sexta-feira, 25 de março de 2011

Por trás do biombo

O homem é atropelado na rua ou cai fulminado por um ataque cardíaco. Pode morrer de indigestão ou pode morrer de fome, não importa. Depois da morte to­dos são iguais e lá fica aquele corpo estirado no asfalto, logo cercado por duas velas acesas, que mãos piedosas e incógnitas providenciam com impressionante presteza.

O homem está morto e os curiosos o rodeiam, divi­dindo-se entre retardatários curiosos e prestativos infor­mantes.

— "Como é que foi, hem"?

— "Ele sentiu-se mal, coitado. Nós sentamos ele no meio-fio, mas ele acabou morrendo".

— "Pobrezinho!"


A nossa imperturbável e deficiente Polícia se incum­be de amainar o espírito do próximo; o seu sentimento de solidariedade. O falecido pode morrer à hora que for que ficará estirado na calçada, exposto à curiosidade pú­blica, porque as autoridades policiais só vão aparecer de­pois que o caso já caminhou para o perigoso terreno da galhofa e o falecido já goza da intimidade dos que pas­sam.

Já não há mais aquele amontoado de gente à sua vol­ta; apenas um ou outro curioso se detém por um instan­te, espia e parte. Já queimaram as velas que iluminaram sua alma na subida aos céus; enfim, o defunto virou vaca. Um cara que tinha ido pra lá, pouco depois do momento fatal, e que estava voltando pra cá algumas horas mais tarde, vê o corpo espichado no chão e berra:

— "Puxa... Ainda não fizeram o carreto desse bone­co!"

Os que ouvem acham graça. A presença da morte já é da intimidade de todos e todos aceitam o desrespeito com o sorriso desanuviador.

No dia seguinte os jornais comentam o fato, e terminam a notícia com as palavras de sempre: "O corpo do extinto ficou durante horas ex­posto à curiosidade pública, porque a perícia demorou a chegar".

Agora aparece o projeto do Deputado Fioravante Fra­ga. Vejam que beleza! O projeto obriga as delegacias dis­tritais a contarem permanentemente com um biombo, para esconder os que morrem nas vias públicas. Como se isso adiantasse. Se a Polícia é que chega atrasada, tá na cara que se ela trouxer o biombo, este também chega atra­sado, pombas!

De qualquer maneira, o noticiário policial vai variar o final da notícia: "O corpo do extinto ficou durante horas exposto à curiosidade pública, porque a Polícia demorou a chegar com o biombo".

Por: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).

Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

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