terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sonho de Natal

Sonhou que era um desses Papais-Noéis pendurados entre os edifícios cariocas, à guisa de decoração natalina. Ficara dias e dias naquela posição incômoda, meio ao estilo jaca madura, balançando lá em cima.

Já não se lembra mais quanto tempo ficou balançando entre dois prédios, mas se lembra nitidamente que, no sonho, passados os dias das Festas, apareceu um caminhão e — finalmente — recolheram-no num desses carros da Limpeza Urbana e levaram para um depósito, onde outros Papais-Noéis, iguais a ele, já estavam amontoados pelos cantos.

Atiraram-no também a um canto e ele lá ficou, triste no seu infortúnio. Foi quando um outro Papai-Noel ao seu lado deu um suspiro e falou:

— Que papelão a gente fez, hem irmão?

— Não diga — respondeu ele: — Que coisa! Dois meses pendurados, que nem Judas, em Sábado de Aleluia.

— É... mas o Judas fica um dia só. Depois malham o coitado e o suplício acabou.

Tal tinha sido o vexame, que os outros Papais-Noéis do seu sonho, que eram muitos, espalhados no depósito, concordaram unanimemente que sua sorte foi pior. Cada um lembrava certo detalhe da experiência que acabavam de sofrer. Foi quando ele falou:

— No lugar onde estava pendurado tinha um garoto chato que passava o dia me atirando caroços de feijão pela janela.

— Devia ser um filho de rico, para ter feijão para atirar assim.

Os Papais-Noéis todos sorriram. Só um manteve-se sério e cabisbaixo, vítima de evidentes frustrações. Só falou quando todos já não tinham mais nada a dizer. Pigarreou e lascou:

— Azar maior dei eu, companheiros. Fiquei pendurado em frente à janela de uma pequena que vou te contar. Como era boa! Toda noite ela tirava a roupa com a janela aberta.

— Então não era tão chato o seu lugar — ponderou um dos Papais-Noéis.

— É o que você pensa — atalhou o que contava sua história. — Eu dava um azar desgraçado. Toda noite ela se despia com a janela aberta, mas na hora em que ia ficar pelada, o vento me virava de costas.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora

Vinho tinto seco, doce ou suave?

Cada tipo de vinho nada tem a haver com a terminologia. O seco é aquele vinho chamado de tranqüilo, o vinho de mesa fino. Aquele que você fala “tomei um malbec, um cabernet sauvignon, um merlot”, no caso dos tintos ou então chardonnay, riesling, sauvignon blanc, no caso dos brancos.

Vinho suave é vinho doce. Aquele vinho açucarado. Os chamados “vinhos dos padres”, os vinhos de garrafão. Aquele vinho que tem adicionado 20 gramas de açúcar por litro. Isso é sete vezes mais que o açúcar natural do vinho fino seco de mesa. E isso dá muita confusão com vinho doce. Na verdade, vinho tinto doce é vinho do Porto, que não tem açúcar, fica doce pelo elevado teor alcoólico, acima de 18% de álcool. De 15% até 18% chama-se de vinho fortificado, que também pode ficar doce ou seco! Agora, vinho suave é quando se acrescenta açúcar.

Mas também existe o Porto seco e branco que, para aperitivo, é muito bom. Chama-se dry white e é ótimo para abrir o apetite! Agora, o vinho doce de sobremesa, os late harvest, colheita tardia, ice wine, tokaj, sauternes, Pedro Ximenes, são todos vinhos doces naturais, não levam açúcar. É a uva que passa da época, concentra açúcar dela própria e o vinho ganha esse doce natural e delicioso.

Ou seja, vinho tinto seco é aquele que tem marca e o nome da uva escrito ou então é conhecido pela origem, como Bordeaux e Borgonha na França, pelos produtores na Itália, em Portugal, etc. O vinho tinto doce é o fortificado ou do Porto e o vinho tinto suave tem acréscimo de açúcar e é comumente identificado como vinho de garrafão ou chapinha.

Mas existe o vinho tinto doce e frisante. É um Lambrusco, frisante de tinto. Também leva adição de açúcar, mas tem só 8% de álcool, porque não é feita a segunda fermentação, como os espumantes. Sai pelo método do Asti.

Uma pesquisa muito curiosa, que saiu em 2009, feita por cientistas australianos e britânicos e publicada na Inglaterra, descobriu que as pessoas com predileção pelos vinhos de sabor doce tendem a impulsividade. Já os adeptos dos vinhos secos seriam mais abertos. Esse estudo foi feito com 45 pessoas e, segundo os pesquisadores, a preferência pelo sabor doce varia ao longo da vida. Ela é maior na infância e vai reduzindo no final da adolescência. Como na degustação de vinho trabalha-se muito a memória afetiva da infância, talvez seja essa uma das razões pela preferência pelo vinho adocicado.

Fonte: Gourmet Brasília.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rádio pirata

Rádios piratas são emissoras que não possuem concessão governamental para funcionar. Em tese, elas possuem baixa potência de transmissão e o alcance de seu sinal é restrito. Sempre uma faixa vazia do dial é usada para colocar uma rádio dessas no ar. Quem age dessa forma está cometendo uma infração ao atual Código Brasileiro de Telecomunicações, cujas penas estão previstas em lei. Mesmo assim, muitas pessoas não temem as eventuais punições e se aventuram em seus projetos de rádio pirata.

Não há um número definido de quantas emissoras não legais estão no ar atualmente. Para cada uma delas que é fechada pela Anatel, pelo menos quatro são abertas. Os termos rádio livre e rádio comunitária também se enquadram aqui nesse tipo de radiodifusão. O problema é que a imprensa brasileira acaba usando os termos como sinônimos e isso acaba criando uma certa confusão na cabeça do leitor/ouvinte.

A primeira rádio pirata surgiu na Inglaterra, na década de 50. Era a Rádio Caroline. A terminologia rádio pirata foi usada para designar a emissora porque as suas transmissões eram feitas a partir de um navio que ficava na costa britânica. A Caroline foi uma rádio revolucionária em sua época. Em seu play list musical predominava o então emergente rock and roll norte-americano e isso mexeu com a cabeça da moçada. A rede de rádio estatal BBC teve de criar a BBC One (que existe até hoje) para competir com a Caroline.

Já o conceito de rádio livre surgiu na Itália, nos anos 60 e uma das mais fortes foi a Rádio Alice. A intenção dessas rádios era fazer oposição contra o governo e combater o monópólio estatal na radiodifusão italiana. Rádio comunitária é um conceito que ganhou força aqui no Brasil nos anos 90. São emissoras que, em tese, deveriam transmitir para a sua comunidade, prestando serviços e dando voz e vez aos seus moradores. Um exemplo é a Rádio Favela FM, de Belo Horizone, que como o próprio nome já sugere, fica localizado bem no meio de uma favela na região metropolitana daquela capital. Há pouco tempo, a Favela FM teve o seu trabalho reconhecido pelo governo federal depois de muita luta e ganhou uma concessão de rádio educativa.

No Brasil, pouco a pouco vão aparecendo relatos de transmissões de rádio clandestinas acontecidas na década de 50. O marco oficial das transmissões de rádio pirata no Brasil aconteceu na década de 70 e ganhou força nos anos 80. No início era uma diversão de técnicos em eletrônica, que por hobby montavam transmissores de rádio caseiros. Depois, grupos políticos de esquerda e algumas associações estudantis resolveram colocar as suas emissoras no ar como uma forma de protesto contra o governo da época e contra o sistema de distribuições das concessões de rádios oficiais, que privilegiava apenas a políticos. As transmissões de muitas dessas estações aconteciam durante a noite, como forma de burlar a fiscalização. Alguns apresentadores usavam pseudônimos, para não serem identificados e, posteriormente, presos.

Na década de 90, a situação mudou. A absolvição de Léo Tomaz, da Rádio Reversão, uma das que foram fechadas, causou uma verdadeira revolução. Com Tomaz sendo declarado inocente no processo, havia uma jurisprudência legal para que várias emissoras sem concessão se espalhassem pelo país. Ou seja, rádio pirata continuava sendo crime, mas as chances de condenação por causa isso diminuiram. Com a explosão das piratas no país, o governo federal se viu praticamente obrigado a mandar uma lei para o Congresso Nacional para regulamentar a situação. A tramitação durou pelo menos uns três anos e finalmente saiu a Lei de Radiodifusão Comunitária, de número 9.612, isso no ano de 1998.

Mas a lei não mudou muito o panorama. Várias emissoras clandestinas continuam no ar. O perfil é o mais variado possível. Algumas são ligadas a estudantes, como é o caso da Rádio Muda, de Campinas, mantida pelos alunos da Unicamp. Outras pertencem a igrejas de todos os tipos (católicas e evangélicas) que procuram fazer as suas pregações religiosas. E existem aquelas que pertencem a quem simplesmente quer ganhar dinheiro vendendo anúncios e espaço de programação a quem estiver interssado. Geralmente, elas copiam o modelo das rádios oficiais de sucesso, não trazem novidades em termos de linguagem e programação musical e com isso não acrescentam nada ao ouvinte.

As piratas são o principal estorvo das rádios oficiais hoje em dia. Elas alegam que levam prejuízos com a pirataria nas ondas do rádio, pois constantemente o sinal de ambas os tipos de emissoras se mistura e faz com que o ouvinte tenha uma má recepção, principalmente quando ele está em movimento no seu automóvel. Essa briga não vem de hoje e, ao que tudo indica, não vai acabar tão cedo.

Fonte: Rodney Brocanelli - http://www.webjoy.com.br/esquizofrenia/radios.htm