sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A metamorfose

Ao despertar Gregório Santos uma manhã, após um sono intranquilo, encontrou-se em sua cama convertido em um Boeing 707. Achava-se meio bambo sobre o trem de aterragem e ao tentar alçar a cabeça notou que ela estava perfeitamente fixa como todas as aeronaves, mormente as de procedência estrangeira. Ao seu redor, reminiscências das casas de seus vizinhos, sombreadas por suas possantes asas bimotor jatadas. De seu polpudo leito, somente a recordação envolta nos escombros de sua vasta mansão, onde, na certa, seus velhos haviam se soporiferizado sonhando com leões.

— Que me aconteceu, senhor dos desgraçados?

Apesar de Castro Alves “approach” nada ouviu senão um tonitruar de turbinas à jato e uma vozinha dentro de si:

— Senhores passageiros, favor apertar os cintos de segurança e não fumar durante a decolagem.

Não era sonho. Havia se convertido realmente em colosso aéreo e muito provavelmente da TAP. Não muito satisfeito em sua condição luso-aeroplana, Gregório refletiu:

— “E se eu dormisse um pouco? E’ bem possível que, ao acordar, tudo volte ao normal”.

Mas, Gregório havia se acostumado a dormir do lado direito, e à primeira tentativa de inclinar suas reluzentes asas, ocasionou o que se chama de uma celeuma. Gritos irromperam de seu ventre, gente correu à volta, e um carrinho vermelho fez evoluções e se aproximou langorando um sirenear. Gregório percebeu angustiado que iam decolar.

No ar sentiu-se melhor e roncou satisfeito. No céu estava mais perto de sua santa família. Fitou os urubus com desprezo e pensou, já cônscio de suas novas responsabilidades:

— “Muito pior seria se eu fosse um helicóptero”, e recitou o soneto “Círculo vicioso” tão machadianamente, que foi sua também a surpresa que fez a aeromoça mandar os passageiros apertar o cintos ante tamanho rugido.

— Este avião está louco! — bradou o comandante.

Pelo que pouco tempo depois foi vendido às “Aerolineas Argentinas” sendo, hoje em dia, mundialmente conhecido, como “El Niño Roncador”.
(Por Ildázio Tavares)



Fonte: "O Capitão" - Ano I - Nº 18 - Editorial e desenhos de Jaguar e Max - Jornal "Última Hora", de 26/10/1963.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Os sintomas

Há dias que vinha sentindo uma dorzinha fina na virilha. Rosamundo, com aquela distração que é a sua bandeira de comando, só começou a senti-la provavelmente depois de muito tempo, pois até parador o Rosa é distraído. Na tarde em que percebeu a dorzinha, pensou: "Devo ter me contundido durante o futebol", sem se lembrar de um detalhe importante, ou seja, nunca jogou futebol.

À noitinha a dor diminuíra. Devia ser íngua. Mas Rosamundo é um sujeito muito impressionável. Para se sugestionar é quase um botafoguense, embora torça pelo Andaraí, time que já saiu da liga, mas ele ainda não percebeu.

Dias depois, visitando um amigo, com o qual estava brigado mas não se lembrava, encontrou-o acamado, sob a ameaça de seguir a qualquer momento para uma casa de saúde, onde seria operado, em regime de urgência, de uma hérnia.

Entre gemidos o amigo explicava como aquilo começara. Sentira uma dorzinha na virilha. Logo que começou pensou que era uma íngua e nem deu importância. Já nem se lembrava mais da dorzinha quando ela voltou com uma violência quase insuportável. Sentiu primeiro a impressão de que as calças estavam lhe apertando, mas as calças que vestia eram até folgadinhas. A impressão, no entanto, ficara, até dar naquilo: ali deitado, à espera do médico para entrar na faca.

E o amigo gemia. Foi quando chegou o médico, examinou assim por alto e sentenciou: "Temos de operar imediatamente. É uma hérnia estrangulada". E lá fora o amigo de Rosamundo a caminho do hospital. O Rosa, por sua vez, foi para casa, mas não tirava da cabeça a lembrança da dorzinha que sentira, parecidíssima com a do doente.

Sua suspeita transformou-se em pânico na manhã seguinte. Acordara tarde e atrasado para um encontro. Vestira-se no quarto escuro, para não acordar a mulher, e se mandara. Ainda não chegara ao encontro e todos os sintomas que levaram o outro para a operação de emergência começaram ase manifestar nele. Até aquele detalhe da calça que parecia apertar, mas estava folgada a olhos vistos, ele sentia.

Disparou para casa e foi logo pedindo o médico. Estava com hérnia. Deitou-se vestido mesmo, com medo de piorar, e a mulher apavorada começou a telefonar para o médico. Chamado assim às pressas, veio imediatamente. Entrou no quarto, olhou para a cara impressionantemente pálida de Rosamundo e mandou que ele se despisse para o exame.

E foi aí que o Rosa percebeu que, em vez de cueca, vestira de manhã a calcinha da mulher.


Fonte: "Gol de Padre e Outras Crônicas" — Stanislaw Ponte Preta — Editora Ática.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Dicionário Enciclopédico da Noite

Dicionário Enciclopédico da Noite, sabem lá o que é isso? Pois trata-se de obra de peso, desde já fadada a um êxito estrondoso, pois que é assinada por Stanislaw Ponte Preta (e ao escrever este nome, as teclas da nossa intemerata remington semi-portátil ficam embargadas de emoção).

O fero cronista, sempre no seu crescente desejo de melhor informar — porque não dizer? de melhor faturar na caixa deste vespertino, resolveu escrever com o auxílio de sua prodigiosa memória, a qual é capaz mesmo de dizer quantas vezes o Francisco Landi tirou terceiro lugar em corridas internacionais, um dicionário enciclopédico da noite, e com nomes de gente, nomes de lugares, nomes de coisas, comidas, bebidas, música, tudo aqui enfim que rebola pela noite a fora.

Cumpre esclarecer que a ortografia adotada em toda a obra é decorrente, não só do acordo ortográfico de 1943, celebrado entre o Brasil e Portugal, como também do acordo pornográfico, celebrado entre os cafés e boates desta cidade. E’ nosso dever também explicar que o “Dicionário Enciclopédico da Noite” cumpre religiosamente as “Instruções para a organização do vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa”, aprovadas unanimemente (até o Olegário aprovou) pela Academia Brasileira de Letras, na sessão de 12 de agosto de 1943 e que não transcrevemos porque não foram redigidas por Stanislaw Hushi Ku-Roy (é assim que nos chamam em Tóquio) e, consequentemente, seria fastidioso para vocês lerem.

A título de amostra, para dar exemplo, aos que, menos afortunados pela sutil deusa da inteligência, ainda não compreenderam, Stanislaw Puente Negra (é assim que nos chamam em Barcelona), vai fazer uma pequena demonstração.

Na letra “P”, por exemplo, encontramos:

PETIT CLUB — Restaurante dirigido por Mirtes Paranhos. Fica na esquina das ruas Cinco de Julho com Constante Ramos em Copacabana. Tem uma galinha assada pontepretana.

Na letra “C”, por exemplo, temos:

CLÔ PRADO — Senhora da sociedade paulista, que faz umas peças fraquinhas, fraquinhas, mas que tem muito público.

Na letra “B” podemos encontrar:

BORORÓ — Veterano boêmio desta praça. Meirinho de dia e compositor de noite. Autor de um dos mais célebres choros do mundo: “Da cor do pecado”, ou seja, a cor de Luana (Teu cenário é uma beleza!). O epigrafado tem cabelos brancos e está geralmente acompanhado pela polícia, isto é, o delegado Melo Moraes (vide letra “M”), seu mais dileto amigo.

Na letra “P”, entre outros vocábulos e citações, estão:

PIPOCA — Coisa que criança adora e que serve também pra gente beber mais. Alguns bares do Rio costumam servir pratinhos sub-reptícios de pipoca com as bebidas. A gente vai comendo distraído, fica com a língua salgada e pede mais bebida.

PICADINHO — Um dos pratos mais servidos nas boates do Rio. O picadinho foi imposto à freguesia por ser um prato econômico: o filé de ontem é o picadinho de hoje e a almôndega de amanhã.

Na letra “A” — e esta é a última que damos como exemplo — encontramos:

AURY CAHET — “Show-girl’, irmã de Auny Cahet.

AUNY C’HFT Show-girl”, irmã de Aury Cahet.

Esquema

Com o auxílio — repetimos — de sua invejável memória, faceta marcante de sua exuberante personalidade, o maior baluarte da imprensa sadia colecionou, com a displicência que o caracteriza, 1.200 páginas que serão publicadas paulatinamente nesta coluna, à medida que o tempo for passando e o assunto for faltando.

Brasileirismo e regionalismos da noite, expressões idiomáticas, termos populares e de gíria, gente que vive nos “riversides” da vida, gente que aproveita a noite para beber, gente que aproveita a noite para trabalhar (garçons, “maitres”, “cabareties”, músicos, cantores, coristas, atores, produtores, contrarregras, cenógrafos, fotógrafos, “taxis-girls”, etc.), estrangeirismos usuais, abreviaturas, frases elucidativas, explicações sobre expressões anômalas (gente anômala também), o étimo de grande número de palavras usadas mais à noite, pronúncia em casos duvidosos, tudo com esclarecimentos do campeão mundial da crônica.

Aguardem pois

Assim sendo, Stanislaw Scwartz Brik (é assim que nos chamam em Jerusalém) pede aos leitores universais que tenham calma e aguardem a breve publicação parcelada do “Dicionário Enciclopédico da Noite”.


Fonte: Última Hora, de 27/04/1956 — Reportagem de Bolso - Stanislaw Ponte Preta