domingo, 28 de agosto de 2011

Patrimônio

Benedito aguardava na fila do cartório para registrar o filho, nascido dias antes. Era o quarto, aliás o quinto, mas é que um morrera ainda pequenino e esse Benedito não contava.

Quatro filhos! Pensando bem até que não era muito. Podiam vir outros, é claro, mas Bene­dito achava difícil. Estava ficando velho; a mulher também.

Benedito sorriu ao lembrar a mulher de outros tempos. Bem jeitozinha até. Agora Isaura estava um caco, mas foi um pedaço. Se foi! Para um casal pobre, eles tinham poucos filhos, sim: quatro. Pobre costuma ter muito mais filho. Pobre não tem mais nada pra fazer.

Alguém fora atendido lá na frente, a fila andou um pouquinho. Benedito deu um passo à frente. Ali mesmo na fila estava a prova. Quase tudo gente pobre como ele, para registrar filho. Gente que pouco mais do que aquilo poderia fazer pelo recém-nascido. Era registrar; o resto viria como Deus permitisse. Se, com três filhos, sua vida já era fogo, imagine com mais este.

Mas Benedito tinha um plano para dar um patrimônio à criança. Rememorava: tivera a idéia quando tomava um troço no botequim, perto da Casa da Mãe Pobre, onde Isaura era atendida. Quando entrou e pediu a cachaça, não pensava em nada. Tinha sido um impulso besta, ir até o botequim, sentar, pedir a bebida. E ali ficou bicando devagarinho, ouvindo a conversa dos outros.

Numa mesa próxima, três sujeitos conversavam, falando de política. Todos eles estavam de acordo num ponto: nada tinha melhorado, pelo menos para eles. Muda governo, discute-se, persegue-se, mas para eles era sempre igual.

— Igual não! Pior. Sempre pior! - protestou o que estava de frente para Benedito.

Os homens ficaram calados por um tempo. Um deles serviu-se de cerveja. O líquido dourado subiu pelo corpo, fazendo espuma, e transbordou. O homem afastou o corpo de junto da mesa, com medo de que pudesse se molhar. Depois riu amargo e falou:

— O galão da cerveja está recordando o cretino que eu fui.

Os outros esperaram para saber que cretino fora o companheiro:

— Meu pai fez tudo para me encaminhar no Exército e eu não quis. Já pensaram? Nesta altura não era galão de cerveja que eu teria não.

— Fala, Coronel — disse um deles, mexendo com o que sonhava.

— Coronel não. General. Tô ficando velho. Já podia ser general.

A fila andou de novo; Benedito deu mais um passo.

Da lembrança daquela noite, no café, enquanto esperava o filho nascer, passou para outras recordações. Sempre ouvira dizer que há pais que dão nomes estranhos aos filhos. Lembrou-se do caso que lhe contaram do menino registrado pelo pai logo depois de um carnaval. A criança foi registrada e batizada com o nome de Lança-Perfume Rodo Metálico. Benedito tinha lido nos jornais que a Polícia proibira lança-perfume. Será que proibiram também o tal de Rodo Metálico de circular por aí, por causa do nome? Riu da idéia.

Olhou para a frente. Estava quase na sua vez. Na hora não iria titubear. Já sabia participar daquele ritual de cor e salteado. Quinto filho. A fila ia se deslocando e Benedito ia pensando que todo o pai tem a obrigação de fazer o que puder pelos filhos. Ele pouco pudera fazer, até ali, pelos que já tinha, mas, pelo recém-nascido, faria alguma coisa. Tinha uma boa idéia.

Chegou a sua vez. Encostou no balcão e o auxiliar do escrivão apanhou uma folha limpa. Ficou esperando as perguntas:

— Nome do pai! É o próprio?

— Sou. Benedito. Benedito da Conceição Lopes.

— Lopes?

— Lopes.

— Mãe?

— Isaura Lopes.

— Como vai se chamar a criança?

— General Lopes.

— General? Mas General não é nome.

— Eu sei. Mas eu queria que se chamasse General. É um menino. O senhor compreende, eu sou pobre, ele também será. Quem sabe, quando ele crescer, os outros chamando ele de General, talvez, não sei... Talvez ele consiga ser mais do que eu fui... o senhor compreende?

O funcionário do cartório olhou para Benedito, mas, pelo olhar angustiado do pai, viu que ele não brincava: queria mesmo que o filho se chamasse General.

— Um momento - disse, e foi consultar o escrivão. Confabularam um instante, o escrivão olhou para Benedito e balançou a cabeça. General não podia.

— Então bota João - falou Benedito.

E saiu do cartório mais triste que nunca.

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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

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