quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os idiotas confessos

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem.

No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — "Uma santa! Uma santa!".

Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão.

E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — "Eu sou um quadrúpede!". Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — "Sou um quadrúpede de 28 patas!". Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota. E o imbecil como tal se comportava.

Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos "melhores". Só os "melhores", repito, só os "melhores" ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos "melhores", só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os "melhores" podem pensar, agir, decidir.

Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — "Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido". Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora!

Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo. De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos "melhores". Para um "gênio", 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos.

E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os "superiores". Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos "melhores", ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a "invasão dos idiotas". E, de fato, eles explodem por toda parte: — são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer.

Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou a Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a "invasão dos idiotas" só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — "Subdesenvolvimento" — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos.

Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com ainicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — "O dr. Alceu pensa assim?".

Não. Em outra época, foi um dos "melhores". Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado.

Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc.

A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação.

São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

[19/8/1968]

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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O operário e o leão

Esta fábula foi recolhida no folclore europeu pela veneranda Tia Zulmira, sábia ermitã da Boca do Mato, que ultimamente tem gasto seu precioso tempo justamente em pesquisas folclóricas.

Era uma vez um leão. Este leão trabalhava num circo que havia num reino distante e era considerado pelo povo do reino como um dos leões mais ferozes do mundo.

Tal era o cartaz do leão que, quando ele trabalhava, o circo enchia mais que discurso de Flávio Cavalcanti, na televisão.

Um dia — foi num domingo — o povo daquele reino, que vinha sendo vítima dos reformadores contumazes de todos os reinos, países, principados e republiquetas, ouviu dizer que o leão ia aparecer em um número novo. E então todo mundo foi ao circo, ver a coisa, e se distrair um pouco.

Mas eis que, de repente, o feroz leão deu um pulo dentro da jaula e arrebentou as grades, fugindo para a rua. O pânico estabeleceu-se imediatamente. Todo mundo correu, menos um rapaz franzino que estava parado numa esquina, esperando a namorada.

O leão avançou para o rapaz que, sendo muito valente, puxou um canivete que tinha, para fazer ponta em fósforo e  economizar o palito. E só com aquele canivetinho, ele matou o leão. A fera pulou em cima dele e ele teve tanta sorte que acertou uma canivetada na jugular do leão, que morreu de anemia ali mesmo.

Foi uma coisa espetacular. Logo o povo todo correu para festejar o rapaz e veio a imprensa, veio o rádio, a televisão e até as altas autoridades.

Um ministro perguntou logo, diante da coragem do rapaz, se ele era chefe de esquadrilha de aviões de combate. Mas o rapaz não era. Um oficial de Marinha quis saber se o rapaz era piloto de submarino suicida. Mas o rapaz não era. Não pertencia a qualquer das forças armadas daquele reino.

— Mas então, que é que você é? — perguntou o diretor do maior jornal dali.

— Eu sou operário — respondeu o rapaz.

E no dia seguinte, todos os jornais do reino publicavam em manchete:

" Leão acuado e indefeso morto por feroz agente comunista".

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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Marido e cachorro

Deu-se o caso numa lanchonete (sinal dos tempos: botequim antigamente era botequim, agora continua botequim, mas chamam de lanchonete). As duas jovens senhoras, belas e de calças compridas, deviam estar fazendo compras e deu sede. Foi aí que entraram na tal lanchonete. Sentaram naqueles incômodos tamboretes e pediram um refresco.

O garçom — muito solícito — explicou que tinha de laranja, de limão, de uva... enfim, refresco às pampas. Uma escolheu de maracujá e a outra simplificou ainda mais: quis laranjada. O garçom afastou-se para buscar o pedido, os canudinhos, pratinho de biscoitos, etc.

As distintas, enquanto esperavam, começaram a conversar e foi aí que uma perguntou para a outra:

— Como é que vai seu cachorrinho? Continua doente?

— Agora está melhor — informou a outra.

— Como é mesmo o nome dele?

— Joãozinho!

Era um nome esquisito, para cachorro, mas vocês sabem como é grã-fina, inventa cada besteira!!! E foi justamente quando elas começaram a falar sobre Joãozinho que o garçom estava de volta, com os refrescos. Colocou os copos defronte delas e começou a enxugar o balcão do bar, distraidamente.

— Meu marido detesta — dizia a que perguntara pelo cachorrinho da outra. E a outra:

— Joãozinho é um amor. Ultimamente ele tem dormido no meu quarto, ao pé da cama.

O garçom arregalou os olhos. Será que o coitado do marido daquela mulher dormia ao pé da cama? Ficou escutando, incrédulo.

— Tadinho, passa a noite inteira gemendo.

O garçom já ia dizer "pudera", mas conteve-se. Não tinha nada com isso. Apanhou uns copos da prateleira e começou a lavar.

— Ele não se sente muito preso no apartamento, não? — perguntou a que não tinha cachorrinho, dando uma chupadinha no canudo do refresco.

— Sente-se, sim. De noite eu sempre saio um pouquinho com ele.

— Isso é bom.

— É sim... distrai o coitadinho.

As duas mulheres pararam um pouco de falar enquanto tomavam o refresco. O garçom continuou examinando aquelas estranhas mulheres que, de colher de chá pro marido, davam só uma voltinha de noite e, provavelmente, deixavam os infelizes em casa e iam badalar. Cretinas — pensou o garçom.

A dona de Joãozinho terminou o refresco e falou:

— Estou desconfiada de que Joãozinho está com pulgas. 

— Que horror — exclamou a outra, também terminando o seu refresco.

— Quanto é? — ela perguntou ao garçom.

Este ficou meio sobre o parvo e ela tornou a perguntar:

— Quanto é?

— 150 cruzeiros — respondeu o garçom, como que acordando.

Uma das senhoras abriu a bolsa, tirou uma carteira recheada de notas e colocou sobre o balcão a importância exata. Não deixou nem um tostão de gorjeta, a miserável. O garçom sentiu que precisava ir à forra.

E quando elas se preparavam para sair, recolheu os 150 cruzeiros e disse para a dona de Joãozinho:

— Diga ao seu marido que, para ele acabar com as pulgas, deve tomar banho.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975