisso. Engana-se em relação ao sentido da palavra e à sensação que experimentou. Um homem enérgico jamais sente medo diante de um perigo iminente. Fica emocionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa".

O comandante replicou, rindo:

"Essa agora! Garanto-lhe que tive medo, sim".

Então, o homem de tez bronzeada falou com voz lenta:

- Permitam-me que me explique! O medo (e os homens mais valentes podem sentir medo) é algo terrível, uma sensação atroz, uma espécie de dilaceramento da alma, um tremendo espasmo da inteligência e do coração, cuja simples lembrança nos faz estremecer de angústia. Mas, quando se é corajoso, isso não acontece diante de um ataque, nem diante da morte inevitável, nem diante de qualquer das formas conhecidas do perigo; isso acontece em determinadas circunstâncias anormais, sob determinadas influências misteriosas e diante de riscos vagos. O verdadeiro medo é algo como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora. Um homem que acredita em fantasmas e que imagina ver espectros à noite deve sentir o medo em todo o seu medonho horror.

Quanto a mim, descobri o medo em pleno dia, há cerca de dez anos. Tornei a senti-lo durante o inverno passado, numa noite de dezembro.

E, no entanto, passei por muitos perigos, por muitas aventuras que pareciam mortais. Lutei muitas vezes. Fui largado como morto por ladrões. Na América, fui condenado à forca como insurreto, e fui atirado ao mar do tombadilho de um navio, nas costas da China. Em cada uma dessas ocasiões, julguei-me perdido e resignei-me à situação sem sentir compaixão nem lamentar-me.

Mas o medo não é isso.

Pressenti-o na África. Entretanto, ele é filho do Norte; o sol dissipa-o como a um nevoeiro. Reparem bem, senhores. Para os orientais, a vida não tem valor; a resignação é fácil; as noites são límpidas e sem lendas, as almas igualmente livres das sombrias inquietações que perseguem os cérebros nos países frios. No Oriente, podem conhecer o pânico, mas ignoram o medo.

Pois bem, eis o que me aconteceu nas terras da África:

Eu atravessava as grandes dunas ao sul de Ouargla. É uma das mais estranhas regiões do mundo. Os senhores conhecem a areia compacta, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Pois bem! Imaginem o próprio oceano transformado em areia em meio a um furacão; imaginem uma tempestade silenciosa de vagas imóveis de poeira amarela. São altas como montanhas, essas vagas desiguais, estranhas, erguidas como ondas desencadeadas, porém maiores ainda e estriadas como o chamalote. Sobre esse mar furioso, mudo e imóvel, o sol meridional, incandescente, incide sua chama implacável e direta. É preciso escalar essas vagas de cinza dourada, descer, tornar a subir, subir o tempo todo, sem descanso nem sombra. Os cavalos arquejam, afundam até os joelhos, e escorregam ao descer a outra vertente dessas surpreendentes colinas.

Éramos dois amigos acompanhados por oito spahis e quatro camelos com os respectivos cameleiros. Não falávamos mais, prostrados de calor e fadiga, e ressequidos pela sede como esse deserto ardente. De súbito, um dos nossos homens soltou uma espécie de grito; todos pararam e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno conhecido pelos viajantes daquelas regiões perdidas.

Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, um tambor rufava, o misterioso tambor das dunas; rufava distintamente, ora mais forte, ora mais fraco, parando e depois recomeçando seu rufar fantástico.

Os árabes olhavam-se apavorados e um deles disse na sua língua: "A morte paira sobre nós". E eis que, inesperadamente, meu companheiro, meu amigo, quase meu irmão, caiu do cavalo, de cabeça, fulminado por uma insolação.

E durante duas horas, enquanto em vão eu tentava salvá-lo, esse tambor invisível encheu-me os ouvidos com seu rufar monótono, intermitente e incompreensível; e, diante desse morto querido, naquele buraco incendiado pelo sol, entre quatro montes de areia, eu sentia o medo insinuar-se dentro dos meus ossos, o verdadeiro medo, o horrível medo, enquanto o eco desconhecido nos trazia, a duzentas léguas de qualquer aldeia francesa, o rufar rápido do tambor.

Naquele dia compreendi o que era sentir medo; soube-o ainda melhor numa outra vez...

O comandante interrompeu o narrador:

"Perdão, senhor, mas esse tambor? O que era?

O viajante respondeu:

- Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais, surpreendidos muitas vezes por esse ruído singular, atribuem-no geralmente ao eco ampliado, multiplicado, desmesuradamente aumentado por aquela série de pequenos vales formados nas dunas, eco formado pelas saraivadas de grãos de areia carregados pelo vento que esbarram em tufos de ervas secas; pois sempre se observou que o fenômeno ocorre nas proximidades daquelas plantinhas queimadas pelo sol e duras como pergaminho.

Esse tambor, portanto, não passaria de uma espécie de miragem sonora. Aí está. Mas só soube disso mais tarde.

Chego à minha segunda emoção.

Foi no inverno passado, numa floresta a nordeste da França. A noite chegou duas horas mais cedo, de tal modo o céu estava sombrio. Tinha por guia um camponês que caminhava ao meu lado por uma trilha muito estreita, sob uma abóbada de abetos através de cuja ramagem uivava um vento furioso. Por entre a copa das árvores, via nuvens correndo em desordem, nuvens enlouquecidas que pareciam fugir de algo aterrador. Às vezes, sob uma rajada violenta, toda a floresta se inclinava na mesma direção com um gemido de dor: e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e das minhas roupas pesadas.

Devíamos cear e dormir na casa de um guarda florestal da qual nos aproximávamos. Eu ia lá para caçar.

Às vezes, meu guia erguia os olhos e murmura: "Que tempo horrível!" Depois falou-me das pessoas da casa para onde íamos. Dois anos antes, o pai matara um caçador furtivo e desde então se tornara taciturno, como que perseguido por uma recordação. Tinha dois filhos casados que viviam em sua companhia.

As trevas eram cerradas. Nada via à minha frente nem à minha volta, e a ramagem das árvores que se entrechocavam enchia a noite de um contínuo sussurro. Enfim, avistei uma luz e meu companheiro não tardou em bater a uma porta. Responderam-nos gritos agudos de mulheres. Depois, uma voz de homem, uma voz abafada, perguntou: "Quem vem lá?" Meu guia se identificou. Entramos. O que se viu, então, foi um quadro inesquecível.

Um velho de cabelos brancos, olhar de louco, com uma espingarda engatilhada na mão, esperava-nos de pé no meio da cozinha, enquanto dois robustos rapazes armados de machados guardavam a porta. Divisei duas mulheres ajoelhadas em cantos sombrios, o rosto voltado contra a parede.

Explicamo-nos. O velho tornou a encostar a arma na parede e mandou preparar o meu quarto; depois, como as mulheres não se movessem, disse-me bruscamente:

"Veja, senhor, matei um homem faz dois anos nesta noite. No ano passado ele voltou para chamar-me. Espero-o ainda esta noite".

E acrescentou num tom que me fez sorrir:

"Por causa disso não estamos tranqüilos".

Tranqüilizei-o como pude, feliz por ter vindo justamente naquela noite e assim assistir ao espetáculo desse terror supersticioso. Contei algumas histórias e quase cheguei a acalmar todos eles.

Junto à lareira, um velho cão, bigodudo e quase cego, um desses cães que se parecem com conhecidos nossos, dormia com o focinho entre as patas.

Lá fora, a tempestade enfurecida sacudia a pequena casa e, através de uma estreita vidraça, colocada junto à porta, eu via, de repente, à luz de grandes relâmpagos, o arvoredo açoitado pelo vento.

Apesar dos meus esforços, percebia que um terror profundo dominava aquelas pessoas e, sempre que parava de falar, todos os ouvidos escutavam ao longe. Cansado de assistir a medos imbecis, ia pedir para me deitar quando, de súbito, o velho guarda saltou de sua cadeira, tornou a apanhar a espingarda, balbuciando com uma voz alucinada:

"Ele está aqui! Ele está aqui! Ouço-o". As duas mulheres tornaram a cair de joelhos em seus cantos, escondendo o rosto; e os filhos voltaram a pegar nos machados. Ia tentar novamente acalmá-los quando o cão adormecido despertou de repente, levantou a cabeça, esticou o pescoço e, fitando o fogo com seus olhos quase cegos, soltou um desses uivos lúgubres que fazem estremecer os viajantes quando passam à noite pelos campos. Todos os olhos voltaram-se para ele, que agora permanecia imóvel, erguido sobre as patas como que perseguido por uma visão, uivando para qualquer coisa invisível, desconhecida, medonha sem dúvida, pois tinha o pêlo todo eriçado. O guarda, lívido, gritou: "Ele o está sentindo! Ele o está sentindo! Ele estava lá quando o matei". E as duas mulheres, desvairadas, começaram a uivar junto com o cão.

Involuntariamente, um grande arrepio percorreu-me a espinha. A alucinação do animal, naquele lugar, àquela hora, no meio daquela gente alucinada, era um espetáculo medonho.

Então, durante uma hora, o cão uivou sem se mover; uivou como na angústia de um pesadelo; e o medo, o horrível medo, apoderou-se de mim. Medo de quê? Será que sei? Era o medo, eis tudo.

Permanecíamos imóveis, lívidos, na expectativa de algo pavoroso, o ouvido atento, o coração agitado, sobressaltando-nos ao menor ruído. E o cão começou a andar em torno da sala, farejando as paredes e continuando a ganir. Esse animal nos enlouquecia. De repente, o camponês que me trouxera, tomado por uma espécie de paroxismo de terror, jogou-se sobre ele e, abrindo a porta que dava para um pequeno pátio, enxotou-o.

Imediatamente o cão se calou: e nós ficamos mergulhados num silêncio ainda mais aterrador. Depois, todos nós estremecemos ao mesmo tempo: um ser deslizava contra a parede externa da casa, do lado da floresta; passou pela porta, que pareceu tatear com mãos hesitantes; depois não se ouviu mais nada durante dois minutos que quase nos enlouqueceram; em seguida, tornou a voltar, sempre roçando a parede; e arranhou-a ligeiramente como faria uma criança com a unha; e, subitamente, uma cabeça surgiu atrás da fresta de vidro, uma cabeça branca com olhos luminosos como os das feras. E um som saiu-lhe da boca, um som indistinto, um murmúrio de lamento.

Então, um estrondo formidável ressoou na cozinha. O velho guarda disparara. Imediatamente, os filhos se precipitaram e taparam a fresta, empurrando contra ela a enorme mesa que prenderam com o aparador.

Juro-lhe que, ao ouvir o inesperado tiro, senti uma tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me senti desfalecer, prestes a morrer de medo.

E assim ficamos até o nascer do sol, incapazes de fazer um só movimento, de dizer uma única palavra, tomados de um intraduzível pânico.

Ninguém ousou desobstruir a porta a não ser quando percebemos, por uma fenda do alpendre, um tênue raio de luz.

Junto à parede, contra a porta, o velho cão jazia, a garganta despedaçada por uma bala.

Saíra do pátio cavando um buraco por baixo da cerca.

O homem de rosto moreno calou-se; depois acrescentou:

"Nessa noite, entretanto, não corri nenhum perigo; mas preferiria reviver todas as horas nas quais enfrentei os mais terríveis perigos, ao simples minuto do tiro sobre a cabeça barbuda atrás da fresta envidraçada".

(23 de outubro de 1882)

(Tradução de José Thomas Brum)

por Guy de Maupassant

A morta

Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.

Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo.

E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.

E depois ela morreu.

Como? Não sei, não sei mais. Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.

O que aconteceu? Não sei mais.

Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"

Não soube de mais nada. Nada. vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.

Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! meu Deus!

Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.

Ontem, regressei a Paris.

Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, daquelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.

E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.

Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho - toquei-o - estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que conteve, tudo o que passou à sua frente, tudo o que se contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."

Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.

Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois, percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apoderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.

E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!

Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres, de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.

Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvore verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.

E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.

Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.

Vaguei durante muito, muito tempo. Não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Que noite! Não a encontrava!

Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!

Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.

E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente, ela se movia, como se a estivessem levantando. Com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."

O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda, e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escreveu com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."

Quando acabou de escrever, o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.

E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonestos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.

Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.

Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.

Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.

E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera:

"Ela amou, foi amada, e morreu", divisei:

"Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu".

Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.


(31 de maio de 1887)

(Tradução de José Thomas Brum)

por Guy de Maupassan