Numa roda de amigos, queixou-se amargamente. Rosnava para um e outro:
— Vivo uma tragédia! — E repetia, com o olho rútilo: — Uma tragédia!
Então, um dos presentes, o Pimentel, bate-lhe nas costas e passa-lhe um pito jucundo:
— Você fala de barriga cheia! Tragédia de araque! Um sujeito como tu, cheio de mulheres! Escuta, Peixoto. Você não sabe o que fazer de tanta mulher!
Peixoto abre os braços:
— Pimentel, olha. Escuta, Pimentel. Aí é que está. A minha tragédia é justamente essa. Entende? Essa! Tenho mulher demais! Deixa eu falar! Eu nasci com um temperamento que Deus me livre. Não posso ver uma. Enfrento buchos horrorosos!
Em redor, houve um espanto divertido:
— Chuta tuas mulheres! Passa adiante!
Assim espicaçado, ele começou a dar chutes no ar. Estava ridículo e terrível:
— Chuto, sim. Estou disposto. Ouve aqui. Estou disposto a fazer uma liquidação das minhas mulheres! — E trincava os dentes: — Uma liquidação de mulheres na avenida Passos!
DOENÇA
Pouco depois, abandonava o grupo. O Pimentel, que tinha um encontro, o acompanhou. E o Peixoto, particularmente deprimido, fez-lhe confidencias ainda mais dramáticas:
— Imagina tu. Vê se pode. Hoje, em minha casa. No meu próprio lar, Pimentel!
O amigo pensou na empregada. Mas Peixoto foi taxativo:
— Antes fosse a empregada. Antes fosse. Cunhada, Pimentel! Percebeste? Cunhada!
— Qual delas?
Param numa esquina, à espera do sinal. Peixoto esbraveja:
— A viúva! Perdeu o marido há dois meses. Ou nem isso. E, hoje, eu quase pulo no pescoço da infeliz. Se minha mulher não aparece. Por acaso, foi uma casualidade. Se não aparece, eu atacava! E já imaginaste o bode?
Pimentel pigarreia: — “Bem, mas. A tua cunhada vale. De mais a mais, o luto desperta, inspira”. Peixoto respira fundo:
— Qual nada! Isso é doença! Vou ao médico! Doença, no duro! Até logo, lembranças, até logo!
O MÉDICO
No dia seguinte, consultou os colegas do escritório:
— Qual é o médico que trata de sujeito que só pensa em mulher?
O subcontador, o Carvalhinho, faz espanto: — “Isso é doença, é?”. Peixoto rosna:
— Não faz piada! No meu caso, é doença!
Ante a alegre curiosidade dos amigos, explicou que era portador de um desejo indiscriminado e universal. Não fazia discriminação de cor, de idade, de estado civil, de nada. Repetia para os colegas: — “Isso não é normal, não pode ser normal!”. Deixa passar um momento e torna: — “Deve haver um remédio. É impossível que não haja um remédio!”. O Carvalhinho deu a idéia:
— Vai ao Ribas. Psiquiatra de mão cheia.
Quis saber: — “É caro?”. E o Carvalhinho:
— Puxado, mas vale.
Depois do almoço, lá foi o Peixoto para o Ribas. Deixou com a enfermeira mil pratas e pensava:
— Esses médicos são uns gângsteres!
Finalmente, pôde entrar. E viu-se diante de um sujeito de avental, esguio e lívido. Na sua cadeira giratória, o dr. Ribas faz a primeira pergunta e o Peixoto começa, ansiosamente:
— Doutor, o meu problema é o seguinte: — eu acho que tenho um excesso de energia.
Batendo com o lápis na mesa, o médico quis saber: — “Como excesso de energia?”.
Com uma certa vergonha, explica:
— Não posso ver mulher, doutor. Qualquer uma, já sabe. Mesmo as feias, as horrorosas, doutor. Eu não faço seleção. Não seleciono.
O médico levanta-se. Andando de um lado para outro, fala:
— Em amor, a seleção é um equívoco ou, pior, uma deficiência. Só os insuficientes é que escolhem muito, escolhem demais. Meu amigo, a natureza não manda o senhor preferir a Ava Gardner, a Lollobrigida. Para a natureza, qualquer mulher é mulher. E os buchos também são filhos de Deus, que é que há?
Confuso, balbuciou:
— Mas, doutor, o meu problema...
O médico atalha: — “Meu amigo, não chame isso de problema. Isso nunca foi problema, nem aqui, nem na China”. Peixoto gagueja: — “Quer dizer que...”. E o dr. Ribas:
— Meu amigo, se todos os maridos fossem como o senhor, a loucura feminina seria mínima. O que põe a mulher no hospício, quase sempre, é a falta de amor.
Batata!
Peixoto já não sabia mais o que dizer, o que pensar. Interiormente, chorava amargamente os mil cruzeiros da consulta. Perguntou, finalmente:
— Não tenho, então, nenhuma doença, doutor?
Dr. Ribas pôs-lhe a mão no ombro:
— Doença? Meu amigo, sossega! Você tem uma mina. Escuta, um momento. Você tirou a sorte grande. Vou lhe dizer mais: — atrás dessa doença ando eu. Eu queria que isso fosse contagioso. Palavra de honra!
Levou-o até a porta. Baixou a voz, grave:
— Está de parabéns!
O INFELIZ
Ao sair do consultório, Peixoto não sabia se estava radiante ou desesperado. Mas, no elevador, via uma gorducha, vestido colante, decote espetacular e toda uma cintilação de jóias. Peixoto dardeja-lhe o primeiro olhar e já começou a respirar forte. Embaixo, a baiaca sai na frente e o Peixoto, alucinado, atrás. Mais adiante, o lábio trêmulo, uma luminosidade no olhar, pergunta, por cima do ombro da desconhecida:
— Posso acompanhá-la?
A mulher vira-se. Olha-o de cima a baixo:
— Quer que eu chame o guarda?
E ele, ofegante:
— Perdão. A senhora me interpretou mal.
Não se controlava mais. Em sentido contrário, vinha uma fulana qualquer. Bonita? Feia? Peixoto não saberia dizê-lo, nem era problema. Deixa uma por outra. Com uns olhos imensos e fixos de Svengali, balbucia:
— Minha senhora, olha, escuta. Sinto por si uma forte simpatia.
A fulana apressa o passo. O rapaz via outras. Fora de si, dirige-se a um senhor. Pede, chorando:
— O senhor me segura? Quer me fazer o favor de me segurar? Ou me segura ou eu agrido todas as mulheres, todas!
O outro não compreendia. Ele soluçava:
— Eu quero ser amarrado! Preciso ser amarrado!
Uns dez tiveram que agarrá-lo.
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A
coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é...
/ Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo:
Companhia das Letras, 1993.
Aqui tem humor, crônicas, contos, futebol das antigas, gibis, mpb, biografias de artistas e atrizes de hollywood.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
A morta
Basta dizer o seguinte: era uma pequena cidade, quase inexistente, metida nos cafundós-do-judas. Nem rádio, nem telefone, nem dentista. E o que a caracterizava acima de tudo era a falta de mulher. Ao todo uma meia dúzia para uns cento e cinqüenta seringueiros. Acresce que estavam todas casadas e que os maridos eram válidos e com um senso feroz e homicida de propriedade.
Eles avisavam:
— Quem se meter a besta, já sabe. Passo fogo!
E ninguém mexia com as infelizes. Elas viviam encerradas nos seus buracos, sob controle tremendo, sem alegria nenhuma. Quando abriam a boca, era um rir de dentes cariados. Não cuidavam de si, não se enfeitavam. Enfeitar para quê? Para o próprio marido? De pé no chão e imundas, não interessariam a ninguém, salvo ao esposo e aos cento e cinqüenta seringueiros, coitados, que viviam no mato e que já nem se lembravam da própria condição humana.
E foi nesta cidade, esquecida de Deus, que o Quincas bateu um dia. Chegou, foi espiando e perguntando, a um e outro:
— Como é que é o negócio aqui, hein?
Disseram:
— Uma droga.
Resposta vaga que não satisfez a quem vinha de fora, e não conhecia coisa nenhuma da cidade, nem suas pessoas, nem seus costumes. No único boteco do lugar, com um companheiro acidental, o Quincas explicou que fora para ali, sabe por quê? Baixou a voz:
— Matei uma cara. Estou fugindo da polícia.
A MULHER
Com a tremenda vitalidade dos seus vinte e cinco anos, trazia uma idéia fixa. E perguntou:
— Aqui tem boas pequenas?
— Tem e não tem.
Espantou-se:
— Como?
O outro foi mais claro:
— Todas as mulheres aqui são casadas.
— Todas?
— Todas.
E o Quincas, na febre dos vinte e cinco anos, insistiu:
— Mas não se dá um jeito? Não se arranja uma solução?
O companheiro cuspiu por cima do próprio ombro e foi categórico:
— Não há solução.
Não houve limites para a decepção de Quincas. Pulou:
— Essa é a maior! — E, cutucando o outro: — “Nem pagando mais? Muito mais? O dobro?”.
Batia no próprio bolso:
— Faz uma forcinha, faz!
A FOME
Então, desanimado, o Quincas começou a perambular pela cidade. E, pouco a pouco, foi perdendo as ilusões. No fim de dez dias, era outro homem: fez uma meia dúzia de amigos e perguntava:
— Como é? As mulheres daqui não dão as caras?
— Você é besta!
— Por quê?
Riram na cara dele:
— Você pensa que os maridos vão deixar? A mulher que meter o nariz do lado de fora está frita.
Quincas coçou a cabeça, praguejou:
— Terra amaldiçoada!
Nostálgico da cidade, nostálgico do litoral, acabou se lembrando da pequena que matara. Contou que ela o passara para trás. Mas, naquele fim do mundo, em pleno território do Acre, suas idéias sobre a fulana já eram outras. Dir-se-ia que o ódio ia, gradualmente, extinguindo-se no seu coração. Admitia:
— Tinha suas qualidades.
Os amigos, com água na boca, faziam perguntas diretas e sôfregas:
— Bom corpo?
E ele, fincando os cotovelos na mesa, numa convicção profunda:
— Que coxas!
Os outros se entreolhavam, numa inveja medonha. Houve quem explodisse:
— Você é uma boa besta. Não devia ter matado. Que palpite infeliz!
Quincas acabou reconhecendo:
— Foi um golpe errado!
E, agora, já se contentaria com o mínimo, ou seja, “ver” uma das mulheres locais. Seria uma satisfação visual, uma espécie de triste e idiota compensação. Interpelava os habitantes: “Como é que vocês agüentam?”. Os outros respondiam: “A gente se acostuma”. E ele, passando a mão pela cabeleira imensa, à Búfalo Bill, dava murros na mesa:
— Pois olha! Eu não agüento. Qualquer dia estouro!
A falta de uma mulher doía mais nele do que fome, sede. Dizia a si mesmo: — “Se, ao menos, um desses pilantras morresse!”.
A IDÉIA
Um dia, no boteco, aventurou:
— Sabe o que é que mais me admira? Que me deixa besta?
— O quê?
E ele, na sua fúria contida:
— Que ninguém aqui tenha se lembrado de matar um pilantra desses e ficar com a mulher!
Houve um silêncio. Todas as caras presentes pareciam espantadas. Um fulano, que catava lêndeas na cabeça de outro, interrompeu esta função. Estava de boca aberta, num assombro absoluto. Deixou-se cair numa cadeira, como se a idéia, que jamais lhe ocorrera, o deslumbrasse. O Quincas, vendo o efeito, tratou de explorá-lo. Era direito aquilo, era? Enquanto uma meia dúzia tinha mulher, cento e cinqüenta sujeitos não. Deu outro murro na mesa:
— Não somos palhaços de ninguém! — E esbravejava, cada vez mais exaltado: — Está errado, erradíssimo!
Então, pouco a pouco, as bocas, as mãos, os olhos foram se transformando. Dir-se-ia que a loucura do Quincas contagiava todo mundo. E o rapaz, arregimentando adesões, berrava: “Por que é que o marido há de ter mais direito do que nós?”. Formulava o problema com uma expressão de triunfo: “Respondam”. E, fora de si, aduzia o argumento numérico: “O marido é um só e nós somos cento e cinqüenta!”. Queria, em resumo, que fossem, de casa em casa, arrancar as mulheres. Houve um súbito berro coletivo no boteco. E teria acontecido o diabo se, de repente, não irrompesse, ali, um sujeito, de pés descalços e barbudo como os outros. O sujeito anunciou:
— A mulher do Baiano está morrendo!
O ROSTO
De um instante para outro, a fúria se fundiu em espanto. Quincas apertou a cabeça, entre as mãos, gemendo:
— É o cúmulo! É o cúmulo!
E, sem mais palavra, aqueles homens atormentados dirigiram-se, num maciço e solidário grupo, para a casa do Baiano. Iam fazer o quê? Nem o próprio Quincas poderia dizê-lo. Crispavam as mãos e suas gargantas estavam secas e ardentes. À medida que iam avançando pelo mato, o Quincas tomava-se de uma fúria obtusa contra as potências misteriosas do destino. E só dizia, entredentes: “Como é que pode? Como é que pode?”. Parecia-lhe provação demais que morresse uma mulher num lugar em que existiam tão poucas.
Enfim, chegaram diante da casa do Baiano. Quincas adiantou-se, mas não chegou a bater, porque o próprio Baiano surgia diante do grupo, apontando a carabina. Lá dentro ninguém chorava pela mulher que, doente do peito, acabara de morrer. E o dono da casa, com os olhos injetados, a boca torcida, avisou:
— Ninguém toca em minha mulher! O primeiro que der um passo come fogo!
Era taciturno e mau, e cumpriria a ameaça. Então, Quincas, mais moço que os outros, com a memória ainda recente das mulheres da cidade, pediu, implorou:
— Não queremos nada demais. Só espiar tua mulher. Um pouquinho só.
O marido acabou deixando. E houve o desfile, maravilhado, pelo quarto, onde estava a infeliz, um esqueleto com um leve, muito leve, revestimento de pele. Eram homens praticamente loucos, possessos. Mas respeitaram a morte. Alta noite, o marido apanhou de novo a carabina e foi enxotando:
— Fora daqui, todo mundo! E não pensem que eu sou besta de enterrar minha mulher! Não confio em nenhum de vocês, seus cachorros!
Saíram todos, já na antecipada nostalgia do rosto feminino. Sozinho, o marido fechou tudo, arriou as trancas da porta. E, então, encerrado com a mulher, derramou querosene na defunta e em si mesmo; riscou um fósforo e fez a dupla fogueira.
Do lado de fora, os homens rondavam, enfurecidos.
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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Eles avisavam:
— Quem se meter a besta, já sabe. Passo fogo!
E ninguém mexia com as infelizes. Elas viviam encerradas nos seus buracos, sob controle tremendo, sem alegria nenhuma. Quando abriam a boca, era um rir de dentes cariados. Não cuidavam de si, não se enfeitavam. Enfeitar para quê? Para o próprio marido? De pé no chão e imundas, não interessariam a ninguém, salvo ao esposo e aos cento e cinqüenta seringueiros, coitados, que viviam no mato e que já nem se lembravam da própria condição humana.
E foi nesta cidade, esquecida de Deus, que o Quincas bateu um dia. Chegou, foi espiando e perguntando, a um e outro:
— Como é que é o negócio aqui, hein?
Disseram:
— Uma droga.
Resposta vaga que não satisfez a quem vinha de fora, e não conhecia coisa nenhuma da cidade, nem suas pessoas, nem seus costumes. No único boteco do lugar, com um companheiro acidental, o Quincas explicou que fora para ali, sabe por quê? Baixou a voz:
— Matei uma cara. Estou fugindo da polícia.
A MULHER
Com a tremenda vitalidade dos seus vinte e cinco anos, trazia uma idéia fixa. E perguntou:
— Aqui tem boas pequenas?
— Tem e não tem.
Espantou-se:
— Como?
O outro foi mais claro:
— Todas as mulheres aqui são casadas.
— Todas?
— Todas.
E o Quincas, na febre dos vinte e cinco anos, insistiu:
— Mas não se dá um jeito? Não se arranja uma solução?
O companheiro cuspiu por cima do próprio ombro e foi categórico:
— Não há solução.
Não houve limites para a decepção de Quincas. Pulou:
— Essa é a maior! — E, cutucando o outro: — “Nem pagando mais? Muito mais? O dobro?”.
Batia no próprio bolso:
— Faz uma forcinha, faz!
A FOME
Então, desanimado, o Quincas começou a perambular pela cidade. E, pouco a pouco, foi perdendo as ilusões. No fim de dez dias, era outro homem: fez uma meia dúzia de amigos e perguntava:
— Como é? As mulheres daqui não dão as caras?
— Você é besta!
— Por quê?
Riram na cara dele:
— Você pensa que os maridos vão deixar? A mulher que meter o nariz do lado de fora está frita.
Quincas coçou a cabeça, praguejou:
— Terra amaldiçoada!
Nostálgico da cidade, nostálgico do litoral, acabou se lembrando da pequena que matara. Contou que ela o passara para trás. Mas, naquele fim do mundo, em pleno território do Acre, suas idéias sobre a fulana já eram outras. Dir-se-ia que o ódio ia, gradualmente, extinguindo-se no seu coração. Admitia:
— Tinha suas qualidades.
Os amigos, com água na boca, faziam perguntas diretas e sôfregas:
— Bom corpo?
E ele, fincando os cotovelos na mesa, numa convicção profunda:
— Que coxas!
Os outros se entreolhavam, numa inveja medonha. Houve quem explodisse:
— Você é uma boa besta. Não devia ter matado. Que palpite infeliz!
Quincas acabou reconhecendo:
— Foi um golpe errado!
E, agora, já se contentaria com o mínimo, ou seja, “ver” uma das mulheres locais. Seria uma satisfação visual, uma espécie de triste e idiota compensação. Interpelava os habitantes: “Como é que vocês agüentam?”. Os outros respondiam: “A gente se acostuma”. E ele, passando a mão pela cabeleira imensa, à Búfalo Bill, dava murros na mesa:
— Pois olha! Eu não agüento. Qualquer dia estouro!
A falta de uma mulher doía mais nele do que fome, sede. Dizia a si mesmo: — “Se, ao menos, um desses pilantras morresse!”.
A IDÉIA
Um dia, no boteco, aventurou:
— Sabe o que é que mais me admira? Que me deixa besta?
— O quê?
E ele, na sua fúria contida:
— Que ninguém aqui tenha se lembrado de matar um pilantra desses e ficar com a mulher!
Houve um silêncio. Todas as caras presentes pareciam espantadas. Um fulano, que catava lêndeas na cabeça de outro, interrompeu esta função. Estava de boca aberta, num assombro absoluto. Deixou-se cair numa cadeira, como se a idéia, que jamais lhe ocorrera, o deslumbrasse. O Quincas, vendo o efeito, tratou de explorá-lo. Era direito aquilo, era? Enquanto uma meia dúzia tinha mulher, cento e cinqüenta sujeitos não. Deu outro murro na mesa:
— Não somos palhaços de ninguém! — E esbravejava, cada vez mais exaltado: — Está errado, erradíssimo!
Então, pouco a pouco, as bocas, as mãos, os olhos foram se transformando. Dir-se-ia que a loucura do Quincas contagiava todo mundo. E o rapaz, arregimentando adesões, berrava: “Por que é que o marido há de ter mais direito do que nós?”. Formulava o problema com uma expressão de triunfo: “Respondam”. E, fora de si, aduzia o argumento numérico: “O marido é um só e nós somos cento e cinqüenta!”. Queria, em resumo, que fossem, de casa em casa, arrancar as mulheres. Houve um súbito berro coletivo no boteco. E teria acontecido o diabo se, de repente, não irrompesse, ali, um sujeito, de pés descalços e barbudo como os outros. O sujeito anunciou:
— A mulher do Baiano está morrendo!
O ROSTO
De um instante para outro, a fúria se fundiu em espanto. Quincas apertou a cabeça, entre as mãos, gemendo:
— É o cúmulo! É o cúmulo!
E, sem mais palavra, aqueles homens atormentados dirigiram-se, num maciço e solidário grupo, para a casa do Baiano. Iam fazer o quê? Nem o próprio Quincas poderia dizê-lo. Crispavam as mãos e suas gargantas estavam secas e ardentes. À medida que iam avançando pelo mato, o Quincas tomava-se de uma fúria obtusa contra as potências misteriosas do destino. E só dizia, entredentes: “Como é que pode? Como é que pode?”. Parecia-lhe provação demais que morresse uma mulher num lugar em que existiam tão poucas.
Enfim, chegaram diante da casa do Baiano. Quincas adiantou-se, mas não chegou a bater, porque o próprio Baiano surgia diante do grupo, apontando a carabina. Lá dentro ninguém chorava pela mulher que, doente do peito, acabara de morrer. E o dono da casa, com os olhos injetados, a boca torcida, avisou:
— Ninguém toca em minha mulher! O primeiro que der um passo come fogo!
Era taciturno e mau, e cumpriria a ameaça. Então, Quincas, mais moço que os outros, com a memória ainda recente das mulheres da cidade, pediu, implorou:
— Não queremos nada demais. Só espiar tua mulher. Um pouquinho só.
O marido acabou deixando. E houve o desfile, maravilhado, pelo quarto, onde estava a infeliz, um esqueleto com um leve, muito leve, revestimento de pele. Eram homens praticamente loucos, possessos. Mas respeitaram a morte. Alta noite, o marido apanhou de novo a carabina e foi enxotando:
— Fora daqui, todo mundo! E não pensem que eu sou besta de enterrar minha mulher! Não confio em nenhum de vocês, seus cachorros!
Saíram todos, já na antecipada nostalgia do rosto feminino. Sozinho, o marido fechou tudo, arriou as trancas da porta. E, então, encerrado com a mulher, derramou querosene na defunta e em si mesmo; riscou um fósforo e fez a dupla fogueira.
Do lado de fora, os homens rondavam, enfurecidos.
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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
domingo, 21 de agosto de 2011
Balzac
Patrono do romance no Ocidente, Balzac é também, ao mesmo tempo, um historiador de costumes: sua minúcia documentária coloca-o na posição de precursor do realismo literário. O realismo, embora perpassado de elementos românticos e efeitos melodramáticos, é a característica central de sua obra e tanto os tipos sociais quanto o meio ambiente fornecem à matéria romanesca a dimensão histórica que lhe serve de apoio.Romancista francês, Honoré de Balzac nasceu em Tours em 20 de maio de 1799. Após estudos no colégio dos oratorianos em Vendôme, decidiu em Paris, por volta de 1818, dedicar-se apenas à literatura, contrariando o desejo da família, que queria vê-lo advogado.
A primeira peça que escreveu, Cromwell (1820), não chegou a ser encenada. Insistiu porém na escolha e continuou a escrever, preferindo agora a ficção, graças sobretudo ao estímulo de Laure de Berny, uma das muitas mulheres da alta sociedade que ao longo de sua vida prestaram-lhe apoio moral e financeiro.
Nos anos seguintes publicou, sob os pseudônimos de Lord R'Hoone e de Horace de Saint-Aubin, uma série de romances menores, posteriormente agrupados sob o título geral de Romans de jeunesse (Romances da juventude). Tais livros, embora se submetessem à moda dos folhetins e a influências diversas, já revelavam um incipiente talento.
A partir desse início, suas obras iriam suceder-se em velocidade espantosa: num período de vinte anos, Balzac publicou cerca de noventa romances e novelas, trinta contos e cinco peças de teatro. Paralelamente levou vida mundana, freqüentando os salões parisienses, viajando muito e procurando em vão um meio de enriquecer, objetivo que perseguiu pela vida ante o assédio permanente de seus credores.
De 1825 a 1828, sempre na expectativa de enriquecer, Balzac se lançou aos negócios: associou-se a um livreiro, comprou uma tipografia e se fez editor. Em 1829, após uma série de fracassos editoriais que acentuou suas dificuldades financeiras, conheceu enfim o sucesso com o primeiro romance que lançou com seu verdadeiro nome, Le Dernier Chouan (O último chouan), sendo "chouan" o nome dado aos insurrectos da Vendéia e da Bretanha em 1800.
Vislumbrou por essa época uma carreira política, esposando opiniões monarquistas e católicas. Em janeiro de 1833 principiou sua correspondência com a condessa polonesa Éveline Hanska, conhecida como l'Etrangère, que o admirava e com a qual se casaria mais tarde.
O fluxo criador de Balzac pode ser desdobrado em três etapas: a primeira, que se estende até 1829, foi um período de aprendizagem; a segunda, de 1834 a 1842, de consolidação de seu sistema novelístico; e a terceira, de 1842 a 1850, de unificação desse universo literário sob o título geral de La Comédie humaine (A comédia humana), alusivo à Divina comédia de Dante.
O êxito do primeiro romance foi confirmado nos anos que se seguiram por títulos como La Peau de chagrin (1831; A pele de onagro), Le Chef-d'oeuvre inconnu (1832; A obra-prima desconhecida), La Recherche de l'absolu (1832; A busca do absoluto), Eugénie Grandet (1833) e, sobretudo, Le Père Goriot (1834; O velho Goriot), onde começam a reaparecer personagens de livros anteriores, com o fim específico de conferir à obra encadeada o caráter global de espelho da sociedade francesa, em particular parisiense, na primeira metade do século XIX.
O mundo novelístico de Balzac é a primeira expressão coerente das potencialidades oferecidas pela revolução francesa e que então se concretizavam no plano social, econômico, político e individual, principalmente pelas transformações ocorridas na propriedade das terras, o que explica o interesse do romancista pela nova burguesia e pela decadência da aristocracia; o grande papel dos notários em sua obra; e a ausência da classe operária, que não participava desse processo.
O pano de fundo dos enredos são as estruturas e instituições advindas do império napoleônico e da irrupção dominante da burguesia. Paradoxalmente, foi o monarquista e legitimista Balzac quem revelou à Europa e ao mundo ocidental as conseqüências irreversíveis da revolução francesa.
Já nos romances da fase intermediária, que são a base de sua reputação, Balzac mostra obsessão pelos detalhes: seus heróis são seres de carne e osso que comem, bebem e se relacionam sob o domínio de paixões fortes. Deles se fica conhecendo exaustivamente o físico, o vestuário, o prestígio, a fortuna, a posição social e o domicílio.
A criação dos romances obedece a uma progressiva diversificação de situações, de personagens, de destinos humanos. Por suas qualidades, pela amplitude da área social tratada, pela técnica de que se vale o autor para a liberação das forças psicológicas nos personagens que movimenta, é forçoso admitir que, como gênero literário, a história do romance no Ocidente se divide em duas metades: antes e depois de Balzac.
Organização da "Comédia humana". A idéia de agrupar num todo a extensa obra narrativa, sob um só título genérico, levou tempo para ser posta em prática, embora fosse antiga nas cogitações do escritor. A primeira edição da Comédia humana, com o título escolhido por Balzac em 1842, começou a ser publicada, nesse mesmo ano, em 17 volumes.
Em 1845, para a segunda edição, foi adotado o plano, seguido pelas edições mais modernas. Nele, o agrupamento das obras obedece ao seguinte esquema: (1) Estudos de costumes no século XIX: (a) cenas da vida privada; (b) cenas da vida de província; (c) cenas da vida parisiense; (d) cenas da vida política; (e) cenas da vida militar; (f) cenas da vida rural. (2) Estudos filosóficos. (3) Estudos analíticos.
São inúmeras, nesses três grupos em que estão ordenadas, as obras-primas geradas pela fecundidade criadora de Balzac, como, além das já citadas, La Maison du chat qui pelote (1830; A casa do gato que brinca), La Bourse (1832; A bolsa de valores), La Femme de trente ans (1831-1834; A mulher de trinta anos), Illusions perdues (1843; Ilusões perdidas), Les Paysans (1845; Os camponeses).
Através dos vários romances da Comédia humana, conforme o rumo adotado desde Le Père Goriot, os personagens -- mais de dois mil ao todo -- aparecem e reaparecem segundo os vários níveis de suas vidas, num percurso contínuo que cobre todas as áreas sociais. A idéia central é que o dinheiro é o móvel fundamental da vida humana, sobrepondo-se sua busca a quaisquer outros interesses, sejam políticos, religiosos ou familiares.
Induzido pela voga científica da época, Balzac pretendeu aplicar às descrições de pessoas, com seus hábitos e sentimentos, seus ideais e paixões, o mesmo espírito analítico com que os cientistas descreviam os animais e as plantas. Foi o primeiro a reunir num ciclo de romances o estudo da vida social inteira, processo que seria seguido, entre outros, por Zola.
Em 1850, já gravemente enfermo, Balzac se casou com Éveline Hanska, e em 18 de agosto desse mesmo ano faleceu em Paris. A edição definitiva da Comédia humana, que saiu postumamente entre 1869 e 1876, constava de 137 romances, cinqüenta dos quais tinham ficado incompletos.
Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
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