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quinta-feira, 12 de maio de 2016
A Origem dos Mitos sobre Gatos Pretos
“Para se transformar num mago, você deve amarrar um gato preto e jogá-lo vivo dentro de uma panela de água fervente. Deixe-o cozinhar até que a pele descole totalmente dos ossos.” - Infâmia localizada na internet.
A história de vida do gato preto é impressionante. Adorado por uns, sacrificado por outros, o gato preto sobreviveu a tudo apenas para reclamar o lugar que mais gosta de ocupar: um lugar quente, junto à janela.
As superstições acerca dos gatos nasceram desde cedo. Um dos primeiros povos a atribuir uma aura mística ao gato foram os egípcios que o idolatravam, tendo mesmo um Deus com a sua forma física, Bast. Em honra desta divindade, os egípcios mantinham gatos pretos em casa e davam-lhes honras reservadas a faraós, mumificando-os depois de mortos.
Mas foi na Idade Média que o gato viu a sua sorte mudar. Apesar de prestarem um importante serviço ao homem, caçando os ratos que eram considerados uma praga, a verdade é que havia uma legião de gatos vadios que faziam das cidades o seu território. A superpopulação terá sido o primeiro motivo pelo qual o gato deixou de cair em graça para passar a cair em desgraça.
A Idade Média ficou marcada pela superstição, bruxaria e febre religiosa. O gato, como animal independente e solitário, captou a atenção tanto de pagãos como cristãos.
No paganismo, o gato representa sabedoria e proteção, mas na magia negra, o gato preto macho personifica o diabo. No tarot, no baralho de Rider Waite , a Rainha de Paus é representada com um gato preto aos seus pés, significando energia instintiva, mas domesticada.
O gato é um animal que caça durante a noite e era na Idade Média acolhido por pessoas solitárias. Os gatos vadios eram os animais de estimação de mendigos e pobres, o que não abonou em relação à imagem do gato. Os olhos penetrantes que iluminam as noites contribuíram provavelmente para a catalogação do gato como espírito demoníaco. A cor preta era a cor das trevas e do mal, o que tornou os gatos desta pelagem os mais perseguidos pelos cristão e inquisidores. A sua associação às práticas pagãs, apenas provocou um maior distanciamento entre os cristãos e o gato. O facto de o gato ser muitas vezes sacrificado em rituais pagãos tornou-o num símbolo a combater.
Depressa começaram a surgir histórias que ligavam os gatos à bruxaria. Reza a lenda que por volta de 1560, em Linconshire, filho e pai foram assuntados por um gato preto que lhes cruzou à frente. O animal mancava e tinha vários arranhões e dirigiu-se para a casa de uma mulher que os habitantes da região suspeitavam que fosse bruxa. No dia seguinte, a mulher apareceu com uma ligadura no braço e tinha passado a mancar.
Outra história relatada conta que um agricultor cortou a orelha de um gato durante a noite. O homem acreditava que o gato estava assombrando a sua propriedade. No dia seguinte, o agricultor regressou ao local e encontrou parte da orelha de um humano. Na Alemanha, as histórias sobre a dualidade bruxa/gato preto são comuns. Uma mulher após ter sido acusada de bruxaria e condenada à fogueira, transformou-se em gato preto enquanto ardia. Foi assim que surgiu o mito de que as bruxas se transformam em gatos pretos durante a noite. É foi também desta forma que se encontrou justificação para perseguir estes animais.
Em paralelo com as lendas surgem também outros fatos históricos que na altura serviam de base de sustentação a muitas superstições. O Rei Carlos I de Inglaterra tinha um gato preto. O monarca acreditava que o seu gato lhe trazia sorte. Coincidência ou não, o gato morreu um dia antes de o Carlos I ter sido preso por Oliver Crommwell. O monarca foi acusado de traição e mais tarde decapitado.
Surpreendentemente, o gato preto sobreviveu a décadas, se não séculos de perseguição. A sua pelagem negra, pela qual era perseguido, era também uma vantagem quando caçava à noite, fundindo-se com a escuridão. Naquele tempo, não faltava alimento para os gatos, uma vez que os ratos abundavam pelas cidades e campos.
Pela altura do Renascimento, a Igreja Católica tinha já abrandado a caça aos hereges. Esta foi uma boa notícia para o gato por duas razões: por um lado os cristãos tinham conseguido reduzir a prática do sacrifício de animais, e em particular dos gatos com pelagem preta e por outro, deixaram de ser perseguidos pelos próprios cristãos.
Mas, da Idade Média resistiram as superstições profundamente enraizadas na cultura popular. Apesar de em alguns países ser mais comum associar o gato preto a um mau presságio, são várias as superstições que lhe são favoráveis em outros.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
O Moleque Festeiro
Na encosta de uma serra muito alta e a pique, de Santa Maria de Taguatinga, entre barrocas e cardos, morava um homem muito rico e mau, que fizera voto de entoar uma ladainha, todas as noites pela passagem de São João.
Eram verdadeiras festas, muito concorridas, em que o pecado das danças livres excedia à devoção religiosa. O homem residia só e jamais conhecera os carinhos de uma esposa ou a alegria do sorriso de um filho …
Como companheiro tinha apenas um molecote, um cão e um gato preto. O menino era o emissário perpétuo por quem mandava os convites para as festas de São João. Era só nessa ocasião que abria a bolsa e deixava os patacões correrem a mãos cheias; nos outros dias não aliviava a lágrima de um pobre ou de uma viúva necessitada.
Certa vez, o pequeno mestiço partiu em busca dos convivas e voltou só: ninguém o acompanhara. As casas dos amigos estavam fechadas e ninguém respondera a seu chamamento.
O homem indignou-se e disse ao menino que fosse buscar quem quer que fosse, rico ou pobre, até mesmo o Pé-de-Garrafa, se o encontrasse. Era imprescindível o cumprimento do voto. No caminho apareceu um cavaleiro elegante, muito bem vestido, tinha esporas de prata e estava em traje de festa.
Ao convite do emissário do homem rico, respondeu afirmativamente e acompanhou-o ao sítio das barrocas e dos cardos. Era um só convidado, porém a festa começou logo.
Depois da ladainha dançou muito, fazendo tinir as esporas, que tiravam fogo no assoalho. Nunca o homem rico e miserável vira um convidado assim: só ele enchia a sala, devorava todos os manjares e dançava por uma súcia inteira. Acabada a festa, o cavalheiro misterioso convidou o homem rico para uma festa em seu palácio e desapareceu, quando a aurora vinha raiando.
Um mês depois um pajem veio buscar o homem rico para a festa do dançador misterioso do São João. Os olhos do homem rico foram vendados e os dois se puseram a caminho. Chegariam à meia-noite. O palácio do anfitrião não era longe de Santa Maria de Taguatinga. Barrancos e valados, brenhas e barrocais, matas e tabuleiros transpuseram os dois caminhantes.
Afinal chegaram, a venda caiu e uma elegante habitação maravilhou o hóspede da casa da encosta ao sopé da serra da Taguatinga.
Atravessado o pórtico dourado, penetraram em um grande salão e ali, maliciosamente, estavam enfileirados os vestidos curtos e os sapatinhos de salto alto de Formosa, as impudicas "toilettes" da Baía e os "maillots" cariocas. Noutra sala o homem rico viu uma porção de cavalheiros conhecidos: o Cel. F. F., o Major C. B. e Sr. H. M., etc., etc., pessoas há muito falecidas. Um cheiro de enxofre espalhou-se neste momento, por todo o palácio …
E o homem rico compreendeu tudo:
Estava no palácio do diabo …
I. G. Americano do Brasil: Lendas e Encantamentos do Sertão. - Edições e Publicações Brasil, São Paulo, 1938, pp. 49-50. - Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Ouro maldito
“Chegara eu a Pirapora, nas margens do caudaloso São Francisco, em noite quente, mas de chuva forte, que me não permitiu sair do hotel. Após o jantar, servido o café, levantei-me da mesa juntamente com outro hóspede, que ali morava e que comigo havia palestrado durante a refeição. Parecia ele homem viajado e experimentado nas coisas do sertão mineiro.
Para mim, que ali ia pela primeira vez, a palestra era instrutiva e convinha mantê-la. Indagando o nome, disse-me ele que se chamava João José de Freitas, mas que era conhecido em todo o sertão como Januário, por ter nascido na cidade de Januária, que, rio abaixo, dista de Pirapora cerca de 40 léguas.
Dando-lhe também o meu nome, convidei-o a passarmos a uma larga varanda que dava para o lado do rio. Mas Januário preferiu uma sacada que dava para a mata, justamente em sentido oposto ao rio.
Acompanhei-o sem protestar, mas estranhando intimamente aquela preferência. O arguto olhar do sertanejo, não escapou, porém, a minha estranheza íntima.
Logo que nos sentamos em cômodas cadeiras com fundo tecido em cordas de palha de milho, ofereceu-me um cigarro da mesma palha, e, em preâmbulos, foi dizendo:
— Seu doutor está estranhando eu não querer ficar do lado do rio ... Mas é que o rio me entristece muito, principalmente à noitinha.
— Mas por que lhe acontece isto, seu Januário?! ... ao senhor, que parece homem habituado ao sertão e aos caudalosos rios deste grande vale!
— É por isto mesmo, seu doutor. Quem vê essas águas não sabe quanta coisa triste elas escondem. Vou lhe contar um fato que se passou comigo e que mostra a razão por que me entristeço quando estou à beira dum rio.
Há dez anos, éramos três amigos: eu, o Raimundo e o Celestino; todos três muito unidos pela luta constante na vida que levávamos como faiscadores e garimpeiros. A busca ao ouro e ao diamante, nas cabeceiras deste grande rio e nos seus afluentes, era nossa única ambição. Onde havia notícias dessas coisas preciosas, lá estávamos nós trabalhando, algumas vezes em vão; outras, porém, ganhando muito, mas sempre gastando muito, também. O que vem fácil, fácil vai.
Um dia soubemos que neste rio São Francisco, um pouco abaixo daqui, entre as bocas das Velhas e do Jequitahy, havia naufragado uma embarcação que vinha de longe, lá do Paraúna, e ia para Juazeiro, na Bahia, levando pesada carga de ouro e de diamantes.
Um parente do Raimundo tinha assistido ao naufrágio e marcou o lugar certo em que afundou o barco. Era junto a um grande penedo a pique, que forçava o rio a fazer uma volta ligeira e perigosa, em garganta apertada com muita correnteza.
Nós três vimos logo ocasião de fazer fortuna. E resolvemos empreitar o salvamento do tesouro, com a vantagem de metade do que pudéssemos arrancar do fundo do rio.
No momento, porém, era impossível. O rio estava de enchente e as chuvas turvavam muito as águas. Tivemos que esperar mais de mês pela vazante.
Já sabíamos, porém, que o lugar era fundo e dava muita piranha, de modo que o trabalho só podia ser feito com escafandro. Por isso, enquanto esperávamos a vazante, o Celestino foi ao Juazeiro buscar um escafandro de um amigo dele, que o havia comprado a um embarcadiço em São Salvador.
Mas o escafandro tinha os tubos de borracha vermelha, cor que atrai a piranha, porque ela pensa que tudo que é vermelho é carne. Resolvemos, entretanto, o caso, cobrindo os tubos com tiras de metim preto.
E quando as águas baixaram e clarearam, lá fomos nós rio abaixo, com o nosso barco bem equipado para trabalhar o escafandro.
A princípio, custamos a encontrar sinais do barco naufragado. Mas, descendo um pouco, a uns trezentos metros abaixo do lugar marcado pelo cunhado do Raimundo, conseguimos ver a proa de um barco atolado no fundo. Não podia ser outro.
Como prevíamos, o lugar era muito fundo. Só mesmo com escafandro se podia chegar lá.
Amarramos o barco com espias em terra, porque a poita não tinha firmeza para aquela corrente e precisávamos fixar bem o barco, porque o trabalho era demorado.
Feito isso, tiramos a sorte qual de nós três tinha que descer no escafandro. Caiu para o Raimundo, que não fez cara-feia. Era assim que nós trabalhávamos.
A princípio, tudo ia muito bem. Mas, quando o Raimundo fez o sinal de que tinha tocado o fundo, dando dois puxões no cabo, depois de o afrouxar duas vezes, o metim preto, devido ao roçar do cabo, soltou-se num pedaço, descobrindo o tubo vermelho. E logo apareceu uma piranha assanhada. Bati na água com o remo para espantar o peixe. Mas o Celestino achou melhor mergulhar na água para tornar a cobrir o tubo. Não achei bom: disse a ele que as piranhas podiam vir em maior número.
Celestino espiou bem, e, vendo que era uma só, perigosa para o tubo e não para ele, resolveu mergulhar, com o que acabei concordando.
Mas, tão logo ele caiu n’água e pegou o tubo, o rio empreteceu... Saia piranha de todo lado. . . Não se via mais nada. . . Bati com os remos n’água, sem resultado. . . Em vez de subir o Celestino só subia sangue.
Experimentei o tubo: já estava cortado. . . Puxei o cabo: estava partido.
Larguei a bomba de ar ... larguei tudo, para pegar nos dois remos, ... e entrei bater na água como um possesso.
Bati muito, bati até não poder mais, não sei por quanto tempo. . . Em um ponto que a luz era mais forte, vi, no meio do bando de piranhas esfaimadas, os ossos do Celestino, já quase esqueleto só! ... os pelos me arrepiaram em todo o corpo e eu não vi mais nada!
Quando voltei a mim, estava deitado no fundo do barco, que, tendo quebrado as amarras, vogava rio abaixo, volteando em um remanso.
Tinha perdido um remo ... estava escurecendo ... fiquei apavorado!
Com o remo que ficou, remei febrilmente para terra, e conseguindo encostar o barco na praia do remanso, saltei horrorizado, fugindo a todo fôlego daquelas águas tenebrosas.
Andei algumas léguas, sem rumo, até que, perdendo as forças cai sem sentidos. Só acordei ao amanhecer, como quem acorda de terrível pesadelo. Não queria acreditar no que tinha acontecido.
Procurei, mais calmo um pouco, tomar alturas, para saber onde estava. Fiquei satisfeito quando vi que estava na estrada que vai da Barra do Jequitahy a Guaicuhy, cidade em que morava um amigo nosso, o Zé Vicente. Para lá fui, mais morto do que vivo.
Em duas palavras, contei o caso ao Zé, bebi um trago, comi um pouco, sem saber o que ... e só fui descansar no barco do Zé, com quem desci o rio novamente, até o lugar sinistro.
Mas não podíamos ver mais nada. Por ter chovido nas cabeceiras dos rios, a água, que na véspera era clara, estava agora barrenta. Deitamos garateias a tarrafa, para ver se agarrávamos qualquer coisa: o Raimundo no escafandro ou os ossos do Celestino. Nada conseguimos.
Todos os dois ficaram lá, e o tesouro também. Ninguém tentou tirar do fundo aquele ouro maldito!
Depois dessa luta em vão, seu doutor, me veio um febrão, que durou mais de 15 dias. E a toda hora eu via o Celestino e o Raimundo lutando com as piranhas, ao mesmo tempo que uma voz me dizia que aquilo era o prêmio da ambição.
Que horror! seu doutor! Nunca mais peguei na bateia, nunca mais entrei num vau ...
— Mudou de vida, então, seu Januário? — perguntei eu para mudar a conversa.
— Mudei, sim, senhor. Agora só compro e vendo ouro e pedras, com pequeno lucro ... E vou bem, graças a Deus. Só quando me lembro dessas coisas é que ainda me arrepio todo, como o senhor está vendo.
— Mas, seu Januário, para que recorda essas coisas tristes?
— É a sina, seu doutor! ...
— Mas vamos esquecer ‘— concluí eu. — Vamos tomar um trago e jogar um pouco ...
— Ah! o senhor gosta do trago ?!. Então vai beber produto da minha terra.,. Oh! Quincas! (Grita o Januário para o copeiro). Traz aí uma “Januária” ... daquela que a tia Zeferina mandou no Natal! ...
Servida a bebida, pura de cana, fomos jogar, tendo eu desviado a conversa do caso macabro. Mas, quando acabamos e nos demos o “boa-noite”, o Januário falou:
— Seu doutor, quero um favorzinho seu.
— !?! ...
— Reze um Pai-nosso pro Raimundo mais o Celestino ... Eles merecem.”
(Original de Felix Sampaio)
Fonte: revista semanal "Carioca", de 12/09/1936.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
A morte na boca do povo
"A morte para todos faz capa escura,
E faz da terra uma toalha;
Sem distinção ela nos serve,
Põe os segredos a descoberto,
A morte liberta o escravo,
A morte submete rei e papa
E paga a cada um seu salário,
E devolve ao pobre o que ele perde
E toma do rico o que ele abocanha." (1)
Abaixo, algumas locuções e expressões populares que designam o verbo morrer:
A
Abalar-se para o além
Abarcar os sete palmos
Abecar a dama negra
Abonar o coveiro
Abotoar o paletó
Abotoar o pijama de madeira
Abreviar a viagem
Acampar no cemitério
Ajuntar os pés
Amanhecer olhando o dedo grande do pé
Apitar
Apresentar-se ao papa do inferno
Atacar o paletó
Atingir a reta da chegada
Atolar o carro
Arriar a bandeira
B
Bacafuzar-se
Badalar o sino
Bater a alcatra na terra ingrata
Bater a biela
Bater a bola
Bater a pacutinga
Bater a paquera
Bater a passarinha
Bater as botas
Bater o pacau
Bater o vinte e sete
Bater o vinte e um
C
Cair no esquecimento
Casar com a mulher da foice
Cessar a suspiração
Chegar a hora
Chegar ao fim da estória
Chispar no cavalo da morte
Coalhar o sangue
Comer terra na cara
Comer pão de terra
Comer capim pela raiz
Cumprir a vontade de Deus
D
Dar adeus a jerimum
Dar com o rabo na cerca
Dar o banzé
Dar o couro à vara
Dar o créu
Dar o último suspiro
Defuntar
Deixar de comer farinha
Deixar de viver
Desarmar a tenda
Descansar
Desencadernar
Desligar a tomada
Desocupar o beco
Dizer adeus ao mundo
E
Embarcar
Embiocar
Enfrentar São Pedro
Engajar no batalhão da morte
Entrar no rol dos bons
Entregar a alma a Deus
Envelopar-se
Espichar a canela
Estancar o motor
Estar na terra da verdade
Estar na terra de onde não se volta
Esticar o cambito
Esticar o molambo
Esticar o pernil
Esvaziar os pneus
F
Falecer da vida presente
Fazer a última viagem
Fazer companhia aos defuntos
Fazer gosto ao cão
Fazer a vontade de Deus
Fechar a sueca
Fechar o furico
Fechar os olhos
Ficar de olho vidrado
Findar
Fumar-se
G
Ganhar o descanso eterno
Gastar a mola
Guardar a ferramenta
I
Inteirar o tempo
Ir dar conta do feijão que comeu
Ir desta para melhor
Ir para a buíca
Ir para a cidade de pés juntos
Ir para o Acre
Ir para o buraco de camunda
Ir para o envelope
Ir para o vinagre
Ir pro beleléu
Ir-se
L
Largar a casca
Levar bandeira a meio-pau
Limpar o lugar
Liquidar o negócio
M
Mascar barro
Morar na pensão de Santo Amaro
Morrer na vez que lhe coube
Mudar de planeta
Mudar-se para o cemitério
Mudar-se
Muquecar-se
N
Não comer mais feijão
Não comer mais pirão
P
Passar
Passar desta para melhor
Pedir baixa
Pegar o expresso de madeira somente com passagem de ida
Peitar a parca
Perder o garrão
Perder o rumo da seguição
Picar a mula
Pifar
Pitar macaia
Promover-se a defunto
Q
Quebrar o rabicho
Quebrar a tira
Queimar o fusível
Queimar a piriquita
R
Rachar o quengo
Receber as incelenças
Refinar a rapadura
Render a alma ao criador
Render o espírito
Render o fôlego
S
Sair da cancha
Saldar as dívidas
Secar o mucumbu
Selar os olhos
Sustar o jogo
T
Tomar a benção a São Pedro
Tomar chá de buraco
V
Ver o céu por dentro
Vestir pijama de madeira
Viajar
Virar defunto
Virar picolé
Visitar São Pedro
Voar no pau
(1) Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII, 1996: 50, vv. 361-372)
_________________________________________________________________________
Em Maior, Mário Souto. “A morte na fala do povo”. Em Revista brasileira de folclore, ano XII, nº 36, maio/agosto de 1973. Ministério da Educação e Cultura, Departamento de Assuntos Culturais.
Fonte: Jangada Brasil.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Ciganos no Brasil
No século XV, hordas de ciganos, vindos dos Pirineus, entraram na Espanha, aí chegando a 11 de junho de 1449. Extenuados pelas fadigas longas, banidos dos países por onde
passavam, lançados para fora de todas as terras, pediam nesse refúgio o
esquecimento e a paz para os delitos de sua vida impersistente e de
lutas incomensuráveis.
E uma espécie de noite os protegeu por algum tempo, começando na Espanha a sua existência ativa, o seu despertar na sociedade, no reinado de Carlos III, que os utilizou em proveito das artes.
Esta reabilitação moral foi transitória e enganadora; novos governos desencadearam contra os pariás-erradios atrozes perseguições, despojando-os de seus empregos e profissões, destituindo-os da naturalização e privilégios a que tinham direito.
Aos azares da má sorte, no combate braço a braço contra o destino adverso, numerosas avançadas emigraram para Portugal, indo mais tarde alimentar as chamas das fogueiras inquisitoriais de dom João II, que aumentara dos códigos portugueses leis expressamente promulgadas para puni-los [1] .
A respeito dessa raça, isto é, de sua origem, costumes e tradições, nenhum eco se escapa das velhas crônicas portuguesas, a não ser o de seus passos nos tribunais do crime e de seus lamentos, ao tom das vagas, nas amuradas dos navios que os conduziam aos degredos do Brasil e Angola.
E é pela legislação que vamos surpreender as primeiras turmas que aportaram às nossas plagas, determinando a prioridade das províncias que as receberam.
Abramos as Ordernações do Reino.
Diz o decreto de 27 de agosto de 1685: “Fica comutado aos ciganos o degredo da África para o Maranhão”.
Nas provisões de 15 de abril de 1718, 23 de agosto de 1724, 29 de maio de 1726 e de 29 de julho de 1740, lê-se: “Se os ciganos e outros malfeitores, degradados do reino para Pernambuco. não adotarem nesta capitania algum modo de vida estável e continuarem a cometer crimes, serão novamente degradados dela para Angola”.
Em 1718, por decreto de 11 de abril, “foram degradados os ciganos do reino para a praça da Cidade da Bahia, ordenando-se ao governador que ponha cobro e cuidado na proibição do uso de sua língua e gíria, não permitindo que se ensine a seus filhos, a fim de obter-se a sua extinção”.
Foi por essa data, segundo o sr. Pinto Noites, estimável e venerando calon [2] de 89 anos, que chegaram ao Rio de Janeiro os seus avós e parentes — nove famílias para aqui degradadas, em razão de um roubo de quintos de ouro atribuído aos ciganos.
De sua prodigiosa memória, arquivo inesgotável da história de sua nação entre nós, deixou rolar, durante duas horas que com ele conferenciamos, informações admiráveis de critério e saber tradicional. Daí a notícia que possuímos de famílias importantes do Brasil cruzadas com eles, e a lista nominal das que acima referimos. de onde emergem algumas da Cidade Nova, Minas, Bahia, etc.
Na intimidade desse povo inteligente e às mais das vezes caluniado, conseguimos escrupulosamente verificar que as palavras do discreto ancião ajustavam-se à versão popular dos mais esclarecidos de sua tribo.
O sr. Pinto Noites, dando-nos a relação das nove famílias, ou pelo menos o nome dos seus chefes, compreendidos no decreto de banimento de 11 de abril de 1718, estabelece a ordem seguinte:
João da Costa Ramos, por alcunha João do Reino, com seu filho Fernando da Costa Ramos e sua mulher dona Eugênia; Luís Rabelo de Aragão; um Ricardo Fraga, que seguiu para Minas; Antônio Laço, com sua mulher Jacinta Laço; o conde de Cantanhede; Manuel Cabral e Antônio Curto, que foram para a Bahia, acompanhados, além de mulher e. filhos, de noras, genros e netos.
— Logo que desembarcaram, terminou o nosso conferente, “alojaram-se em barracas no Campo dos Ciganos, enorme e inculta praça que se estendia da rua do Cano até a Barreira do Senado”.
Empregavam-se eles, pelo que pudemos depreender da narrativa, no trabalho dos metais: eram caldeireiros, ferreiros, latoeiros e ourives; as mulheres rezavam de quebranto e liam a sina.
Qual o rumo posteriormente tomado pelos deportados, quantos internaram-se nas florestas ou permaneceram nos centros colonizados, é uma questão complexa e de resolução dificílima.
Tropas e tropas vagabundas infestavam o norte e o sul, vivendo da natureza e na natureza, comerciando nos pequenos povoados e pirateando nas estradas. A reprodução entre si deu-se em grande escala; o cruzamento com as três raças existentes efetuou-se, sendo o cigano a solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do Brasil [3].
À ebulição dos elementos disparatados de nossa formação, mais portugueses e boêmios vieram juntar-se em 1808, em desproveito do negro, cujo manancial ia em breve estancar-se com a abolição do tráfico.
O estado do Brasil nessa época era todo especial; a família real portuguesa traslada-se para a colônia, alterando a fisionomia do passado.
Acontecimentos notáveis se sucedem; o país atravessa nova fase na sua organização política, administrativa e econômica.
Estudemos os fatos.
À chegada da corte real portuguesa, o Rio de Janeiro era a capital de uma colônia, que a sua metrópole considerava como uma feitoria. O comércio e toda a espécie de indústria lhe eram vedados; trabalhava na agricultura e nas minas, para mandar o produto do seu trabalho a seus dominadores da Europa.
O príncipe-regente veio quase inesperadamente, escoltado por uma esquadra inglesa de nove naus, comandada pelo vice-almirante Sidney Smith. A esquadra portuguesa compunha-se de muitas naus de linha, além dos navios mercantes que iam chegando, perfazendo ao todo 3.000 pessoas, as que acompanharam o rei, no dizer do conselheiro Drumond.
O Conde dos Arcos [4], personificação escolhida de todos os defeitos de sua casta, perseguia barbaramente o contrabando, que eram todos os produtos estrangeiros. Rodeou-se de malsins, que denunciavam quem tinha uma peça ou outra de fazenda inglesa ou francesa. Se o infeliz era negociante, mandavam que fosse por alguns dias posto de sentinela, carregado de armas, à porta da Alfândega, enquanto durasse o despacho. Isto não contando as somas com que o condenavam.
Era proibido por lei que no Brasil houvesse ourives [5]! Esta lei foi derrogada muito depois da mudança das cortes portuguesas, e já existiam na rua dos Ourives lojas de ambos os lados, mas que só negociavam com obras feitas no Porto ou Lisboa — que a metrópole consentia que as usassem os habitantes do Brasil!
Do interminável séquito da família real poucos prestavam para alguma coisa.
Eram fidalgos e vadios. Aos fidalgos mandou-se dar pensões do tesouro: aos casados de 4.000$ e aos solteiros de 2:400$ [6]. Os vadios foram empregados nas repartições que se criaram para esse fim.
Aos fidalgos, ainda depois do regresso da família real, o tesouro do Brasil pagou alguns meses as tais pensões. Posições civis e militares, a lucrativa servidão do paço, lugares de governadores e capitães-generais das províncias lhes foram dados. E tudo isto não bastava! Criou-se a ordem da Torre e Espada [7] — valor e lealdade — para galardoar o valor dos que fugiram com o rei e a lealdade de o acompanharem para o Brasil!!!
A desapropriação, a rapina e o menoscabo dos brios da colônia excediam mesmo dos limites da afronta… E os fidalgos e os vadios não eram mais fidalgos nem menos vadios do que os ciganos, que certamente fizeram parte da comitiva…
Luminárias, músicas, Te Deum em ação de graças e demonstrações calorosas e regozijos populares assinalavam a grande recepção do senhor na senzala do cativo. Os ares pareciam sonoros, as janelas transformavam-se em jardins; as ruas, à noite, ao clarão das luzes, alongavam-se como rios de fogo…
Isto durou por nove dias.
Desde então a capital do Rio de Janeiro era toda festas. Repetidas vezes pomposos bandos, por ordem do Senado da Câmara, corriam a cidade, anunciando que iluminariam até os subúrbios, que haveria fogo de artifício, cavalhadas e corrida touros.
Quando o Brasil foi elevado a reino [8], os folguedos tocaram ao delírio: arcos triunfais, torneios, cavalhadas, carros alegóricos oferecidos pelo comércio, pela classe dos ourives, marceneiros, caldeireiros, latoeiros; representações no teatro real com o Elogio das Estações e transparentes, e o quanto a riqueza e a imaginação em manifestar de mais caprichoso: tudo contribuiu para o grandioso do ato comemorativo.
O sr. Pinto Noites, que ainda conserva a lembrança das festas que tiveram lugar por ocasião dos desposórios do sr. dom Pedro I com a princesa dona Leopoldina, duquesa d’Áustria, descreveu-nos com clareza o que vira, chamando especialmente o nosso interesse para o “curro no Campo”, por isso que aos do seu núcleo couberam as glórias mais vivas [9].
Começaram os festejos a 12 de outubro de 1818 e terminaram a 15.
No primeiro dia, depois das salvas das fortalezas, da recepção do corpo diplomático no Paço da Boa Vista e das solenidades religiosas, o povo em multidão, apinhado nas praças, nas janelas, nos telhados, impacientava-se por avistar suas majestades e a família real. As portas das casas estavam armadas de seda, as colchas de damasco espelhavam ao sol, as ruas eram cintilantes de areia fina e esmaltada de flores. Coretos com bandas militares, arcos e bandeiras tremulando nos galhardetes, soldados dos regimentos e das milícias, gente aos borbotões, davam a essa festa o cunho da magnificência das dinastias asiáticas…
Os sinos repicam, as girândolas estrugem, os batedores, à disparada, de espadas desembainhadas, abrem alas…
Dom João VI e a sua corte, às aclamações das turbas, aos sons das fanfarras, entram triunfantes no campo de Santana, para assistir ao curro.
O Senado da Câmara aí fizera preparar um anfiteatro deslumbrante: o terreiro, aplainado para as cavalhadas, achava-se circulado de arquibancadas inúmeras, com panejamentos de cores múltiplas, enfeitadas de bandeiras, destacando-se ao fundo o pavilhão de el-rei, enorme, forrado de veludo e ouro, com cortinas de damasco finíssimo, estreladas e franjadas de ouro, sobressaindo na frisa as armas portuguesas, entre legendas fulgurantes.
Nos palanques faustosamente adornados, a fidalguia e a vadiagem dominavam absolutas. El-rei e os nobres, no seu dossel suntuoso, escutam as bandas de música que executam dobrados e hinos, esperando o torneio.
A foguetaria estoura, as beldades, faiscantes de pérolas e brilhantes, anseiam pelo instante da justa, que deveria ser admirável. Em frente do palanque real, o rico e humanitário cigano Joaquim Antônio Rabelo mandara arranjar, com a maior galhardia imaginável, um tablado de preciosa madeira, de onde se erguia, dos quatro cantos, uma construção de estilo egípcio, realçando sobre o damasco, a seda e o veludo, galões e rendas de ouro.
Joaquim Antônio Rabelo, a quem a história nacional talvez um dia considere como uma força nas agitações políticas da independência, assim o determinara, para o dançado dos ciganos a quem ensaiara com entusiasmo artístico e vestira à sua custa.
Às quatro da tarde rebentam bombas, as girândolas sibilam e um soar de guizos, chocalhando nas cabeçadas e peitorais de fogosos ginetes, anuncia as cavalhadas. Vinte cavaleiros, com seus pajens, envergam esquisitos costumes, simbolizando cristãos e mouros. [10] Os cavalos, ajaezados de prata, relincham escarvando a terra, sopeados na arena.
Os justadores empunham compridas lanças com fitas na ponta; simulam desafio, traçam largo aceno com espadas e lanças, indicando posições a tomarem, e separam-se. Galopando em volta do circo, confundem-se após, saúdam o rei, pronunciam discursos de embaixada, findo o que, o partido dos cristãos toma à direita e os dos mouros à esquerda. Depois das evoluções mais arriscadas, da corrida da argolinha e das cinco cabeças, da vencida de um deles, cristãos e mouros vão às varandas implorar às formosas damas o batismo de um olhar meigo, ou a confirmação de um sorriso de amor. Flores, triunfos, palmas repetidas…
Nisso, um outro grupo salta na liça: os ciganos. Guiando soberbos cavalos brancos arreados com igualdade e riqueza, balançando penachos implantados em discos de forma lunar, luzidos criados transpõem as barreiras. Os bailadores trazem as bailadeiras à garupa: morenas, sedutoras como as profetisas gentias.
Os homens trajam jaqueta escarlate, calção de veludo azul, meias de seda cor de rosa, chapéu desabado de veludo com plumas, sapatos baixos de fivelas. As moças ajustam à cintura flexível costume de veludo, primorosamente bordado, calção, sapatos de cetim branco com ramagens de ouro; na cabeça, como um turbante de nuvens, um toucado azul, recamado de estrelas, como o diadema das noites do Oriente.
A embaixada cigana dirige-se ao palanque real; a música toca, e os corcéis, levemente fustigados, empinam-se no centro da planície, rodam, dançam a polca. A multidão, contente do desempenho, manifesta-se com ruído.
Findos os primeiros exercícios, os pajens tomam da brida dos animais e conduzem os cavaleiros ao recinto do baile.
Aí, depois das cortesias à família real, ”uma salva de castanholas marca o princípio do dançado… E, ao som das guitarras, o fandango espanhol peneira, arde e geme — mansinho como as ondulações de um lago, quente como os beijos das odaliscas, lascivo como as inspirações do poeta-rei. Os dançarinos são vitoriados: flores, fitas, aplausos, eles os conquistam pela magia plangente de seus instrumentos, pela graça ideal de suas danças.
Dom João VI, participando do agrado geral, fá-los vir à sua presença. Uma banda de música precede-os na maior ordem. Subindo ao pavilhão, dois camaristas trazem, estendidos num coxim de púrpura, os prêmios que lhes eram destinados: patentes militares aos homens e jóias às mulheres [11].
As ovações, os vivas a el-rei e as harmonias coroavam os artistas e a festa… Restabelecido o silêncio, voltaram jubilosos a seu palanque. Preludiaram na guitarra uns acordes casados a vozes de uma cantilena em sua linguagem. A tradição olvidou a toada e as letras… Para o sr. Pinto Noites, era o Canto egipcio.
Às 6 horas os clarins, à frente de enorme préstito, ecoavam na cidade. El-rei nosso senhor via as luminárias…
Uma mulher trigueira, no auge da aflição, olhando para uma cruz vermelha [12], pintada no alto de sua porta, fitou o rei na sua passagem, e, estendendo os braços. como que querendo repelir uma visão perseguidora, exclamou:
— Jála-te, bengue! [13]
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Morais Filho Filho, Alexandre José de Melo. Os ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1981 (Reconquista do Brasil, nova série, 59), p.25-33
Notas - As notas indicadas por (M) foram feitas pelo autor, todas as outras são de autoria de Luís da Câmara Cascudo
1. Ordenações, Liv. 5º tít. 69, § 10. Leis de 7 de janeiro de 1606, de 13 de setembro de 1613, de 24 de outubro de 1647, de 5 de fevereiro de 1649, de 26 de janeiro e de 10 de novembro de 1708, de 20 de setembro de 1760. Decretos de 30 de julho de 1648, de 20 de setembro de 1649, de 27 de agosto de 1686, de 28 de fevereiro de 1718 e de 17 de julho de 1745. Provisão de 9 de julho de 1679. Cartas Régias de 3 de dezembro de 1614 e de 30 de junho de 1639 e Aviso de 15 de maio de 1756. Pelo Alvará de 20 de outubro de 1760 se procedeu contra ciganos, que deste reino foram degradados para o Estado do Brasil, e aí viviam despóticos, cometendo furtos de cavalos, escravos e carregando-se de armas de fogo pelas estradas. Vejam a esse respeito as Leis de 13 de março de 1526, de 26 de novembro de 1538, de 17 de agosto de 1557 e o Alvará de 14 de março de 1573. (M).
2. Cigano (M). “O nome calon é tirado dum dos nomes genéricos da nação dos ciganos, Isto é, de kalo, no plural kala, que verdadeiramente quer dizer negro, os negros”; José B. de Oliveira China, “Os ciganos do Brasil”, Revista do Museu Paulista, nº 21, p.552, São Paulo, 1937 (Obs.: O M entre parênteses (M) indica que a nota é do autor e não tendo assinatura é de Luís Câmara Cascudo).
3. É evidentemente exagerada a opinião do autor. A percentagem cigana não constituiu elemento étnico capaz de merecer a frase. A dissolução do cigano sedentário se processou pelo duplo efeito da mestiçagem e da assimilação da vida burocrática ou comercial citadina. Nos dois maiores centros de densificação cigana, Bahia e Rio de Janeiro, seu desaparecimento como massa sensível foi completo. De mais raro e difícil dispersamento étnico está sendo ainda o cigano nômade, vivendo no grupo errante, por todos os estados do Brasil desde o século XVIII.
4. Dom Marcos de Noronha e Brito, oitavo conde dos Arcos, décimo-quinto e último vice-rei do Brasil, 1806-1808. A ação do conde dos Arcos na administração e política brasileira foi intensa, envolvendo-se nas lutas e manobras partidárias da época com entusiasmo. É uma figura de homem hábil, enérgico, sabendo conquistar e manter amizades. Sebastião Pagano estudou-o, O conde dos Arcos e a revolução de 1817, e em Portugal, Rocha Martins no O último vice-rei do Brasil fixou-lhe a fisionomia sugestiva, inquieta e viva.
5. As “obras de ouro e prata” tinham sido proibidas no Brasil pela carta régia de 30 de julho de 1766. Os primeiros favores apareceram na carta de lei de 10 de abril de 1808. A autorização plena só ocorreu pelo alvará com força de Lei de 11 de agosto de 1815, oficialmente ab-rogando a carta régia de 30 de julho de 1766.
6. “Só para pensões a fidalgos e outras pessoas que o acompanharam, dom João criou a despesa de 164:394,824$. Essas pensões variavam desde 4:000$ até 30$ por ano, “Tobias Monteiro, Elaboração da independência, p.107″.
7. A Ordem da Torre e Espada foi “restaurada e renovada” (criara-a o rei dom Afonso V, o africano, em 1459) por decreto de 13 de maio de 1808 e regulamentada pela carta de lei de 29 de novembro do mesmo 1808. Dom João, na carta de lei, explicava a necessidade de uma ordem puramente honorífica, destinada a premiar civis e militares, nacionais e estrangeiros, especialmente ingleses. As três ordens existentes eram militares e religiosas, excluindo dos quadros os não-católicos que a não podiam receber. A Torre e Espada não fazia essas exigências. Por toda carta de lei o regente menciona como um dos títulos credenciários à condecoração o gesto daqueles que preferiram a honra de acompanhar-me a todos os seus interesses, abandonando-os a feliz dita de me seguirem. A ordem vinculava bens territoriais brasileiros, sobrevivência jurídica pouco citada. O artigo IX declarava: “Sendo o fim principal da renovação desta ordem premiar as grandes ações, e serviços, que se me fizerem, Hei por bem estabelecer seis comendas para os seis Grãos Cruzes Efetivos, que hão de consistir em uma doação de duas léguas de raiz ou quatro quadradas de terra cada uma, e oito comendas de légua e meia de raiz, ou duas e um quarto quadradas para os comendadores”. O artigo X esclarecia ser o terreno dessas comendas inculto e desaproveitado e absolutamente por cultivar e sobre o qual não houvesse domínio ou posse. Com essas restrições, naturalmente não apareceu comendador que requeresse sua comenda territorial, contentando-se com a placa, medalha, colar e mais honras visíveis. A ordem (artigo XIV) sua festa oficial em cada dia 22 de janeiro, aniversário da chegada do príncipe regente ao Brasil.
8. A carta de Lei de 16 de dezembro de 1815 elevou o vice-reinado do Brasil à dignidade, preeminência e denominação de Reino do Brasil. O artigo III dava ao príncipe dom. João o título de príncipe regente do Reino-Unido de Portugal e do Brasil e Algarve.
9. Não era a primeíra vez que os ciganos tomavam parte, oficialmente, num programa de festas protocolares. O barão de Eschwege. Brasilien die neue welte, v.2, p.55 narra a participação entusiasta de um grupo cigano na comemoração pública quando do casamento da princesa dona Maria Teresa, primogênita do príncipe regente, com seu primo, Infante de Espanha, dom Pedro Carlos, a 13 de maio de 1810. Eschwege informa: “Os ciganos foram.convidado para as festas dadas na capital brasileira por ocasião do casamento da filha mais velha de dom João VI com o infante espanhol. Os moços desta nação, trazendo à garupa suas noivas, entraram no circo montando belos cavalos ricamente ajaezados. Cada par pulou no chão, com incrível agilidade, e todos juntos, executaram os mais lindos bailados que eu jamais vira. Todos só tinham olhos para as jovens ciganas e os outros bailados que também executaram pareceram ter tido por único fim fazer sobressair os dos ciganos como os mais agradáveis”.
10. Esses cristãos e mouros realizam uma quadrilha eqüestre, simulacro de batalha, com os melhores efeitos de alta escola de equitação. O auto popular de cristãos e mouros é diverso, também denominado chegança, nome de uma dança portuguesa do século XVIII. Semelhantemente à exibição do Rio de Janeiro em 1818, Saint Hilaire assistiu em Ilhéus, na província da Bahia. Havia ainda, além do auto e da quadrilha eqüestre, um outro ato, ocorrendo a prisão e livramento de uma princesa moura que era batizada, tema do ciclo carlovíngio que José de Alencar descreveu como se realizando na Cidade do Salvador, Minas de prata, XIII. Ver Revista da música brasileira, Renato Almeida, “Chegança dos mouros”, p.216-225, e bibliografia citada.
11. A Joaquim Antônio Rabelo, sargento-mor do 3º regimento de milícias da corte, foi concedida a mercê de melhoramento de reforma no posto de tenente-coronel; e nomeados alferes agregados das Ordenanças da corte, José Cardoso Rebelo. Manuel Laço, Antônio Vaz Salgado Fernando José da Costa, José Luís da Mota, Baltasar Antônio Policarpo e João do Nascimento Natal. (M)
12. Era uma intimação de despejo, por ordem de el-rei, para que o morador cedesse a casa aos recém-chegados do reino. (M). Tobias Monteiro esclarece: “Pela chamada Aposentadoria Real o Soberano podia requisitar as casas de que precisasse para si e as pessoas a quem quisesse acomodar, desalojando desse modo os ocupantes. O papel pregado à porta dessas casas com as iniciais P. R, Príncipe Real, passou a ser traduzido jocosamente pelo povo; queria dizer: “ponha-se na rua”, Elaboração da independência, p.100-101. Alguns fidalgos do séquito real ficaram ocupando as residências alheias, sem pagar, durante mais de década, como o conde de Belmonte e a duquesa de Cadaval.
13. Vai-te, diabo!
E uma espécie de noite os protegeu por algum tempo, começando na Espanha a sua existência ativa, o seu despertar na sociedade, no reinado de Carlos III, que os utilizou em proveito das artes.
Esta reabilitação moral foi transitória e enganadora; novos governos desencadearam contra os pariás-erradios atrozes perseguições, despojando-os de seus empregos e profissões, destituindo-os da naturalização e privilégios a que tinham direito.
Aos azares da má sorte, no combate braço a braço contra o destino adverso, numerosas avançadas emigraram para Portugal, indo mais tarde alimentar as chamas das fogueiras inquisitoriais de dom João II, que aumentara dos códigos portugueses leis expressamente promulgadas para puni-los [1] .
A respeito dessa raça, isto é, de sua origem, costumes e tradições, nenhum eco se escapa das velhas crônicas portuguesas, a não ser o de seus passos nos tribunais do crime e de seus lamentos, ao tom das vagas, nas amuradas dos navios que os conduziam aos degredos do Brasil e Angola.
E é pela legislação que vamos surpreender as primeiras turmas que aportaram às nossas plagas, determinando a prioridade das províncias que as receberam.
Abramos as Ordernações do Reino.
Diz o decreto de 27 de agosto de 1685: “Fica comutado aos ciganos o degredo da África para o Maranhão”.
Nas provisões de 15 de abril de 1718, 23 de agosto de 1724, 29 de maio de 1726 e de 29 de julho de 1740, lê-se: “Se os ciganos e outros malfeitores, degradados do reino para Pernambuco. não adotarem nesta capitania algum modo de vida estável e continuarem a cometer crimes, serão novamente degradados dela para Angola”.
Em 1718, por decreto de 11 de abril, “foram degradados os ciganos do reino para a praça da Cidade da Bahia, ordenando-se ao governador que ponha cobro e cuidado na proibição do uso de sua língua e gíria, não permitindo que se ensine a seus filhos, a fim de obter-se a sua extinção”.
Foi por essa data, segundo o sr. Pinto Noites, estimável e venerando calon [2] de 89 anos, que chegaram ao Rio de Janeiro os seus avós e parentes — nove famílias para aqui degradadas, em razão de um roubo de quintos de ouro atribuído aos ciganos.
De sua prodigiosa memória, arquivo inesgotável da história de sua nação entre nós, deixou rolar, durante duas horas que com ele conferenciamos, informações admiráveis de critério e saber tradicional. Daí a notícia que possuímos de famílias importantes do Brasil cruzadas com eles, e a lista nominal das que acima referimos. de onde emergem algumas da Cidade Nova, Minas, Bahia, etc.
Na intimidade desse povo inteligente e às mais das vezes caluniado, conseguimos escrupulosamente verificar que as palavras do discreto ancião ajustavam-se à versão popular dos mais esclarecidos de sua tribo.
O sr. Pinto Noites, dando-nos a relação das nove famílias, ou pelo menos o nome dos seus chefes, compreendidos no decreto de banimento de 11 de abril de 1718, estabelece a ordem seguinte:
João da Costa Ramos, por alcunha João do Reino, com seu filho Fernando da Costa Ramos e sua mulher dona Eugênia; Luís Rabelo de Aragão; um Ricardo Fraga, que seguiu para Minas; Antônio Laço, com sua mulher Jacinta Laço; o conde de Cantanhede; Manuel Cabral e Antônio Curto, que foram para a Bahia, acompanhados, além de mulher e. filhos, de noras, genros e netos.
— Logo que desembarcaram, terminou o nosso conferente, “alojaram-se em barracas no Campo dos Ciganos, enorme e inculta praça que se estendia da rua do Cano até a Barreira do Senado”.
Empregavam-se eles, pelo que pudemos depreender da narrativa, no trabalho dos metais: eram caldeireiros, ferreiros, latoeiros e ourives; as mulheres rezavam de quebranto e liam a sina.
Qual o rumo posteriormente tomado pelos deportados, quantos internaram-se nas florestas ou permaneceram nos centros colonizados, é uma questão complexa e de resolução dificílima.
Tropas e tropas vagabundas infestavam o norte e o sul, vivendo da natureza e na natureza, comerciando nos pequenos povoados e pirateando nas estradas. A reprodução entre si deu-se em grande escala; o cruzamento com as três raças existentes efetuou-se, sendo o cigano a solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do Brasil [3].
À ebulição dos elementos disparatados de nossa formação, mais portugueses e boêmios vieram juntar-se em 1808, em desproveito do negro, cujo manancial ia em breve estancar-se com a abolição do tráfico.
O estado do Brasil nessa época era todo especial; a família real portuguesa traslada-se para a colônia, alterando a fisionomia do passado.
Acontecimentos notáveis se sucedem; o país atravessa nova fase na sua organização política, administrativa e econômica.
Estudemos os fatos.
À chegada da corte real portuguesa, o Rio de Janeiro era a capital de uma colônia, que a sua metrópole considerava como uma feitoria. O comércio e toda a espécie de indústria lhe eram vedados; trabalhava na agricultura e nas minas, para mandar o produto do seu trabalho a seus dominadores da Europa.
O príncipe-regente veio quase inesperadamente, escoltado por uma esquadra inglesa de nove naus, comandada pelo vice-almirante Sidney Smith. A esquadra portuguesa compunha-se de muitas naus de linha, além dos navios mercantes que iam chegando, perfazendo ao todo 3.000 pessoas, as que acompanharam o rei, no dizer do conselheiro Drumond.
O Conde dos Arcos [4], personificação escolhida de todos os defeitos de sua casta, perseguia barbaramente o contrabando, que eram todos os produtos estrangeiros. Rodeou-se de malsins, que denunciavam quem tinha uma peça ou outra de fazenda inglesa ou francesa. Se o infeliz era negociante, mandavam que fosse por alguns dias posto de sentinela, carregado de armas, à porta da Alfândega, enquanto durasse o despacho. Isto não contando as somas com que o condenavam.
Era proibido por lei que no Brasil houvesse ourives [5]! Esta lei foi derrogada muito depois da mudança das cortes portuguesas, e já existiam na rua dos Ourives lojas de ambos os lados, mas que só negociavam com obras feitas no Porto ou Lisboa — que a metrópole consentia que as usassem os habitantes do Brasil!
Do interminável séquito da família real poucos prestavam para alguma coisa.
Eram fidalgos e vadios. Aos fidalgos mandou-se dar pensões do tesouro: aos casados de 4.000$ e aos solteiros de 2:400$ [6]. Os vadios foram empregados nas repartições que se criaram para esse fim.
Aos fidalgos, ainda depois do regresso da família real, o tesouro do Brasil pagou alguns meses as tais pensões. Posições civis e militares, a lucrativa servidão do paço, lugares de governadores e capitães-generais das províncias lhes foram dados. E tudo isto não bastava! Criou-se a ordem da Torre e Espada [7] — valor e lealdade — para galardoar o valor dos que fugiram com o rei e a lealdade de o acompanharem para o Brasil!!!
A desapropriação, a rapina e o menoscabo dos brios da colônia excediam mesmo dos limites da afronta… E os fidalgos e os vadios não eram mais fidalgos nem menos vadios do que os ciganos, que certamente fizeram parte da comitiva…
Luminárias, músicas, Te Deum em ação de graças e demonstrações calorosas e regozijos populares assinalavam a grande recepção do senhor na senzala do cativo. Os ares pareciam sonoros, as janelas transformavam-se em jardins; as ruas, à noite, ao clarão das luzes, alongavam-se como rios de fogo…
Isto durou por nove dias.
Desde então a capital do Rio de Janeiro era toda festas. Repetidas vezes pomposos bandos, por ordem do Senado da Câmara, corriam a cidade, anunciando que iluminariam até os subúrbios, que haveria fogo de artifício, cavalhadas e corrida touros.
Quando o Brasil foi elevado a reino [8], os folguedos tocaram ao delírio: arcos triunfais, torneios, cavalhadas, carros alegóricos oferecidos pelo comércio, pela classe dos ourives, marceneiros, caldeireiros, latoeiros; representações no teatro real com o Elogio das Estações e transparentes, e o quanto a riqueza e a imaginação em manifestar de mais caprichoso: tudo contribuiu para o grandioso do ato comemorativo.
O sr. Pinto Noites, que ainda conserva a lembrança das festas que tiveram lugar por ocasião dos desposórios do sr. dom Pedro I com a princesa dona Leopoldina, duquesa d’Áustria, descreveu-nos com clareza o que vira, chamando especialmente o nosso interesse para o “curro no Campo”, por isso que aos do seu núcleo couberam as glórias mais vivas [9].
Começaram os festejos a 12 de outubro de 1818 e terminaram a 15.
No primeiro dia, depois das salvas das fortalezas, da recepção do corpo diplomático no Paço da Boa Vista e das solenidades religiosas, o povo em multidão, apinhado nas praças, nas janelas, nos telhados, impacientava-se por avistar suas majestades e a família real. As portas das casas estavam armadas de seda, as colchas de damasco espelhavam ao sol, as ruas eram cintilantes de areia fina e esmaltada de flores. Coretos com bandas militares, arcos e bandeiras tremulando nos galhardetes, soldados dos regimentos e das milícias, gente aos borbotões, davam a essa festa o cunho da magnificência das dinastias asiáticas…
Os sinos repicam, as girândolas estrugem, os batedores, à disparada, de espadas desembainhadas, abrem alas…
Dom João VI e a sua corte, às aclamações das turbas, aos sons das fanfarras, entram triunfantes no campo de Santana, para assistir ao curro.
O Senado da Câmara aí fizera preparar um anfiteatro deslumbrante: o terreiro, aplainado para as cavalhadas, achava-se circulado de arquibancadas inúmeras, com panejamentos de cores múltiplas, enfeitadas de bandeiras, destacando-se ao fundo o pavilhão de el-rei, enorme, forrado de veludo e ouro, com cortinas de damasco finíssimo, estreladas e franjadas de ouro, sobressaindo na frisa as armas portuguesas, entre legendas fulgurantes.
Nos palanques faustosamente adornados, a fidalguia e a vadiagem dominavam absolutas. El-rei e os nobres, no seu dossel suntuoso, escutam as bandas de música que executam dobrados e hinos, esperando o torneio.
A foguetaria estoura, as beldades, faiscantes de pérolas e brilhantes, anseiam pelo instante da justa, que deveria ser admirável. Em frente do palanque real, o rico e humanitário cigano Joaquim Antônio Rabelo mandara arranjar, com a maior galhardia imaginável, um tablado de preciosa madeira, de onde se erguia, dos quatro cantos, uma construção de estilo egípcio, realçando sobre o damasco, a seda e o veludo, galões e rendas de ouro.
Joaquim Antônio Rabelo, a quem a história nacional talvez um dia considere como uma força nas agitações políticas da independência, assim o determinara, para o dançado dos ciganos a quem ensaiara com entusiasmo artístico e vestira à sua custa.
Às quatro da tarde rebentam bombas, as girândolas sibilam e um soar de guizos, chocalhando nas cabeçadas e peitorais de fogosos ginetes, anuncia as cavalhadas. Vinte cavaleiros, com seus pajens, envergam esquisitos costumes, simbolizando cristãos e mouros. [10] Os cavalos, ajaezados de prata, relincham escarvando a terra, sopeados na arena.
Os justadores empunham compridas lanças com fitas na ponta; simulam desafio, traçam largo aceno com espadas e lanças, indicando posições a tomarem, e separam-se. Galopando em volta do circo, confundem-se após, saúdam o rei, pronunciam discursos de embaixada, findo o que, o partido dos cristãos toma à direita e os dos mouros à esquerda. Depois das evoluções mais arriscadas, da corrida da argolinha e das cinco cabeças, da vencida de um deles, cristãos e mouros vão às varandas implorar às formosas damas o batismo de um olhar meigo, ou a confirmação de um sorriso de amor. Flores, triunfos, palmas repetidas…
Nisso, um outro grupo salta na liça: os ciganos. Guiando soberbos cavalos brancos arreados com igualdade e riqueza, balançando penachos implantados em discos de forma lunar, luzidos criados transpõem as barreiras. Os bailadores trazem as bailadeiras à garupa: morenas, sedutoras como as profetisas gentias.
Os homens trajam jaqueta escarlate, calção de veludo azul, meias de seda cor de rosa, chapéu desabado de veludo com plumas, sapatos baixos de fivelas. As moças ajustam à cintura flexível costume de veludo, primorosamente bordado, calção, sapatos de cetim branco com ramagens de ouro; na cabeça, como um turbante de nuvens, um toucado azul, recamado de estrelas, como o diadema das noites do Oriente.
A embaixada cigana dirige-se ao palanque real; a música toca, e os corcéis, levemente fustigados, empinam-se no centro da planície, rodam, dançam a polca. A multidão, contente do desempenho, manifesta-se com ruído.
Findos os primeiros exercícios, os pajens tomam da brida dos animais e conduzem os cavaleiros ao recinto do baile.
Aí, depois das cortesias à família real, ”uma salva de castanholas marca o princípio do dançado… E, ao som das guitarras, o fandango espanhol peneira, arde e geme — mansinho como as ondulações de um lago, quente como os beijos das odaliscas, lascivo como as inspirações do poeta-rei. Os dançarinos são vitoriados: flores, fitas, aplausos, eles os conquistam pela magia plangente de seus instrumentos, pela graça ideal de suas danças.
Dom João VI, participando do agrado geral, fá-los vir à sua presença. Uma banda de música precede-os na maior ordem. Subindo ao pavilhão, dois camaristas trazem, estendidos num coxim de púrpura, os prêmios que lhes eram destinados: patentes militares aos homens e jóias às mulheres [11].
As ovações, os vivas a el-rei e as harmonias coroavam os artistas e a festa… Restabelecido o silêncio, voltaram jubilosos a seu palanque. Preludiaram na guitarra uns acordes casados a vozes de uma cantilena em sua linguagem. A tradição olvidou a toada e as letras… Para o sr. Pinto Noites, era o Canto egipcio.
Às 6 horas os clarins, à frente de enorme préstito, ecoavam na cidade. El-rei nosso senhor via as luminárias…
Uma mulher trigueira, no auge da aflição, olhando para uma cruz vermelha [12], pintada no alto de sua porta, fitou o rei na sua passagem, e, estendendo os braços. como que querendo repelir uma visão perseguidora, exclamou:
— Jála-te, bengue! [13]
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Morais Filho Filho, Alexandre José de Melo. Os ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1981 (Reconquista do Brasil, nova série, 59), p.25-33
Notas - As notas indicadas por (M) foram feitas pelo autor, todas as outras são de autoria de Luís da Câmara Cascudo
1. Ordenações, Liv. 5º tít. 69, § 10. Leis de 7 de janeiro de 1606, de 13 de setembro de 1613, de 24 de outubro de 1647, de 5 de fevereiro de 1649, de 26 de janeiro e de 10 de novembro de 1708, de 20 de setembro de 1760. Decretos de 30 de julho de 1648, de 20 de setembro de 1649, de 27 de agosto de 1686, de 28 de fevereiro de 1718 e de 17 de julho de 1745. Provisão de 9 de julho de 1679. Cartas Régias de 3 de dezembro de 1614 e de 30 de junho de 1639 e Aviso de 15 de maio de 1756. Pelo Alvará de 20 de outubro de 1760 se procedeu contra ciganos, que deste reino foram degradados para o Estado do Brasil, e aí viviam despóticos, cometendo furtos de cavalos, escravos e carregando-se de armas de fogo pelas estradas. Vejam a esse respeito as Leis de 13 de março de 1526, de 26 de novembro de 1538, de 17 de agosto de 1557 e o Alvará de 14 de março de 1573. (M).
2. Cigano (M). “O nome calon é tirado dum dos nomes genéricos da nação dos ciganos, Isto é, de kalo, no plural kala, que verdadeiramente quer dizer negro, os negros”; José B. de Oliveira China, “Os ciganos do Brasil”, Revista do Museu Paulista, nº 21, p.552, São Paulo, 1937 (Obs.: O M entre parênteses (M) indica que a nota é do autor e não tendo assinatura é de Luís Câmara Cascudo).
3. É evidentemente exagerada a opinião do autor. A percentagem cigana não constituiu elemento étnico capaz de merecer a frase. A dissolução do cigano sedentário se processou pelo duplo efeito da mestiçagem e da assimilação da vida burocrática ou comercial citadina. Nos dois maiores centros de densificação cigana, Bahia e Rio de Janeiro, seu desaparecimento como massa sensível foi completo. De mais raro e difícil dispersamento étnico está sendo ainda o cigano nômade, vivendo no grupo errante, por todos os estados do Brasil desde o século XVIII.
4. Dom Marcos de Noronha e Brito, oitavo conde dos Arcos, décimo-quinto e último vice-rei do Brasil, 1806-1808. A ação do conde dos Arcos na administração e política brasileira foi intensa, envolvendo-se nas lutas e manobras partidárias da época com entusiasmo. É uma figura de homem hábil, enérgico, sabendo conquistar e manter amizades. Sebastião Pagano estudou-o, O conde dos Arcos e a revolução de 1817, e em Portugal, Rocha Martins no O último vice-rei do Brasil fixou-lhe a fisionomia sugestiva, inquieta e viva.
5. As “obras de ouro e prata” tinham sido proibidas no Brasil pela carta régia de 30 de julho de 1766. Os primeiros favores apareceram na carta de lei de 10 de abril de 1808. A autorização plena só ocorreu pelo alvará com força de Lei de 11 de agosto de 1815, oficialmente ab-rogando a carta régia de 30 de julho de 1766.
6. “Só para pensões a fidalgos e outras pessoas que o acompanharam, dom João criou a despesa de 164:394,824$. Essas pensões variavam desde 4:000$ até 30$ por ano, “Tobias Monteiro, Elaboração da independência, p.107″.
7. A Ordem da Torre e Espada foi “restaurada e renovada” (criara-a o rei dom Afonso V, o africano, em 1459) por decreto de 13 de maio de 1808 e regulamentada pela carta de lei de 29 de novembro do mesmo 1808. Dom João, na carta de lei, explicava a necessidade de uma ordem puramente honorífica, destinada a premiar civis e militares, nacionais e estrangeiros, especialmente ingleses. As três ordens existentes eram militares e religiosas, excluindo dos quadros os não-católicos que a não podiam receber. A Torre e Espada não fazia essas exigências. Por toda carta de lei o regente menciona como um dos títulos credenciários à condecoração o gesto daqueles que preferiram a honra de acompanhar-me a todos os seus interesses, abandonando-os a feliz dita de me seguirem. A ordem vinculava bens territoriais brasileiros, sobrevivência jurídica pouco citada. O artigo IX declarava: “Sendo o fim principal da renovação desta ordem premiar as grandes ações, e serviços, que se me fizerem, Hei por bem estabelecer seis comendas para os seis Grãos Cruzes Efetivos, que hão de consistir em uma doação de duas léguas de raiz ou quatro quadradas de terra cada uma, e oito comendas de légua e meia de raiz, ou duas e um quarto quadradas para os comendadores”. O artigo X esclarecia ser o terreno dessas comendas inculto e desaproveitado e absolutamente por cultivar e sobre o qual não houvesse domínio ou posse. Com essas restrições, naturalmente não apareceu comendador que requeresse sua comenda territorial, contentando-se com a placa, medalha, colar e mais honras visíveis. A ordem (artigo XIV) sua festa oficial em cada dia 22 de janeiro, aniversário da chegada do príncipe regente ao Brasil.
8. A carta de Lei de 16 de dezembro de 1815 elevou o vice-reinado do Brasil à dignidade, preeminência e denominação de Reino do Brasil. O artigo III dava ao príncipe dom. João o título de príncipe regente do Reino-Unido de Portugal e do Brasil e Algarve.
9. Não era a primeíra vez que os ciganos tomavam parte, oficialmente, num programa de festas protocolares. O barão de Eschwege. Brasilien die neue welte, v.2, p.55 narra a participação entusiasta de um grupo cigano na comemoração pública quando do casamento da princesa dona Maria Teresa, primogênita do príncipe regente, com seu primo, Infante de Espanha, dom Pedro Carlos, a 13 de maio de 1810. Eschwege informa: “Os ciganos foram.convidado para as festas dadas na capital brasileira por ocasião do casamento da filha mais velha de dom João VI com o infante espanhol. Os moços desta nação, trazendo à garupa suas noivas, entraram no circo montando belos cavalos ricamente ajaezados. Cada par pulou no chão, com incrível agilidade, e todos juntos, executaram os mais lindos bailados que eu jamais vira. Todos só tinham olhos para as jovens ciganas e os outros bailados que também executaram pareceram ter tido por único fim fazer sobressair os dos ciganos como os mais agradáveis”.
10. Esses cristãos e mouros realizam uma quadrilha eqüestre, simulacro de batalha, com os melhores efeitos de alta escola de equitação. O auto popular de cristãos e mouros é diverso, também denominado chegança, nome de uma dança portuguesa do século XVIII. Semelhantemente à exibição do Rio de Janeiro em 1818, Saint Hilaire assistiu em Ilhéus, na província da Bahia. Havia ainda, além do auto e da quadrilha eqüestre, um outro ato, ocorrendo a prisão e livramento de uma princesa moura que era batizada, tema do ciclo carlovíngio que José de Alencar descreveu como se realizando na Cidade do Salvador, Minas de prata, XIII. Ver Revista da música brasileira, Renato Almeida, “Chegança dos mouros”, p.216-225, e bibliografia citada.
11. A Joaquim Antônio Rabelo, sargento-mor do 3º regimento de milícias da corte, foi concedida a mercê de melhoramento de reforma no posto de tenente-coronel; e nomeados alferes agregados das Ordenanças da corte, José Cardoso Rebelo. Manuel Laço, Antônio Vaz Salgado Fernando José da Costa, José Luís da Mota, Baltasar Antônio Policarpo e João do Nascimento Natal. (M)
12. Era uma intimação de despejo, por ordem de el-rei, para que o morador cedesse a casa aos recém-chegados do reino. (M). Tobias Monteiro esclarece: “Pela chamada Aposentadoria Real o Soberano podia requisitar as casas de que precisasse para si e as pessoas a quem quisesse acomodar, desalojando desse modo os ocupantes. O papel pregado à porta dessas casas com as iniciais P. R, Príncipe Real, passou a ser traduzido jocosamente pelo povo; queria dizer: “ponha-se na rua”, Elaboração da independência, p.100-101. Alguns fidalgos do séquito real ficaram ocupando as residências alheias, sem pagar, durante mais de década, como o conde de Belmonte e a duquesa de Cadaval.
13. Vai-te, diabo!
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
O homem que pôs um ovo
Um marido tinha uma mulher muito gabola de saber guardar segredo. Vivia dizendo que as outras eram saco rasgado e ninguém podia confiar no juízo dela. Tanto se gabou e se gabou que o marido pensou em fazer uma experiência para ver se a mulher era mesmo segura de língua.
Uma noite, voltando tarde para casa, o homem trouxe um grande ovo de pata, que é muito maior do que os da galinha e deitou-se na cama. Lá para as tantas da madrugada, acordou a mulher, todo assustado e pedindo que ela guardasse todo segredo, contou que acabara de pôr um ovo! A mulher só faltou morrer de admiração mas o marido mostrou o ovo e ela acreditou, jurando que nem ao padre confessor havia de dizer o que soubera.
Ora muito bem. Pela manhã, assim que o marido saiu para o trabalho a mulher correu para a vizinha e, pedindo segredo de amiga, contou que o marido pusera um ovo na cama e estava todo aborrecido com essa desgraça. A vizinha prometeu que ninguém saberia mas passou o dia contando o caso, ao marido, aos vizinhos, aos conhecidos, sempre pedindo segredo.
E como quem conta um conto aumenta um ponto, toda vez que a história passava adiante o ovo ia mudando de número. Primeiro era um, depois dois, depois três. Ao anoitecer já o homem pusera meio cento de ovos. Voltando para casa, o marido encontrou-se com um amigo e este lhe disse que havia novidade naquela rua.
- Qual é a novidade?
- Não soube? Uma cousa esquisita! Imagine que um morador nesta rua pôs, penso eu, quase um cento de ovos, seu mano! Diz que está muito doente e que cada ovo tem duas gemas. É o fim do mundo.
O marido não quis saber quem estava de vigia. Entrou em casa, chamou a mulher, agarrou uma bengala e passou-lhe a lenha com vontade, dando uma surra de preceito, que a deixou de cama, toda doída e com panos de água e sal.
Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada. Por isso é que os antigos diziam que:
Quem tiver o seu segredo
Não conte a mulher casada
Ela conta ao seu marido
O marido aos camaradas...
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(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)
Uma noite, voltando tarde para casa, o homem trouxe um grande ovo de pata, que é muito maior do que os da galinha e deitou-se na cama. Lá para as tantas da madrugada, acordou a mulher, todo assustado e pedindo que ela guardasse todo segredo, contou que acabara de pôr um ovo! A mulher só faltou morrer de admiração mas o marido mostrou o ovo e ela acreditou, jurando que nem ao padre confessor havia de dizer o que soubera.
Ora muito bem. Pela manhã, assim que o marido saiu para o trabalho a mulher correu para a vizinha e, pedindo segredo de amiga, contou que o marido pusera um ovo na cama e estava todo aborrecido com essa desgraça. A vizinha prometeu que ninguém saberia mas passou o dia contando o caso, ao marido, aos vizinhos, aos conhecidos, sempre pedindo segredo.
E como quem conta um conto aumenta um ponto, toda vez que a história passava adiante o ovo ia mudando de número. Primeiro era um, depois dois, depois três. Ao anoitecer já o homem pusera meio cento de ovos. Voltando para casa, o marido encontrou-se com um amigo e este lhe disse que havia novidade naquela rua.
- Qual é a novidade?
- Não soube? Uma cousa esquisita! Imagine que um morador nesta rua pôs, penso eu, quase um cento de ovos, seu mano! Diz que está muito doente e que cada ovo tem duas gemas. É o fim do mundo.
O marido não quis saber quem estava de vigia. Entrou em casa, chamou a mulher, agarrou uma bengala e passou-lhe a lenha com vontade, dando uma surra de preceito, que a deixou de cama, toda doída e com panos de água e sal.
Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada. Por isso é que os antigos diziam que:
Quem tiver o seu segredo
Não conte a mulher casada
Ela conta ao seu marido
O marido aos camaradas...
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(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)
terça-feira, 16 de outubro de 2012
A lenda do primeiro gaúcho
Século XVIII.
Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados.
Os índios minuanos, avisados pelas sentinelas da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flecha e boleadeiras e lanças, deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas.
Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo do dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente seriam descobertos pelos inimigos.
Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes.
Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si.
Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosa saraivadas de flechas. Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora se servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem.
Caído por terra acha-se um moço ferido. Ao seu lado uma jovem índia minuano. Fascinara-a a coragem do estrangeiro.
O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheia de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro.
O prisioneiro é levado para o acampamento dos minuano. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, dão-lhe toda liberdade sob vigilância das sentinelas.
O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, uma pau de corticeira. Cava-a dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa emprega o grude de parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento.
A índia já lhe tem muita amizade e está sempre ao seu lado nas horas de folga. Enquanto o vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana.
Ainda não passara um lua, e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício.
Amarrado a um tronco está o prisioneiro.
Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam a sua morte. De quando em vez, passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho fabricado com o mel eiratim.
Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no à sua presença.
Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique:
-Que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Que não nos tornem a vir incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu, pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus!
Contudo, o chefe minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido.
Surpreende-se o branco com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez. Cantar uma balada de sua terra.
É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios.
Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o ricto bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto.
Ouve-no com enlevo, exclamando a todo instante: – Gaú-che! Gaú-che!… o que significa: gente que canta triste.
Sensibilizados pela doce cantiga do condenado à morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado.
E, assim, o brasileiro fica morando com os minuanos.
Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com a indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho.
Fonte: Lessa, Barbosa - Antologia ilustrada do folclore brasileiro: Estórias e lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo, Editora Literart, 1960
Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados.
Os índios minuanos, avisados pelas sentinelas da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flecha e boleadeiras e lanças, deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas.
Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo do dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente seriam descobertos pelos inimigos.
Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes.
Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si.
Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosa saraivadas de flechas. Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora se servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem.
Caído por terra acha-se um moço ferido. Ao seu lado uma jovem índia minuano. Fascinara-a a coragem do estrangeiro.
O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheia de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro.
O prisioneiro é levado para o acampamento dos minuano. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, dão-lhe toda liberdade sob vigilância das sentinelas.
O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, uma pau de corticeira. Cava-a dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa emprega o grude de parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento.
A índia já lhe tem muita amizade e está sempre ao seu lado nas horas de folga. Enquanto o vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana.
Ainda não passara um lua, e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício.
Amarrado a um tronco está o prisioneiro.
Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam a sua morte. De quando em vez, passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho fabricado com o mel eiratim.
Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no à sua presença.
Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique:
-Que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Que não nos tornem a vir incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu, pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus!
Contudo, o chefe minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido.
Surpreende-se o branco com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez. Cantar uma balada de sua terra.
É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios.
Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o ricto bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto.
Ouve-no com enlevo, exclamando a todo instante: – Gaú-che! Gaú-che!… o que significa: gente que canta triste.
Sensibilizados pela doce cantiga do condenado à morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado.
E, assim, o brasileiro fica morando com os minuanos.
Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com a indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho.
Fonte: Lessa, Barbosa - Antologia ilustrada do folclore brasileiro: Estórias e lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo, Editora Literart, 1960
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
História de Cosme e Damião
São Cosme e São Damião são dois santos orientais, provavelmente martirizados em Egéia, Cilícia, Ásia Menor, região da atual Turquia, a 27 de setembro de 287, durante a perseguição do imperador Diocleciano (284-305). Historicamente, pouco se sabe sobre a vida destes dois irmãos médicos e, segundo a tradição, gêmeos. Seus restos mortais foram levados para Roma, durante o pontificado de João Félix, e depositados na igreja que tem seus nomes.
Seu culto divulgou-se intensamente pela Europa, principalmente na Itália, Flandres, França, Espanha e Portugal, onde várias igrejas foram construídas sob seu patronato.
Considerados protetores dos cirugiões, eram padroeiros de diversas confrarias, como por exemplo, a Confrérie et College de Saint Côme, fundada em Paris, em 1226, a mais famosa associação médica da Europa e que existiu até a Revolução Francesa. Nas primeiras décadas do século XIX, pagava-se na Universidade de Coimbra a quantia de 480 réis pelo registro do diploma de medicina e 100 réis pelo exame de boticário, valores devidos à Irmandade dos Santos Cosme e Damião.
Estão ligados aos cultos dos deuses da reprodução, fecundação, germinação e moléstias sexuais. No Brasil, estão mais dedicados à defender da fome, das doenças do sexo e dos partos de gêmeos. No sincretismo religioso, os jeje-nagôs os identificaram como os orixás gêmeos sudaneses Ibeiji, que são a divinização do parto duplo. No seu dia oblacional, recebem festas também no candomblé, com ofertas de alimentos e reunião de amigos para danças, comidas e bebidas. Em grego são chamados de anargiros, o que significa sem dinheiro, por nunca receberem dinheiro em troca de seus serviços. Curavam não somente pessoas, mas também animais.
Conta a tradição popular que um dia, São Damião aceitou uma pequena oferta de uma mulher chamada Paládia, a quem havia curado de uma doença. São Cosme recriminou-lhe o gesto, dizendo que não queria ser enterrado junto a ele. Quando os cristãos recolheram seus restos mortais para sepultá-los, um camelo começou a bradar com voz humana, dizendo que enterrassem os dois irmãos juntos, uma vez que Damião recebera a oferta apenas para não humilhar a pobre mulher.
Prece do serviço aos necessitados
"Deus, nosso Pai, São Cosme e São Damião passaram no mundo fazendo o bem, curando as doenças e aliviando o sofrimento de sua gente, dando confiança e esperança aos corações atribulados. Fizeram de seu ofício de médico um serviço ao próximo. Fazei, Senhor, que também nós, inspirados no exemplo de vida de São Cosme e São Damião, sirvamos os nossos semelhantes de modo desinteressado, buscando sempre o seu bem e a sua felicidade. Fazei que lutemos corajosamente pela humanização de uma medicina que coloque o homem - mente e coração, corpo e espírito - no centro de suas preocupações. Que os médicos coloquem em primeiro lugar a vida, o bem de seus pacientes, e não o lucro, a exploração do comércio da morte, visando apenas o dinheiro. Que, a exemplo de Cristo, que veio para servir e não para ser servido, colaborem para que se efetue o direito do povo de ter saúde e viver plenamente."
Nota: orem com bastante fé, porque atualmente está difícil nossos médicos e os planos de saúde (aqueles que os têm) terem algum resquício de respeito ou compaixão aos necessitados...
Fonte: Jangada Brasil.
Seu culto divulgou-se intensamente pela Europa, principalmente na Itália, Flandres, França, Espanha e Portugal, onde várias igrejas foram construídas sob seu patronato.
Considerados protetores dos cirugiões, eram padroeiros de diversas confrarias, como por exemplo, a Confrérie et College de Saint Côme, fundada em Paris, em 1226, a mais famosa associação médica da Europa e que existiu até a Revolução Francesa. Nas primeiras décadas do século XIX, pagava-se na Universidade de Coimbra a quantia de 480 réis pelo registro do diploma de medicina e 100 réis pelo exame de boticário, valores devidos à Irmandade dos Santos Cosme e Damião.
Estão ligados aos cultos dos deuses da reprodução, fecundação, germinação e moléstias sexuais. No Brasil, estão mais dedicados à defender da fome, das doenças do sexo e dos partos de gêmeos. No sincretismo religioso, os jeje-nagôs os identificaram como os orixás gêmeos sudaneses Ibeiji, que são a divinização do parto duplo. No seu dia oblacional, recebem festas também no candomblé, com ofertas de alimentos e reunião de amigos para danças, comidas e bebidas. Em grego são chamados de anargiros, o que significa sem dinheiro, por nunca receberem dinheiro em troca de seus serviços. Curavam não somente pessoas, mas também animais.
Conta a tradição popular que um dia, São Damião aceitou uma pequena oferta de uma mulher chamada Paládia, a quem havia curado de uma doença. São Cosme recriminou-lhe o gesto, dizendo que não queria ser enterrado junto a ele. Quando os cristãos recolheram seus restos mortais para sepultá-los, um camelo começou a bradar com voz humana, dizendo que enterrassem os dois irmãos juntos, uma vez que Damião recebera a oferta apenas para não humilhar a pobre mulher.
Prece do serviço aos necessitados
"Deus, nosso Pai, São Cosme e São Damião passaram no mundo fazendo o bem, curando as doenças e aliviando o sofrimento de sua gente, dando confiança e esperança aos corações atribulados. Fizeram de seu ofício de médico um serviço ao próximo. Fazei, Senhor, que também nós, inspirados no exemplo de vida de São Cosme e São Damião, sirvamos os nossos semelhantes de modo desinteressado, buscando sempre o seu bem e a sua felicidade. Fazei que lutemos corajosamente pela humanização de uma medicina que coloque o homem - mente e coração, corpo e espírito - no centro de suas preocupações. Que os médicos coloquem em primeiro lugar a vida, o bem de seus pacientes, e não o lucro, a exploração do comércio da morte, visando apenas o dinheiro. Que, a exemplo de Cristo, que veio para servir e não para ser servido, colaborem para que se efetue o direito do povo de ter saúde e viver plenamente."
Nota: orem com bastante fé, porque atualmente está difícil nossos médicos e os planos de saúde (aqueles que os têm) terem algum resquício de respeito ou compaixão aos necessitados...
Fonte: Jangada Brasil.
Mulher nos pára-choques de caminhão
• Casa onde mulher manda até galo bota ovo
• Mulher é como abelha, ou dá mel ou ferroada
• Frete e mulher se pega com as duas mãos
• Mulher feia e cheque sem fundo, protesto
• Mulher é como índio, se pinta quando quer briga
• Mulher é que nem laranja, a gente descasca e chupa
• Mulher por mais leve que seja é a carga mais pesada
• Mulher e cachaça em todo lugar se acha
• Mulher é como remédio, agita-se antes de usar
• Casei-me com Maria, mas viajo com Mercedes
• Todo broto dá galho
• Em casa que mulher manda, até o galo canta fino
• Se a coroa for boa, o pinhão agüenta
• No dia em que chover mulher, quero uma goteira na minha cama
• Se me ver abraçado com mulher feia, pode apartar que é briga
• Não ame a mulher do próximo quando o próximo está próximo
• Deus salve as mulheres bonitas e as feias quando tiver tempo
• Mulher é como relógio: deu o primeiro defeito nunca mais anda direito
• Mulher deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem vergonha
• Se mulher fosse árvore eu queria ser um pica-pau
• Alegria de motorista é ver mulher na pista
• Estrada reta e mulher sem curva só dá sono
• Mulher feia e jumento só o dono procura
• Mulher e cegonha deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem-vergonha
• Mulher feia e caju só vai com pitu
• Melhor do que uma mulher só duas
• Vitamina de motorista é carinho de mulher
• Vivo todo arranhado mas não largo minha gata
• Riqueza de homem pobre é carinho de mulher sincera
• A única mulher que andou na linha o trem matou
• Artigo nacional o melhor é mulher
• Mulher feia só carrega meu dinheiro se roubar
• Mulher é como parafuso: precisa sempre de um aperto
• Mulher sem ciúmes é flor sem perfume
• Se o diabo entendesse de mulher não tinha rabo nem chifres
• Quem gosta de mulher feia é salão de beleza
• Mulher feia e frete barato eu não carrego
• Dou tudo que minha mulher pede e não é mole
• Se mulher fosse dinheiro havia muita nota falsa
• É muito mais fácil fazer uma menina do que consertar uma mulher
• É mais fácil galinha ter dente do que mulher ser sincera
• Mulher e caminhão é aquela confusão
• Mulher é como alção de caixão: um larga e outro põe a mão
• Coração de mulher é igual a lotação; sempre cabe mais um
• A mulher nasce sorrindo, vive fingindo e morre mentindo
• Cachaça, mulher e bolacha em toda parte se acha
• O perfume preferido pelas mulheres é a gasolina azul
• Bilhete de loteria e mulher não adianta escolher
• Mulher é como parafuso, que tem cabeça mas não pensa
• Pode a água virar pó, mas não há mulher que se contente com um homem só
• Mulher bonita não foi feita para um homem só
• A mulher é como bife, quanto mais apanha mais macia fica
• Se tens segredos, não contes às mulheres
• Confiei em mulher, veja meu fim
• É só as gulosas que se me chama de pão-duro
• Mulher bonita na beira da estrada é como música de carnaval, fácil de ser cantada
• Dinheiro e mulher bonita é quem governa o mundo
• Mulher é como gravata que só se ama uma de cada vez
• Mulher e caminhão só o dono bota a mão
• Mulher feia e morcego só saem à noite
• Beijo de mulher casada tem gosto de chumbo
• Mulher é como lona de freio, só é boa encostada
• Mulher é árvore: só dá galho
• Mulher é como toalha, quanto mais enxuta melhor
• Mulher é como lata de sardinha, se abrir leva
• Você prefere duas mulheres ou uma mulher e ¼?
• Mulher bonita e dinheiro só vejo na mão dos outros
• A mulher é capaz de tudo, e o homem do resto
• Duas coisas gostosas: uma embreagem macia e uma mulher carinhosa
• A moça casa com o pão pensando no salame
• No mundo tenho três paixões: festa de carreteiro, mulher e um caminhão
• Mulher é como horóscopo. Não dá certo mas sempre se dá uma olhadinha
• Mulher da estrada e freio de mão só na emergência
• Marido de mulher feia só acorda assustado
• Tentei enganar o diabo, ele nem percebeu; fui enganar mulher, o enganado fui eu
• Estepe e mulher é sempre bom ter de reserva
• Farol alto na cara é como mulher gritando no ouvido
• Mulher é como chiclete, quanto mais mexe mais dá bola
• Agora, que sou rico, não corro atrás das mulheres, corro na frente
• Mulher chora na saída e caminhão velho na subida
• A mulher solta o rabo e o marido leva chifre
• Se Deus fez coisa melhor do que a mulher ficou pra ele
• Mulher é igual esquina, dobro todas
• Cada estrada tem seu barranco e cada mulher seu encanto
• Mulher feia vale por duas porque o marido sempre tem outra
• Estrada é como mulher, quanto melhor mais perigosa
• Não sou ladrão nem bandido, mas por mulher sou perdido
• Caminhão sem freio é como mulher desquitada
• Mulher é como música que só faz sucesso quando é nova
• Mulher e parafuso só gostam do arrocho
• Mulher é como dinheiro, um larga e outro pega
• Velho que casa com mulher nova compra jornal para os outros lerem
• Mulher é como café, se esfriar perde o gosto
• Mulher é como fotografia que só se revela no escuro
• O capital da mulher está na beleza, e a beleza do homem está no capital
• Mulher é como pipoca, dá seus pulinhos e cai na boca do povo
• Coroa de mini saia é vitrina de varizes
• Mulher é como caju que se aproveita até o caroço
• Derrapagem só em curva de mulher
• Para mulher eu paro, pra homem eu disparo
• Carona só de saia justa
• Só vejo as tuas curvas, morena
• Entre a loura e a morena eu prefiro as duas
• Ferradura de mulher se não se engraxar emperra
• Gostar de mulher é herança de meu pai
• Amar mulher casada é fazer contrato com a morte
• Conquistar uma mulher é fácil, o difícil é livrar-se dela
• Cerveja só gelada e mulher só quente
• Brahma só gelada e mulher só natural
Fonte: Jangada Brasil - (Reunidas por MAIOR, Mário Souto. Folclore quase sempre.)
• Mulher é como abelha, ou dá mel ou ferroada
• Frete e mulher se pega com as duas mãos
• Mulher feia e cheque sem fundo, protesto
• Mulher é como índio, se pinta quando quer briga
• Mulher é que nem laranja, a gente descasca e chupa
• Mulher por mais leve que seja é a carga mais pesada
• Mulher e cachaça em todo lugar se acha
• Mulher é como remédio, agita-se antes de usar
• Casei-me com Maria, mas viajo com Mercedes
• Todo broto dá galho
• Em casa que mulher manda, até o galo canta fino
• Se a coroa for boa, o pinhão agüenta
• No dia em que chover mulher, quero uma goteira na minha cama
• Se me ver abraçado com mulher feia, pode apartar que é briga
• Não ame a mulher do próximo quando o próximo está próximo
• Deus salve as mulheres bonitas e as feias quando tiver tempo
• Mulher é como relógio: deu o primeiro defeito nunca mais anda direito
• Mulher deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem vergonha
• Se mulher fosse árvore eu queria ser um pica-pau
• Alegria de motorista é ver mulher na pista
• Estrada reta e mulher sem curva só dá sono
• Mulher feia e jumento só o dono procura
• Mulher e cegonha deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem-vergonha
• Mulher feia e caju só vai com pitu
• Melhor do que uma mulher só duas
• Vitamina de motorista é carinho de mulher
• Vivo todo arranhado mas não largo minha gata
• Riqueza de homem pobre é carinho de mulher sincera
• A única mulher que andou na linha o trem matou
• Artigo nacional o melhor é mulher
• Mulher feia só carrega meu dinheiro se roubar
• Mulher é como parafuso: precisa sempre de um aperto
• Mulher sem ciúmes é flor sem perfume
• Se o diabo entendesse de mulher não tinha rabo nem chifres
• Quem gosta de mulher feia é salão de beleza
• Mulher feia e frete barato eu não carrego
• Dou tudo que minha mulher pede e não é mole
• Se mulher fosse dinheiro havia muita nota falsa
• É muito mais fácil fazer uma menina do que consertar uma mulher
• É mais fácil galinha ter dente do que mulher ser sincera
• Mulher e caminhão é aquela confusão
• Mulher é como alção de caixão: um larga e outro põe a mão
• Coração de mulher é igual a lotação; sempre cabe mais um
• A mulher nasce sorrindo, vive fingindo e morre mentindo
• Cachaça, mulher e bolacha em toda parte se acha
• O perfume preferido pelas mulheres é a gasolina azul
• Bilhete de loteria e mulher não adianta escolher
• Mulher é como parafuso, que tem cabeça mas não pensa
• Pode a água virar pó, mas não há mulher que se contente com um homem só
• Mulher bonita não foi feita para um homem só
• A mulher é como bife, quanto mais apanha mais macia fica
• Se tens segredos, não contes às mulheres
• Confiei em mulher, veja meu fim
• É só as gulosas que se me chama de pão-duro
• Mulher bonita na beira da estrada é como música de carnaval, fácil de ser cantada
• Dinheiro e mulher bonita é quem governa o mundo
• Mulher é como gravata que só se ama uma de cada vez
• Mulher e caminhão só o dono bota a mão
• Mulher feia e morcego só saem à noite
• Beijo de mulher casada tem gosto de chumbo
• Mulher é como lona de freio, só é boa encostada
• Mulher é árvore: só dá galho
• Mulher é como toalha, quanto mais enxuta melhor
• Mulher é como lata de sardinha, se abrir leva
• Você prefere duas mulheres ou uma mulher e ¼?
• Mulher bonita e dinheiro só vejo na mão dos outros
• A mulher é capaz de tudo, e o homem do resto
• Duas coisas gostosas: uma embreagem macia e uma mulher carinhosa
• A moça casa com o pão pensando no salame
• No mundo tenho três paixões: festa de carreteiro, mulher e um caminhão
• Mulher é como horóscopo. Não dá certo mas sempre se dá uma olhadinha
• Mulher da estrada e freio de mão só na emergência
• Marido de mulher feia só acorda assustado
• Tentei enganar o diabo, ele nem percebeu; fui enganar mulher, o enganado fui eu
• Estepe e mulher é sempre bom ter de reserva
• Farol alto na cara é como mulher gritando no ouvido
• Mulher é como chiclete, quanto mais mexe mais dá bola
• Agora, que sou rico, não corro atrás das mulheres, corro na frente
• Mulher chora na saída e caminhão velho na subida
• A mulher solta o rabo e o marido leva chifre
• Se Deus fez coisa melhor do que a mulher ficou pra ele
• Mulher é igual esquina, dobro todas
• Cada estrada tem seu barranco e cada mulher seu encanto
• Mulher feia vale por duas porque o marido sempre tem outra
• Estrada é como mulher, quanto melhor mais perigosa
• Não sou ladrão nem bandido, mas por mulher sou perdido
• Caminhão sem freio é como mulher desquitada
• Mulher é como música que só faz sucesso quando é nova
• Mulher e parafuso só gostam do arrocho
• Mulher é como dinheiro, um larga e outro pega
• Velho que casa com mulher nova compra jornal para os outros lerem
• Mulher é como café, se esfriar perde o gosto
• Mulher é como fotografia que só se revela no escuro
• O capital da mulher está na beleza, e a beleza do homem está no capital
• Mulher é como pipoca, dá seus pulinhos e cai na boca do povo
• Coroa de mini saia é vitrina de varizes
• Mulher é como caju que se aproveita até o caroço
• Derrapagem só em curva de mulher
• Para mulher eu paro, pra homem eu disparo
• Carona só de saia justa
• Só vejo as tuas curvas, morena
• Entre a loura e a morena eu prefiro as duas
• Ferradura de mulher se não se engraxar emperra
• Gostar de mulher é herança de meu pai
• Amar mulher casada é fazer contrato com a morte
• Conquistar uma mulher é fácil, o difícil é livrar-se dela
• Cerveja só gelada e mulher só quente
• Brahma só gelada e mulher só natural
Fonte: Jangada Brasil - (Reunidas por MAIOR, Mário Souto. Folclore quase sempre.)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A caveira
Onze horas da noite.
Não há luar e a velha cidade de Bartolomeu Bueno é na época iluminada a lampeões de querosene, colocados sobre postes de madeira lavrada, distantes quarenta, cinquenta metros uns dos outros.
Na última casa da rua da Abadia jogam o trinta-e-um, na sala de frente, em torno de mesa redonda, alumiada por castiçais com velas de sebo.
Circundam a mesa o Brito Queirós, o Seixas, o Emílio Bandeira, Pinheiro de Paiva, José Soares e o Seis-e-Meia, apelido por que era conhecido o Antônio da Luz.
Àquela hora uma partida de sensação prende os olhares dos jogadores às mãos do "pé’, o Seixas, que distribui as cartas.
Há um empate carregado e estão sobre a mesa quatrocentos e tantos mil réis. Jogam.
Uns pedem cartas, empalidecem e "passam"; outros pedem-nas também, "filam-nas" e "ficam". Seixas, o último a pedi-las, conta os pontos e "chama" o pessoal. Trinta pontos! Os outros ficaram de 27, 28 e 29; ganha o Seixas.
— Arre! diabo! — exclama, — saí de um buraco com um saldo de duzentos e cinquenta mil réis. Dou metade àquele que tiver a coragem de ir agora ao Cemitério e me trazer uma caveira.
— "Pronto" grita o Bandeira, "bata o cobre que a caveira vem já".
— "Dou-te mais cinquenta", diz Seis-e-Meia.
— "E mais cinquenta meus", acode Pinheiro de Paiva.
— "Pois é já’. "Não saiam daqui que não demoro quinze minutos", retruca o Bandeira, erguendo-se da mesa. Tomou o chapéu e partiu. Mas antes de êle sair, rumou para o lado do Cemitério o Zé Mamão que, do lado de fora, encostado à janela, ouvira toda a conversação.
* * *
Meia-noite. Emílio Bandeira levanta o aldravãe da porta do cemitério de São Miguel e caminha para o monte de caveiras que está ao pé do cruzeiro grande da Metrópole dos mortos de Goiás; agarra uma e, quando se dispõe a partir, rouquenha voz, que parece vir de vetusto mausoléu, diz: "Larga, essa é minha!"
Bandeira sente que se lhe eriçam os cabelos ao ponto de derribar o chapéu; um frio que nunca havia experimentado se avoluma em sua coluna vertebral. Para um momento, indeciso, deixa a caveira no monte e agarra outra. "Larga, essa é minha!" diz outra voz fanhosamente.
Bandeira já não está em si, lança mão de outra… "Larga, essa é minha…"
Transido de medo, ainda raciocina: "se eu for procurar caveira sem dono, estou arranjado; até as mais antigas devem ter os seus proprietários; portanto, o que tenho a fazer é isto — pega na que está mais à mão e dispara…
E a voz fanhosa também dispara a repetir: Larga, essa é minha! Larga essa é minha!…
O nosso herói passa o portão da necrópole e vem pela estrada a baixo como uma bala.
"Larga, essa é minha; larga, essa é minha!…"
A jogatina continua na casa da rua da Abadia. Seixas acaba de ganhar mais uma bolada; mete no bolso o dinheiro, não sem tirar antes uma cédula de cem mil réis, que deixa" sobre a mesa.
"Esta", diz, "será do Bandeira, se entrar aqui com a caveira".
Pinheiro de Paiva e Seis-e-Meia deixam também junto ao dinheiro a quantia que prometeram dar.
Brito Queirós dá cartas, e outra jogada vai começar.
Nisto a porta da sala se abre com estalo.
Como um furacão, entra Emílio Bandeira, que atira sobre a mesa do jogo uma caveira e exclama: "Cá está a caveira e o dono ai vem atrás".
E mete-se para o interior da casa a derribar tudo o que lhe impede a disparada. Os outros deixam a mesa, dinheiro, baralho e tratam de acompanhá-lo casa a dentro.
Zé Mamão aparece à porta; não vê na sala nenhuma pessoa; enfia num dos bolsos a dinheirama que está sobre a mesa, acende um cigarro na vela de sebo mais próxima e sai.
E desce a rua da Abadia a assobiar a Palomita…
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Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Ed. Literat. 1962
A mirra
A mirra é um corpo seco de homem que foi amaldiçoado. A terra não come a carne e esta vai ressecando em cima dos ossos.
Um rapaz muito vivo e engraçado entrou num cemitério com seus companheiros e ao sair viu uma mirra. Lembrou-se de dizer, por chiste:
— Está magra de fome. Venha dai cear comigo!
— Irei — disse a mirra, com uma voz fanhosa, toda passando pelo nariz. O rapaz ficou assombrado e foi dali lançar-se aos pés do vigário a quem tudo contou.
— Tens que cumprir o convite. Depois da ceia te convidará e aceitarás sem sinal de medo. Volta cá que te darei outro conselho.
O rapaz preparou a ceia e a mirra foi-lhe bater à porta à meia noite, sentando-se á mesa e comendo até não mais poder. Depois falou para o dono da casa:
— O bem que me recebeste em tua casa, devo retribuir de qualquer modo. Amanhã esperar-te-ei onde me convidaste.
E se foi embora. O rapaz não dormiu e pela manhã estava na casa do vigário que lhe deu um rosário indulgenciado, com o perdão da hora-da–morte e emprestou-lhe a capa com que saía.
O rapaz foi para o cemitério e encontrou a mirra.
— Está bem. Deixa a capa aqui e o rosário de que não tens necessidade lá dentro.
— Não, que está frio e do rosário não me separo!
A mirra teimou e o rapaz não cedeu. Estiveram debatendo esse ponto, quando a mirra declarou:
— Assim não te posso levar para cear comigo Não posso ficar junto da capa dos ministros de Deus e das armas de Nossa Senhora. Vai-te, e não tornes a brincar com os que não vivem…
O rapaz pôs-se fora o mais depressa que pode e nunca mais disse graças com os mortos.
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Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Organização: Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.
A dama pé-de-cabra
Certo dia, D. Diogo Lopez saiu para uma caçada e a meio do seu caminho, depara-se com uma mulher muito formosa, que cantava lindamente.
- Quem sois vós, senhora? Quem sois vós que logo me cativastes? - pergunta D. Diogo Lopez.
Ela sorriu e respondeu:
- Sou uma dama tão nobre como tu.
D. Diogo Lopez, rapidamente se apaixonou perdidamente por ela e disse-lhe:
- Senhora, se casares comigo ofereço-te as minhas terras e os meus castelos.
- Guarda as tuas terras, que precisas delas para cavalgar! - respondeu ela.
- Que posso oferecer-te então para que sejas minha?
Ela não disse nenhuma palavra. De repente, estremeceu:
- A única coisa que me interessa não ma podes dar porque foi um legado da tua mãe.
- E se eu te amar mais do que à minha própria mãe?
Esta lhe disse:
- Nesse caso tens de jurar que não tornas a fazer o sinal da cruz que ela te ensinou em pequeno.
Este estranhou o pedido, mas estava tão apaixonado por ela, que exclamou:
- Seja como queres!
Dito isto D. Diogo levou-a para o castelo. Durante longos anos tudo correu bem, embora D. Diogo tenha reparado que a mulher tinha pés de cabra.
Tiveram dois filhos, D. Inigo e D.ª Sol.
Certa noite ao jantar, devido à morte de um dos cães de caça de D. Diogo provocada pela cadela da sua esposa, D. Diogo esqueceu-se do juramento e benzeu-se...
Foi o suficiente, para a sua esposa se desmanchar em urros pavorosos, ficando a sua pele negra. A mulher parecia um animal horrendo, de boca torta e olhos revirados, erguia-se no ar levando debaixo do seu braço a sua filha D.ª Sol.
D. Diogo estava aterrorizado...
- A minha mulher é o diabo! - exclamou.
Dizendo isto, a mulher soltou o último grunhido e desapareceu por uma brecha junto ao teto.
Desde esse dia nunca mais ninguém no castelo, tornou a pôr a vista em cima da mãe, da filha e da cadela. Desapareceram por artes mágicas.
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Lenda de Portugal
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Bruxas em Santa Catarina
Quando de um casal nascem sete filhas, sem nenhum menino de permeio, a primeira ou a última será, fatalmente, uma bruxa. Para que isso não venha a acontecer faz-se mister que a mana mais velha seja a madrinha de batismo da mais moça. São apontadas como tal certas mulheres magras, feias, antipáticas.
Dizem que têm pacto com o demônio, lançam maus olhados, acarretam enfermidades com os seus bruxedos, etc. Costumam transformar-se em mariposas e penetrar nas casas pelo buraco das fechaduras.
Têm por hábito chupar o sangue das crianças ou mesmo de pessoas adultas, fazendo-as adormecer profundamente. A marca do chupão deixado na pele, chamado o vulgo de "melancolia". Para que as crianças não batizadas não sejam atacadas pela bruxas, deve-se à noite conservar a luz acesa no quarto. Sabe-se que uma mulher é bruxa, quando dá a apertar a mão canhota esquerda.
Para se descobrir a bruxa que chupa o sangue da criança e ela logo apareça, soca-se, em um pilão a camisa da criança ou da pessoa por ela chupada. Ela logo se apresenta e pede para que não façam aquilo.
Existe também uma oração contra elas; quem a possui consegue descobri-la e prendê-la e também não adormece quando ela à noite penetra em casa. A pessoa assim premunida toma, para prendê-la, de um tacho ou uma medida de alqueire e logo que a bruxa entra em casa, emborca o tacho ou a medida e ela fica incapaz de sair.
Há ainda outro processo de identificar uma bruxa: vira-se a lingueta da fechadura de uma canastra. A bruxa, ao entrar em casa, a primeira coisa que faz é pedir para endireitar a lingueta.
___________________________________________________________________________
Fonte: BOITEUX, Lucas A. "Achegas à poranduba catarinense". Em Boletim trimestral da sub-comissão catarinense de folclore
Dizem que têm pacto com o demônio, lançam maus olhados, acarretam enfermidades com os seus bruxedos, etc. Costumam transformar-se em mariposas e penetrar nas casas pelo buraco das fechaduras.
Têm por hábito chupar o sangue das crianças ou mesmo de pessoas adultas, fazendo-as adormecer profundamente. A marca do chupão deixado na pele, chamado o vulgo de "melancolia". Para que as crianças não batizadas não sejam atacadas pela bruxas, deve-se à noite conservar a luz acesa no quarto. Sabe-se que uma mulher é bruxa, quando dá a apertar a mão canhota esquerda.
Para se descobrir a bruxa que chupa o sangue da criança e ela logo apareça, soca-se, em um pilão a camisa da criança ou da pessoa por ela chupada. Ela logo se apresenta e pede para que não façam aquilo.
Existe também uma oração contra elas; quem a possui consegue descobri-la e prendê-la e também não adormece quando ela à noite penetra em casa. A pessoa assim premunida toma, para prendê-la, de um tacho ou uma medida de alqueire e logo que a bruxa entra em casa, emborca o tacho ou a medida e ela fica incapaz de sair.
Há ainda outro processo de identificar uma bruxa: vira-se a lingueta da fechadura de uma canastra. A bruxa, ao entrar em casa, a primeira coisa que faz é pedir para endireitar a lingueta.
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Fonte: BOITEUX, Lucas A. "Achegas à poranduba catarinense". Em Boletim trimestral da sub-comissão catarinense de folclore
O diabo e seus parentes
Sabendo-se (como se sabe) que o diabo não é um só, mas legiões (precisamente — segundo cálculo de antigos e conspícuos demonólogos: 1.758.064.176 capetas...) é natural que se julgue haver, entre tantos demônio, certas relações de parentesco, mais ou menos estreitas.
Tomando porém, o diabo ou um diabo só — também será natural supor tenha até pai e mãe, e — se casado — mulher e filhos. Pelo menos, o povo simples assim o entende, referindo até, em contos, provérbios e expressões usuais, esse parentesco danado.
Num livro interessante, escrito por autor argentino que esteve na Bélgica e lhe vasculhou o folcore, El diablo em Bélgica, de Roberto J. Payrú (Buenos Aires, 1953, p.18) — se divulga uma velha crendice daquele país, segundo a qual "cuando llueve y hace sol, al propio tiempo, para nosotros [os argentinos] 'se casa una vioja', mientras que en Bélgica, 'el diablo azota, a su mujer (o a su madre) y casa a su hija'. En el dicho valón:
S é l'oyal ki bat'si mor
é ki maréy si fèy"
O que significa, em vernáculo: É o diabo que bate na mãe e casa a filha.
Já aí temos, portanto, alguns parentes do diabo: a mãe, a mulher e a filha.
Conheço um provérbio português em que se encaixa também o diabo e sua mãe dele. Vejo-o transcrito num dos livros de Camilo, A corja (Lelo, Lisboa, 1943, p.81), no seguinte passo: "— Pois você que cuidava do barão? Quando eu lhe disser que a burra é preta, olhe-me para o cabelo. Eu não lhe dizia que entre o Macário e a Felícia, que viesse o diabo a escolhesse? Isto tudo é uma corja. Tão bom é o diabo como sua mãe..."
Cá no Brasil, também corre outro adágio alusivo à mãe do diabo. Deparo-o no livro de Guimarães Rosa, Corpo de baile (José Olympio, Rio de Janeiro, 1956, v.1, p.184), referindo-se a um lugar perigoso ou nos cafundós do juda: "O lugar era da mãe do demo".
Dessa mãe do diabo — o povo (que sabe coisas do arco da velha) conhece até o nome!
Ora veja o leitor incrédulo este pequeno conto popular português, que retiro da Revista Lusitana (v.22, Lisboa, 1919, p.125), do estudo que faz José Diogo Ribeiro, acerca do folclore da vila de Turquel (Portugal): "Por divertimento o diabo, uma vez, despediu uma frecha contra sua mãe, e indo-lhe logo no encalço, apanhou-a no ar. Mais tarde inventou ele as armas de fogo; e um dia, pegando, numa dessas armas, apontou à mãe, disparou, e correu no propósito de deter a bala. Mas esta, mais veloz, introduzira-se já no alvo, e era uma vez a 'Faísca-Velha'..."
Em nota a esta Faísca-Velha, diz o autor do estudo: "Segundo o povo, é esse o nome da mãe do Diabo, a qual figurava em tempo — dizem — num retábulo da igreja de Alcobaça".
Sabe-se na Bretanha, que a mãe do diabo era mulher duma força extraodinária, tendo construído, numa só noite, uma grande ponte de pedra sobre um rio. A pedreira, de onde ela tirou os blocos para a construção, ainda se denomina: as pedras da mãe do diabo". (Cfr. Le folklore de la Bretagne, de Paul-Yves Sébillot, Paris, 1950, p.137).
Nesse mesmo livro informativo, temos ciência da existência de mais um parente do diabo — sua avó, mulher tão forçuda como a filha (a Faísca-Velha), segundo a tradição da Bretanha, "elle déposa, dans la forêt de Quéneéan, d'enormes rechers apportés aussi dans son tablier" (id. ib.)
Vimos, acima, que o diabo tem mulher e filha. Naturalmente, presume-se deveria ter também sogra. De fato, teve ele uma sogra tão... sogra que não teve dúvida em passá-la de graça ao primeiro que se apresentou ou se ofereceu para comprá-la.
Vamos ao caso.
Na Espanha corre um provérbio, calcado (segundo se presume) numa pequena história. Quando alguém quer, com empenho, descartar-se de alguma coisa que o aborrece ou lhe é molesta, diz, usando expressão proverbial: "Cuanto por la mula queres? — Vuestra es".
Como se vê, antes mesmo que o interpelante ofereça qualquer dinheiro pela compra da mula, já o vendedor diz, num ímpeto, doido para desfazer-se dela: — Vuestra es.
Agora, o conto popular — referido pelo folclorista Francisco Rodrigues Marins, em seu livro 12.600 Refranes más (Madri, 1930, p.70): "Así cuentam vendió el diablo su suegra: enchándola a las barbas al primero que le preguntó cuánto queria por ella".
Avó, mãe, mulher, filha e sogra do diabo — são estes os parentes a que no refere o povo, além daquele rapaz que se casou com a filha dele — genro infeliz cujo nome a tradição não registrou.
Cinco mulheres e um homem — parentes do diabo.
Se o leitor conhece mais algum, diga...
________________________________________________________________________
Fonte: Neves, Guilherme Santos. "O diabo e seus parentes". A Gazeta. Vitória, 09 de março de 1958.
Tomando porém, o diabo ou um diabo só — também será natural supor tenha até pai e mãe, e — se casado — mulher e filhos. Pelo menos, o povo simples assim o entende, referindo até, em contos, provérbios e expressões usuais, esse parentesco danado.
Num livro interessante, escrito por autor argentino que esteve na Bélgica e lhe vasculhou o folcore, El diablo em Bélgica, de Roberto J. Payrú (Buenos Aires, 1953, p.18) — se divulga uma velha crendice daquele país, segundo a qual "cuando llueve y hace sol, al propio tiempo, para nosotros [os argentinos] 'se casa una vioja', mientras que en Bélgica, 'el diablo azota, a su mujer (o a su madre) y casa a su hija'. En el dicho valón:
S é l'oyal ki bat'si mor
é ki maréy si fèy"
O que significa, em vernáculo: É o diabo que bate na mãe e casa a filha.
Já aí temos, portanto, alguns parentes do diabo: a mãe, a mulher e a filha.
Conheço um provérbio português em que se encaixa também o diabo e sua mãe dele. Vejo-o transcrito num dos livros de Camilo, A corja (Lelo, Lisboa, 1943, p.81), no seguinte passo: "— Pois você que cuidava do barão? Quando eu lhe disser que a burra é preta, olhe-me para o cabelo. Eu não lhe dizia que entre o Macário e a Felícia, que viesse o diabo a escolhesse? Isto tudo é uma corja. Tão bom é o diabo como sua mãe..."
Cá no Brasil, também corre outro adágio alusivo à mãe do diabo. Deparo-o no livro de Guimarães Rosa, Corpo de baile (José Olympio, Rio de Janeiro, 1956, v.1, p.184), referindo-se a um lugar perigoso ou nos cafundós do juda: "O lugar era da mãe do demo".
Dessa mãe do diabo — o povo (que sabe coisas do arco da velha) conhece até o nome!
Ora veja o leitor incrédulo este pequeno conto popular português, que retiro da Revista Lusitana (v.22, Lisboa, 1919, p.125), do estudo que faz José Diogo Ribeiro, acerca do folclore da vila de Turquel (Portugal): "Por divertimento o diabo, uma vez, despediu uma frecha contra sua mãe, e indo-lhe logo no encalço, apanhou-a no ar. Mais tarde inventou ele as armas de fogo; e um dia, pegando, numa dessas armas, apontou à mãe, disparou, e correu no propósito de deter a bala. Mas esta, mais veloz, introduzira-se já no alvo, e era uma vez a 'Faísca-Velha'..."
Em nota a esta Faísca-Velha, diz o autor do estudo: "Segundo o povo, é esse o nome da mãe do Diabo, a qual figurava em tempo — dizem — num retábulo da igreja de Alcobaça".
Sabe-se na Bretanha, que a mãe do diabo era mulher duma força extraodinária, tendo construído, numa só noite, uma grande ponte de pedra sobre um rio. A pedreira, de onde ela tirou os blocos para a construção, ainda se denomina: as pedras da mãe do diabo". (Cfr. Le folklore de la Bretagne, de Paul-Yves Sébillot, Paris, 1950, p.137).
Nesse mesmo livro informativo, temos ciência da existência de mais um parente do diabo — sua avó, mulher tão forçuda como a filha (a Faísca-Velha), segundo a tradição da Bretanha, "elle déposa, dans la forêt de Quéneéan, d'enormes rechers apportés aussi dans son tablier" (id. ib.)
Vimos, acima, que o diabo tem mulher e filha. Naturalmente, presume-se deveria ter também sogra. De fato, teve ele uma sogra tão... sogra que não teve dúvida em passá-la de graça ao primeiro que se apresentou ou se ofereceu para comprá-la.
Vamos ao caso.
Na Espanha corre um provérbio, calcado (segundo se presume) numa pequena história. Quando alguém quer, com empenho, descartar-se de alguma coisa que o aborrece ou lhe é molesta, diz, usando expressão proverbial: "Cuanto por la mula queres? — Vuestra es".
Como se vê, antes mesmo que o interpelante ofereça qualquer dinheiro pela compra da mula, já o vendedor diz, num ímpeto, doido para desfazer-se dela: — Vuestra es.
Agora, o conto popular — referido pelo folclorista Francisco Rodrigues Marins, em seu livro 12.600 Refranes más (Madri, 1930, p.70): "Así cuentam vendió el diablo su suegra: enchándola a las barbas al primero que le preguntó cuánto queria por ella".
Avó, mãe, mulher, filha e sogra do diabo — são estes os parentes a que no refere o povo, além daquele rapaz que se casou com a filha dele — genro infeliz cujo nome a tradição não registrou.
Cinco mulheres e um homem — parentes do diabo.
Se o leitor conhece mais algum, diga...
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Fonte: Neves, Guilherme Santos. "O diabo e seus parentes". A Gazeta. Vitória, 09 de março de 1958.
Armadilhas contra bruxas
1. O pai toma a primeira camisa usada pela criança, criva-a de agulhas, coloca-a dentro de um pilão de chumbar café e, com a mão de pilão, soca-a até que as agulhas penetrem na madeira do pilão — ou seja, no corpo da bruxa, que, não podendo resistir à dor, vai procurar a família, para confessar-se culpada, e perde o encanto.
2. Põe-se uma ceroula do pai, disposta em cruz, sobre a criança. Reza-se o creio-em-deus-padre de trás para diante. Sobre a mesa, ou numa cadeira, coloca-se um pires com água benta, conseguida na igreja, ou comum, apanhada na fonte numa sexta-feira antes do nascer do sol; dentro do pires, um bocado de cera virgem e a chave da porta principal. Os pais devem ficar acordados e atentos,no escuro. Quando a criança chorar (sinal de que a bruxa está a chupar-lhe o sangue), os pais devem, com a cera virgem, tapar o buraco da fechadura. Basta aguardar então o desencanto da bruxa, que se dará exatamente quandoo galo preto cantar.
3. Dentro de um baú de folha-de-flandres acende-se uma vela benta; reza-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante, sobre a chama da vela e abaixa-se a tampa do baú de tal modo que o ar possa nele penetrar, mantendo viva a chama. Coma casa às escuras, todas as chaves devem ser retiradas das portas e colocadas em cima do baú. Quando a criança chorar, os pais apanham as chaves de cima do baú, introduzem-nas nos buracos das fechaduras e acendem as luzes. Presa, a bruxa, coagida pela oração e pela vela benta, tenta fechar o baú. E, ao sentar-se em cima dele, perde o encanto.
4. Uma variante da anterior. Num meio alqueire de medir farinha, junto à cama da criança, acende-se uma vela benta, sobre a qual se reza o creio-em-deus-padre de trás para diante. A casa deve ficar às escuras, com todas as chaves sobre o meio alqueire. Quando a criança chorar, os pais apanham as chaves, introduzem-nas nas fechaduras e acendem as luzes. A bruxa, sentindo-se presa, procurará sentar-se sobre o meio alqueire, com o que se desencantará.
5. Põe-se uma tesoura, aberta em cruz, numa mesa próxima ao berço da criança. As chaves das portas devem estar num pires com água benta. A casa estará às escuras. Quando a criança chorar, os pais introduzem as chaves nas fechaduras e acendem as luzes. A bruxa, que tem horror a tesouras abertas, perde o encanto.
6. Cozem-se folhas de guiné, cordão-de-frade, limoeiro e arruda, nove dentes de alho e um pouco de mostarda. Com esse cozimento dá-se um banho na criança. Todos os irmãos e todas as pessoas da família, residentes na casa, devem lavar os pés na mesma água, até chegar a vez do pai, que reza o creio-em-deus-padre, de trás para diante, sobre a vasilha. Fecha-se então a porta, deixando-se a chave em falso, quase a cair, pela parte de dentro. Põe-se a vasilha com a água do cozimento abaixo da fechadura. Para penetrar na casa a bruxa deve empurrar a chave, que cairá dentro da vasilha, fazendo com que ela se desencante. Esta armadilha deve ser preparada às sextas-feiras, à hora da ave-maria.
Se estas armadilhas, mais simples, não dão resultado, — há bruxas mais sabidas e mais experientes do que as outras, que não se deixam apanhar com facilidade, — preparam-se outras, mais fortes e mais terríveis, não apenas para desmascarar, mas também para revidar, de algum modo, os poderes maléficos das bruxas, como as duas seguintes:
7. Num prato com água, perto da cama da criança, põem-se nove dentes de alho, numa sexta-feira, à hora da ave-maria, rezando-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante. Uma faca bem afiada deve estar sob a cama do doente. Retiram-se todas as chaves das portas, para que a bruxa possa entrar. Quando a criança chorar, dá-se-lhe uma colherinha da água que está no prato e corta-se, com a faca, um pedacinho da ponta de uma fita vermelha, comprida, que surgirá descendo da cumeeira da casa, em direção à boca da criança. Guarda-se o pedaço da fita, sem nada dizer a ninguém. Uma história corrente, relativa a esta armadilha, conta que o pedacinho de fita vermelha se transformou, no bolso do pai, numa orelha humana — a orelha da bruxa, que deste modo pôde ser identificada.
8. À hora da ave-maria, numa sexta-feira, põe-se, numa mesa próxima à cama da criança, um copo de cachaça sobre uma carta (usada) de baralho; com um cigarro de palha, de fumo-de-corda forte, e uma faca afiada e pontiaguda, faz-se uma cruz sobre a mesa. Reza-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante. Quando a criança chorar, retira-se o copo de cima da carta de baralho, apanha-se a faca e com ela se golpeia ou decepa qualquer parte de um bicho que aparecerá nas bordas do copo ou em cima do cigarro ou da carta de baralho. Uma estória referente a esta armadilha conta que o pai, tendo cortado a pata de uma rã que se equilibrava na borda do copo, viu-a transformada em dedos humanos — os dedos da bruxa que chupava o sangue do seu filho.
Nestes dois últimos tipos de armadilha, no dia seguinte corre a notícia de que uma mulher da vizinhança foi acidentada. O pai, que deve manter o maior sigilo, terá de procurá-la, para que a armadilha dê o esperado resultado — a transformação mágia, em parte do corpo, das coisas que conseguiu arrancar à bruxa, quando esta cumpria seu triste destino.
Sempre que preparam uma armadilha, os pais devem estar prevenidos com um rabo-de-tatu, conservado no fumeiro da cozinha, para, quando a bruxa reassumir a forma humana, aplicar-lhe uma boa surra, até fazer sangue. Para reforçar a quebra do encanto, as feridas da bruxa devem ser lavadas em salmoura — sal, pimenta e alho ou sal, cachaça e vinagre.
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FONTE: Cascais, Franklin. "As bruxas da ilha de Santa Catarina". Revista Brasileira de Folclore, ano 3, nº 6, maio/agosto de 1963, p.125-130)
2. Põe-se uma ceroula do pai, disposta em cruz, sobre a criança. Reza-se o creio-em-deus-padre de trás para diante. Sobre a mesa, ou numa cadeira, coloca-se um pires com água benta, conseguida na igreja, ou comum, apanhada na fonte numa sexta-feira antes do nascer do sol; dentro do pires, um bocado de cera virgem e a chave da porta principal. Os pais devem ficar acordados e atentos,no escuro. Quando a criança chorar (sinal de que a bruxa está a chupar-lhe o sangue), os pais devem, com a cera virgem, tapar o buraco da fechadura. Basta aguardar então o desencanto da bruxa, que se dará exatamente quandoo galo preto cantar.
3. Dentro de um baú de folha-de-flandres acende-se uma vela benta; reza-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante, sobre a chama da vela e abaixa-se a tampa do baú de tal modo que o ar possa nele penetrar, mantendo viva a chama. Coma casa às escuras, todas as chaves devem ser retiradas das portas e colocadas em cima do baú. Quando a criança chorar, os pais apanham as chaves de cima do baú, introduzem-nas nos buracos das fechaduras e acendem as luzes. Presa, a bruxa, coagida pela oração e pela vela benta, tenta fechar o baú. E, ao sentar-se em cima dele, perde o encanto.
4. Uma variante da anterior. Num meio alqueire de medir farinha, junto à cama da criança, acende-se uma vela benta, sobre a qual se reza o creio-em-deus-padre de trás para diante. A casa deve ficar às escuras, com todas as chaves sobre o meio alqueire. Quando a criança chorar, os pais apanham as chaves, introduzem-nas nas fechaduras e acendem as luzes. A bruxa, sentindo-se presa, procurará sentar-se sobre o meio alqueire, com o que se desencantará.
5. Põe-se uma tesoura, aberta em cruz, numa mesa próxima ao berço da criança. As chaves das portas devem estar num pires com água benta. A casa estará às escuras. Quando a criança chorar, os pais introduzem as chaves nas fechaduras e acendem as luzes. A bruxa, que tem horror a tesouras abertas, perde o encanto.
6. Cozem-se folhas de guiné, cordão-de-frade, limoeiro e arruda, nove dentes de alho e um pouco de mostarda. Com esse cozimento dá-se um banho na criança. Todos os irmãos e todas as pessoas da família, residentes na casa, devem lavar os pés na mesma água, até chegar a vez do pai, que reza o creio-em-deus-padre, de trás para diante, sobre a vasilha. Fecha-se então a porta, deixando-se a chave em falso, quase a cair, pela parte de dentro. Põe-se a vasilha com a água do cozimento abaixo da fechadura. Para penetrar na casa a bruxa deve empurrar a chave, que cairá dentro da vasilha, fazendo com que ela se desencante. Esta armadilha deve ser preparada às sextas-feiras, à hora da ave-maria.
Se estas armadilhas, mais simples, não dão resultado, — há bruxas mais sabidas e mais experientes do que as outras, que não se deixam apanhar com facilidade, — preparam-se outras, mais fortes e mais terríveis, não apenas para desmascarar, mas também para revidar, de algum modo, os poderes maléficos das bruxas, como as duas seguintes:
7. Num prato com água, perto da cama da criança, põem-se nove dentes de alho, numa sexta-feira, à hora da ave-maria, rezando-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante. Uma faca bem afiada deve estar sob a cama do doente. Retiram-se todas as chaves das portas, para que a bruxa possa entrar. Quando a criança chorar, dá-se-lhe uma colherinha da água que está no prato e corta-se, com a faca, um pedacinho da ponta de uma fita vermelha, comprida, que surgirá descendo da cumeeira da casa, em direção à boca da criança. Guarda-se o pedaço da fita, sem nada dizer a ninguém. Uma história corrente, relativa a esta armadilha, conta que o pedacinho de fita vermelha se transformou, no bolso do pai, numa orelha humana — a orelha da bruxa, que deste modo pôde ser identificada.
8. À hora da ave-maria, numa sexta-feira, põe-se, numa mesa próxima à cama da criança, um copo de cachaça sobre uma carta (usada) de baralho; com um cigarro de palha, de fumo-de-corda forte, e uma faca afiada e pontiaguda, faz-se uma cruz sobre a mesa. Reza-se o creio-em-deus-padre, de trás para diante. Quando a criança chorar, retira-se o copo de cima da carta de baralho, apanha-se a faca e com ela se golpeia ou decepa qualquer parte de um bicho que aparecerá nas bordas do copo ou em cima do cigarro ou da carta de baralho. Uma estória referente a esta armadilha conta que o pai, tendo cortado a pata de uma rã que se equilibrava na borda do copo, viu-a transformada em dedos humanos — os dedos da bruxa que chupava o sangue do seu filho.
Nestes dois últimos tipos de armadilha, no dia seguinte corre a notícia de que uma mulher da vizinhança foi acidentada. O pai, que deve manter o maior sigilo, terá de procurá-la, para que a armadilha dê o esperado resultado — a transformação mágia, em parte do corpo, das coisas que conseguiu arrancar à bruxa, quando esta cumpria seu triste destino.
Sempre que preparam uma armadilha, os pais devem estar prevenidos com um rabo-de-tatu, conservado no fumeiro da cozinha, para, quando a bruxa reassumir a forma humana, aplicar-lhe uma boa surra, até fazer sangue. Para reforçar a quebra do encanto, as feridas da bruxa devem ser lavadas em salmoura — sal, pimenta e alho ou sal, cachaça e vinagre.
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FONTE: Cascais, Franklin. "As bruxas da ilha de Santa Catarina". Revista Brasileira de Folclore, ano 3, nº 6, maio/agosto de 1963, p.125-130)
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
O batizado
Entre as várias anedotas de caráter regionalista, que correm pelo sertão, ouvi, quando menino, centenas de vezes a seguinte:
Um vaqueiro foi à cidade de Quixeramobim, batizar uma filha de meses. Quando o padre lhe perguntou, junto à pia, qual o nome da menina, respondeu sem pestanejar, diante do espanto da assistência:
- Onça!
O sacerdote sacudiu a cabeça, pôs-lhe carinhosamente a mão no ombro, e disse-lhe que aquele nome era de um bicho feroz e não quadrava bem numa criança, que, quando ficasse moça, seria alvo de risotas e chalaças, por causa do seu apelido.
- Mas eu quero! insistiu o vaqueiro.
O religioso fez outras considerações, a fim de demovê-lo, e terminou perguntando:
- Já viu alguém com nome de fera?
O matuto retorquiu, embatucando-o:
- E o Santo Padre não se chama Leão? Por que minha filha não se pode chamar Onça?
Esta historieta, que parece autóctone, é simplesmente a variante de um raconto peninsular europeu. Pode-se encontrá-la em outras regiões da América e em outra língua. Eu a li no curioso livro do grande escritor peruano Ricardo Palma - Mis últimas tradiciones:
"Trataba-se de cristianar a un niño, y antes de llevarlo al bautisterio, el cura apuntaba, en la sacristia, los datos que consignaria más tarde en el libro parroquial.
- Que nombre le ponemos al chico?
- Por mi - contestó el padrno, - póngale usted Tigre.
- No puede ser - arguijó el párroco.
- Pues entonces, póngale usted Búfalo ó Rinoceronte.
- Tampoco puede ser! Esos son nombres de animales y no de cristianos.
- No moje, padre! Como el Papa se llama León?"
Esse pequeno conto, europeu de nascença, deu, entretanto, origem a um que é a expressão mais perfeita do espírito sertanejo do Nordeste. Vejamo-lo:
Ao perguntar-lhe o padre que nome queria pôr ao filho, já nos braços da madrinha, ao pé da pia, um vaqueiro lhe respondeu:
- Não sei bem, não, senhor; mas desejava um nome grande e bonito, um nome de encher a boca.
- Alexandre? lembrou o vigário.
- Não, senhor.
- Napoleão?
- Não serve, não, senhor.
- Heliodoro?
- Também não serve, seu padre.
- Então que nome há de ser?
O vaqueiro hesitou instantes e, depois, torturando nas mãos a aba do chapéu:
- Seu vigário, eu quero um nome que encha a boca da gente, um nome, assim como este, que ouvi outro dia: Amancebado!
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Fonte: BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo.
Um vaqueiro foi à cidade de Quixeramobim, batizar uma filha de meses. Quando o padre lhe perguntou, junto à pia, qual o nome da menina, respondeu sem pestanejar, diante do espanto da assistência:
- Onça!
O sacerdote sacudiu a cabeça, pôs-lhe carinhosamente a mão no ombro, e disse-lhe que aquele nome era de um bicho feroz e não quadrava bem numa criança, que, quando ficasse moça, seria alvo de risotas e chalaças, por causa do seu apelido.
- Mas eu quero! insistiu o vaqueiro.
O religioso fez outras considerações, a fim de demovê-lo, e terminou perguntando:
- Já viu alguém com nome de fera?
O matuto retorquiu, embatucando-o:
- E o Santo Padre não se chama Leão? Por que minha filha não se pode chamar Onça?
Esta historieta, que parece autóctone, é simplesmente a variante de um raconto peninsular europeu. Pode-se encontrá-la em outras regiões da América e em outra língua. Eu a li no curioso livro do grande escritor peruano Ricardo Palma - Mis últimas tradiciones:
"Trataba-se de cristianar a un niño, y antes de llevarlo al bautisterio, el cura apuntaba, en la sacristia, los datos que consignaria más tarde en el libro parroquial.
- Que nombre le ponemos al chico?
- Por mi - contestó el padrno, - póngale usted Tigre.
- No puede ser - arguijó el párroco.
- Pues entonces, póngale usted Búfalo ó Rinoceronte.
- Tampoco puede ser! Esos son nombres de animales y no de cristianos.
- No moje, padre! Como el Papa se llama León?"
Esse pequeno conto, europeu de nascença, deu, entretanto, origem a um que é a expressão mais perfeita do espírito sertanejo do Nordeste. Vejamo-lo:
Ao perguntar-lhe o padre que nome queria pôr ao filho, já nos braços da madrinha, ao pé da pia, um vaqueiro lhe respondeu:
- Não sei bem, não, senhor; mas desejava um nome grande e bonito, um nome de encher a boca.
- Alexandre? lembrou o vigário.
- Não, senhor.
- Napoleão?
- Não serve, não, senhor.
- Heliodoro?
- Também não serve, seu padre.
- Então que nome há de ser?
O vaqueiro hesitou instantes e, depois, torturando nas mãos a aba do chapéu:
- Seu vigário, eu quero um nome que encha a boca da gente, um nome, assim como este, que ouvi outro dia: Amancebado!
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Fonte: BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo.
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