domingo, 6 de novembro de 2011

Mulher reformada

Há quem diga que Rosamundo deve pensar que quem descobriu o Brasil foi o Duque de Caxias, de tanto que ele confunde o patrono do nosso Exército com Pedro Álvares Cabral. Não têm conta às vezes que Rosamundo entregou a um vagabundo qualquer uma cédula de mil cruzeiros, com linda pose de Cabral, pensando que era uma japonezinha de duas pratas, com o semblante do Duque, à guisa de esmola.

A mulher de Rosamundo já o proibiu do vício do óbolo, na certeza de que a distração e filantropia são duas coisas que não combinam. Aliás, a mulher do Rosamundo era bem feinha, prova de que, até pra casar, o infeliz se distraiu.

E foi justamente por ser feia que a mulher de Rosamundo resolveu fazer uma recauchutagem para surpreender o marido.
Durante a habitual temporada em Petrópolis ela fez que subiu a serra e foi, mas é pra uma clínica de um desses médicos bárbaros para reformar mulher bagulho: um cirurgião-plástico.

Botou nariz novo, afinou cintura, tirou barriga, esticou a pele, amendoou os olhos. Fez misérias. E, não contente, saiu direto da clínica para um salão de beleza, onde tingiu os cabelos e castigou um penteado desses modernos, que a mulher parece que está com uma moringa na cabeça.

Assim completamente remodelada e até que mais jeitosa, apareceu em casa. Foi entrando e nem disse palavra, foi encontrar Rosamundo na sala e tacar-lhe um beijo estilo desloca-maxilar. Rosamundo ficou verdadeiramente encantado e surpreendido com a mulher.

Mas puxa!... Rosamundo é um bocado distraído. Passou a noite toda naquele encantamento e só na manhã seguinte é que fez a primeira referência à vida do casal. Virou-se para a mulher e disse:

— Filhinha eu acho bom você deixar o número do telefone e ir caindo fora, que minha esposa está em Petrópolis e pode chegar de repente. Se ela encontrar você aqui vai dar uma bronca desgraçada.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora

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