quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O advogado do sacristão

Um sacristão estava distribuindo círios para quem quisesse acompanhar a procissão do Senhor Morto, em certa sexta-feira da Paixão, e sobrou um. Procurou com os olhos, estavam todos servidos. Entrou na igreja, colocou o círio atrás da porta e falou:

- Este aqui fica para o diabo.

Passado algum tempo, durante um naufrágio, o sacristão foi aprisionado pelos piratas e levado para a ilha dos Mouros. Andava desesperado, quando uma voz falou perto dele:

- Quando sentir bater no seu rosto uma ramada, agarre-se nela.

Ele assim fez. Sentindo o contato dos galhos, agarrou-se aos ramos invisíveis. No mesmo instante deu um vento forte, e quando ele viu estava descendo diante da sua porta.

Porém, não ficou sabendo quem foi o seu benfeitor. Como gostava de viajar, saiu novamente correndo mundo, e, desta vez a pé, por uma região desolada e pobre. Acabou-se o dinheiro, nâo encontrava trabalho e parou diante de uma granja. Vendo tantas galinhas, pediu que a mulher lhe fritasse meia dúzia de ovos, pelo amor de Deus. Não tinha dinheiro para pagar; mas iria correr mundo; quando voltasse, assim o ajudasse Deus, pagaria a dívida.

- E desta vez acho que ficarei curado da mania de viajar. Vou ficar quieto na sacristia da igreja da minha terra, que é um lugar santo.

A mulher fritou os seis ovos, ele os comeu, deliciadamente, e partiu.

Muitas aventuras o esperavam, andou ainda bastante, porém sorriu-lhe a sorte, progrediu, fez bons negócios, enriqueceu. Quis fazer duas coisas imediatamente: pagar aqueles seis ovos comidos há tanto tempo, dez anos ou mais, e voltar para a quietude da sua igreja.

Uma tarde, estava a granjeira diante da porta, viu apear de um cavalo baio, com arreios de couro macio e prata, um homem bem-vestido. Não o reconheceu senão quando ele contou que era o devedor dos seis ovos.

- Vim pagar-lhe, boa mulher, que me atendeu na hora da fome e da necessidade. Quero pagar tudo e deixar-lhe ainda uma boa quantia de presente.

A ganância mordeu o coração da mulher, vendo-o tão generoso, parecendo endinheirado.

- Vou fazer as contas - respondeu de cara fechada.

- Contas? Que contas? - estranhou o homem. - Pois então lá é preciso estar fazendo contas para saber o preço de seis ovos? Que lhe deu, boa mulher?

E ela lhe apresentou uma conta fantástica, uma lista imensa com o preço de milhares de galinhas.

- Que é isso? - perguntou o homem.

- Se eu tivesse posto aqueles seis ovos para chocar, teriam saído cinco franguinhas e um frango. As frangas botariam e tornariam a chocar. Em dez anos, eu teria tudo isto que está aqui nesta lista.

Como o homem se recusasse a pagar aquele absurdo, foram todos ao juiz mais próximo, e o julgamento do caso ficou marcado para daí a uns dias.

Muito desgostoso, foi o antigo sacristão andar um pouco, para espairecer. Andava e pensava, de cara amarrada, cenho franzido, temendo já tornar a ficar pobre, por causa da ambição da granjeira. Numa de suas voltas, encontrou-se com um homem, todo vestido de preto, de colarinho duro, sapatos de verniz, muito bem penteado.

- Que mal o aflige, amigo, que o vejo tão transtornado?

Contou-lhe tudo o homem, e o outro, sorrindo, falou:

- Ora, não é caso para tristezas. Acontece que sou advogado. O senhor ainda nem pensou em contratar os serviços de um profissional?

- Ainda não.

- Pois então, eu me considero contratado. Vá tranqüilo. No dia do julgamento, estarei lá para defendê-lo.

Parecia tão seguro de si que o homem se animou.

Chegou o dia do julgamento. Começou a sessão. Alguns casos foram julgados. E foi a vez do sacristão. E nada de aparecer o advogado. O juiz esperou. Nada. Começou a ficar impaciente, fulminando com o olhar o pobre homem, que ainda estava mais agoniado. E o advogado não aparecia. Ele estava vendo que, por falta de defesa, ia ser obrigado a entregar todo o seu dinheiro, ia ser preso, iam matá-lo. Suava frio e maldizia a hora em que aceitara o serviço de qualquer desconhecido. Nisso, o advogado entrou. O homem se animou, mas olhando para ele, viu-lhe a barbicha em ponta, os pés de pato e tremeu.

"Com quem me meti, neste embaraço! E agora mais esta. Acabo perdendo também a alma"

Porém o temível advogado tranquilizou-o:

- Se lembra do círio que deixou para mim, atrás da porta da igreja? Em agradecimento, já o livrei da prisão na ilha dos Mouros e aqui estou novamente para tornar a salvá-lo. Tranquilize-se que não quero a sua alma.

E dirigindo-se ao juiz, que não sabia da sua condição satânica, falou, cortesmente:

- Queira desculpar o meu atraso, estava cozinhando um pouco de feijão, para plantar.

- Estava fazendo o quê!?

- Estava cozinhando feijão para plantar - repetiu o advogado, insensível às risadas que estalavam de todos os lados, ao ouvir o povo declaração tão esquisita.

O juiz recostou-se na sua alta cadeira e riu também.

- Amigo - disse ele -, trabalho completamente perdido, pois feijão cozido não nasce.

- Então, por que estamos aqui debatendo se de ovos fritos nascem pintos?

E foi assim que o sacristão pôde voltar em paz à sua igreja.
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Fonte: Jangada Brasil - (Guimarães, Ruth. Lendas e fábulas do Brasil, p.55)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O 1º de abril

No domingo passado Rosamundo chegou em casa para o almoço, depois de um substancial mergulho no Atlântico sul (Ala de Ipanema), e não vendo movimento nenhum na casa, berrou: — Jurema!!!

O grito ecoou pela casa toda e Jurema não apareceu, o que, aliás, é justo: Jurema foi a primeira mulher de Rosamundo, da qual se separou vai pra seis anos. Encabulado da própria distração, gritou pela mulher certa:

— Clotilde!

E neca. Clotilde não estava.

O Rosa achou estranho, mas foi tomar seu banho. Só quando passou pelo corredor, enrolado na toalha, é que deu com o bilhete preso no espelho. Dizia assim: "Rosamundo, já não te suporto mais. Isto já não é de hoje, mas só hoje resolvo ir embora. Não tente reconciliação porque já gosto de um outro alguém".

A mulher de Rosamundo sempre foi de pouco refinamento. Adora filme de Mazzaropi, disco de Anísio Silva e a expressão "um outro alguém", que leu certa vez num poema de J. G. de Araújo Jorge, outra de suas paixões.

Rosamundo ficou com o bilhete na mão, sem entender direito. E já ia cair sobre uma poltrona com o impacto da notícia, quando se lembrou que era o 1º de abril. Sorriu compreensivo e deixou pra lá. Sua mulher era um bocado brincalhona.

O diabo é que passou o domingo, ele esperou durante toda a segunda-feira, toda a terça-feira e hoje — quarta-feira — começou a achar que era 1º de abril demais. Vestiu-se para ir à casa da mãe de Clotilde, dar queixa da mulher. Ao abrir a porta viu um chapéu no cabide. Botou na cabeça e o chapéu desceu até o nariz:

— Bem que me disseram que o Cabeção dava em cima dela — pensou Rosamundo.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A gratificação

Já falei da grã-fina que mora no Alto da Boa Vista. (No seu jardim, há uma estátua nua que, nas noites frias, morre gelada). Seu palácio saiu nos "mais belos interiores" de Manchete. Mas o que me fascina, em certas casas, é o requinte.

Outro dia, fui visitar outro casal de grã-finos. E, na hora de lavar as mãos, vi uma pia inexcedível. A pia ainda não era nada. O que me deslumbrou foi a bica. Enxuguei as mãos e, depois, chamei o dono da casa. Disse-lhe, de olho rútilo: — "Que bica! Que bica!". E ele, na sua flamejante modéstia: — "Ouro maciço!".

Volto ao Alto da Boa Vista. A dona da casa é exatamente aquela que, certa vez, dizia, lânguida, meio alada: — "Eu sou amante espiritual do Guevara". Em seguida, voltando à vida real, levou-nos para ver o retrato do "Che" em sua alcova. Lá estava ele, de boina; a barba crespa virilizava a doçura da expressão quase infantil. Pois bem. E foi justamente a "amante espiritual" de Guevara que telefonou, ontem, para mim.

Perguntei-lhe, inicialmente, se o retrato de Guevara ia bem de saúde etc. etc. Zangou-se, risonhamente: — "Cada vez mais reacionário!". E eu: — "Pelo amor de Deus!". Mas ela estava com pressa e foi dizendo: — "Vem hoje aqui em casa, ouviu?". Criou um mistério, um suspense: — "Tenho uma surpresa". Resisti de puro charme. Finalmente, disse que ia. Assim nos despedimos.

Cheguei lá, às nove e pouco. Perguntei-lhe: — "E a surpresa?". Brincou com a minha curiosidade: — "Calma, calma". Acabou dizendo que a surpresa era um padre. Assustei-me: — "Padre de passeata?". Fez espanto: — "Que história é essa de padre de passeata? Isso não existe!".

Expliquei-lhe que o padre de passeata era um fato concreto e histórico, Acabou admitindo que, realmente, o sacerdote comparecera a duas passeatas; e acrescentou: — "Uma cabeça. E olha. Mais inteligente do que d. Hélder".

Chamou o marido que ia passando, e perguntou: — "Não é mais inteligente do que d. Hélder?". O marido disse, grave, taxativo: — "Uma cabeça!". Se era "uma cabeça", e "mais inteligente do que d. Hélder", eu estava disposto a vê-lo e ouvi-lo.

Pouco depois, chegava "a cabeça". Nada de batina. O sacerdote estava vestido como um anúncio da Ducal. Quando apareceu, houve um frêmito em todos os decotes. Fui apresentado. "Muito prazer", de parte a parte. Duas ou três o levaram. E a dona da casa dizia, no meu ouvido: — "Vai falar sobre sexo". Insinuei: — "Já estou muito velho para educação sexual". Mas uma outra a chamava. Afastou-se.

E eu fui olhar na janela, que se abria para a noite. (O padre de passeata fazia conferências a domicílio para grã-finas.  Especializara-se em sexo e Guevara). Daí a pouco, sou chamado: — a "cabeça" ia falar. A anfitriã fizera um teatrinho, com umas cinqüenta cadeiras e um pequeno palco, quase ao nível da platéia. Alguém me sussurrou: — "Uma cultura!". E, justamente, a "cultura" começava a falar.

Disse, preliminarmente, que ia fazer uma palestra informal. Estaria disposto a responder perguntas. Mas frisou: — "Estamos aqui num encontro informal". Dizia "informal" com particular satisfação, como se a palavra lhe fizesse cócegas no céu da boca. Não começou imediatamente. No pequeno palco, andava de um lado para outro, de cabeça baixa, as mãos trançadas nas costas. E, súbito, da primeira fila, a anfitriã sugere: — "Conta aquela".

Parou, risonhamente, no meio do palco. Fingiu um lapso: — "Qual?". E a outra: — "Aquela!". Empina o queixo, faz um esforço de memória: — "Aquela?". Risos. As pessoas achavam graça. Ele sentiu que o lapso era um efeito. Fechava os olhos, cruzava os braços.

Teve que admitir: — "Sinceramente, não me lembro". E, como ele não se lembrava, não se sabia o quê, explodiu a gargalhada. O padre de passeata dramatizou o lapso. Apertou a cabeça entre as mãos. Sentiu o sucesso e o agarrou. Há de ter pensado: — "A platéia está no papo".

Um sujeito, a meu lado, com uma barriga de ginecologista, repetia, banhado em delícia: — "Uma cabeça! Uma cabeça!". Fui, então, varado por uma súbita recordação auditiva. Há um tango de Gardel que começava assim: — "Por uma cabeça" etc. etc. E o tango devia ser de Gardel e Le Pera.

Na platéia, já batiam palmas. Era o primeiro lapso aplaudido.

A dona da casa explicava: — "Aquela da prostituta. Aquela!".

O padre de passeata bateu na testa: — "Agora me lembro". E a anfitriã, de pé, virava-se para a platéia; dizia, radiante: — "Ótima, ótima!". Sentou-se novamente. Andando de um lado para outro, o sacerdote não tinha pressa. Parou numa extremidade do palco. De perfil para a platéia, olhando para o alto, disse: — "Realmente, realmente".

Começou: — "Prostituta". Suspirou. E, já no centro do palco, explicava: — "A prostituta não me espanta". Perguntou, de sopetão, à platéia: — "Os senhores se espantam com um bombeiro hidráulico, um ourives ou protético?". Silêncio. Recomeçou:

— "Ser prostituta também é um ofício". Repetiu, com certa ferocidade: — "Ofício, ofício, ofício". Pausa. Novo suspiro: — "Profissão". Profissão, como outra qualquer. "Ganha-pão." Ria agora: — "Aconteceu comigo um fato. Um episódio. Fato de rua".

Jogando as pausas, usando silêncios, ele deliciava os presentes. Disse: — "Nem sei se deva contar". Vozes protestaram: — "Conta, conta!". E o padre de passeata dispôs-se a contar. Agora estava mais ágil, mais lépido, mais brilhante: — "O caso é o seguinte: — fui abordado por uma mulher da vida. Digamos: — mulher da vida. Me abordou".

Excitação na platéia. As pessoas se entreolhavam. Longa pausa. Foi de uma extremidade a outra e vice-versa.

Disse: — "Me fez uma proposta". E, súbito, em tom castamente informativo, ele falou que, hoje, há trottoir por toda a cidade. "Até na porta da igreja." No passado, a prostituição estava localizada. Hoje, não. Às vezes, em ruas rigorosamente familiares, estritamente residenciais, nós vemos uma moça. Parece uma menina. O sujeito jura que é uma menina de família. E, ali, na calçada onde as crianças brincam, ela está exercendo uma profissão. "Não direi profissão infame, porque não há profissões infames. Há profissões."

Vozes perguntam: — "E o que é que o senhor fez?".

Repetiu, criando um suspense delicioso: — "O que é que eu fiz?". Continuou: — "Ela falou comigo em português. E eu respondi em alemão".

Perplexidade divertida.

A "amante espiritual de Guevara" pediu: — "Diz por que é que o senhor falou em alemão".

Sorria, banhado em sucesso: — "Pelo seguinte: — porque eu queria passar por estrangeiro. Saíra da igreja, estava sem batina. Pra todos os efeitos, eu não estava entendendo nada". A dona da casa, em pé, protestou: — "O senhor não está contando direito. Conta, conta. Por que é que o senhor não podia entender a proposta?". E ele, iluminado:

— "Porque se eu entendesse a proposta e recusasse, ela ia pensar que eu sou pederasta".

Foi uma ovação formidável. Os decotes se atiravam para o palco. Era uma euforia geral. E ele, que falara tão pouco, e usara mais pausas do que palavras, suspirava: — "Cansei". Vozes: — "Genial! Genial!".

Meia hora depois, a "amante espiritual de Guevara" chamou-o numa outra sala. E lá o padre de passeata recebeu, no envelope, o cachê.

[10/8/1968]


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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.