segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O noivo organizado

Aconteceu em São Paulo. Um camarada chamado João Augusto de Melo, ao encontrar na rua sua ex-noiva Leonor Conceição de Paula, abotoou a distinta e perguntou onde é que estavam os Cr$ 2192,00 que lhe devia.

A ex-noiva, ainda que inibida pela truculenta cobrança, respondeu que não devia coisa nenhuma, muito menos 2 192 cruzeiros, que lembra preço de paletó da "Ducal".

— Não devo coisa nenhuma — reclamou Conceição.

E João, que não estava disposto a discutir, tacou-lhe a mão nas bochechas, bolacheando-a fartamente, até a intervenção de outros paulistas que passavam por perto e que, mesmo não podendo parar, resolveram entrar para desapartar.

Aí veio um guarda (lá em São Paulo tem guarda) e levou o casal de ex-noivos para a delegacia. E então a dívida foi esclarecida. O rapaz informou ao comissário que fora noivo de Conceição durante três anos. Durante o noivado tivera o cuidado de tomar nota de todos os gastos que fizera com ela ou por causa dela. No dia em que desmancharam o noivado, dividiu o total por dois e se sentiu com direito a ser reembolsado na metade das despesas. E para provar que era um sujeito organizado, mostrou à autoridade a cópia da carta que enviara a Conceição, carta esta, que transcrevemos aqui, em seus trechos principais.

Diz assim: "Primeira vez que saímos juntos — 1 café 1,50. Cinema Alhambra — 25,00. Cinema Dom Pedro (duas vezes) — 30,00 Condução, nas vezes que fui ver você e gastei por sua causa — 30,00. Uma vez que jantamos juntos logo que você chegou do interior — 300,00. Duas vezes Cinema Ópera — 50,00. Duas vezes que paguei Cinzano no bar — 20,00. Uma vez Cine Anchieta — 25,00. Uma vez Cinema Oásis — 30,00.

Uma vez que fomos juntos à "Boite Asteca" — 700,00. Gastos com você no Bar Áurea — 280,00. Metade da despesa de táxi (Baile da Moóca) — 50,00. Um presente para sua mãe — 16,00. Dinheiro que lhe dei, quando você foi ao Paraná — 100,00. Três pratos — 30,00. Dias dos Namorados (uma blusa) — 315,00. Uma xícara que dei para você — 10,00. "Despesas" que fiz com você (não especificadas) — 400,00. Total que você me devo — 2192,00. (ass): .— João Augusto de Melo, ex-noivo."

Esta é a relação que está na cópia da carta que João cansou de enviar a Conceição, sem que a dita se mancasse. E João (ex-noivo, como ele mesmo se catalogou), deve ter ficado indignado com o pouco caso de Conceição para saldar a dívida. Sim, porque João é um "pão-duro" desgraçado.

Em três anos de namoro, pagou Cinzano uma vez, deu de presente uma blusa, uma xícara e três pratos.Isto sem contar o presente de 16 mangos que deu pra mãe lá dela. Que diabo de presente teria sido esse, tão preço de queima total para entrega das chaves? João não diz. Não diz porque é um ex-noivo discreto, predicado que deixa antever naquela marotíssima "Despesa" (entre aspas) não especificada.

Conceição não quis explicar ao comissário, qual era a "despesa" não especificada. Mas está na cara, né João? Foi quarto de hotel suspeito e você, mais "pão-duro" do que discreto, castigou na relação. E está com toda razão. Pois se vocês foram juntos, por que é que ela não vai pagar também, é ou não é?

Cobra mesmo João. Cobra mesmo, ex-noivo organizado.

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Fonte: Tia Zulmira e Eu  - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

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