quinta-feira, 24 de março de 2011

Transporta o céu para o chão

Era um mendigo seresteiro, um misto de coitado e boêmio, que bebeu um pouco mais e ficou alegre. Ora, a alegria de um mendigo resume-se num canto romântico misturado aos palavrões de revolta, único lenitivo para suas amarguras.

Os mendigos, em geral, não dizem pala­vrão, porque vivem da caridade pública. Mas este, de Sal­vador, Cidade de São Salvador, Bahia, tinha bebido umas e outras, talvez com outros humildes como ele, no Cais dos Saveiros, talvez numa tendinha da beira da praia. Isto não ficou esclarecido.

Sabia-se apenas que era um mendigo que — de repen­te — virou seresteiro e saiu cantando pelas ruas de Salva­dor, subindo e descendo suas ladeiras, momentaneamen­te alegre:

— "A Deusa / da minha rua / tem uns olhos onde a Lua / costuma se embriagar" — cantava ele.

Depois parava, meditava sobre o que cantara, sorria e dizia o seu sonoro e honesto palavrão: — Quem costu­ma se embriagar sou eu, ora... — e arrematava com o pala­vrão. E lá ia cantando:

— "Nos seus olhos eu suponho / que o sol / num doirado sonho / vai claridade buscar".

Cantando, o mendigo chegou a uma praça e parou encantado em frente a uma casa. Era uma casa muito grande, parecia um palácio e todo bêbado é um rei. Ele deve ter imaginado uma seresta para sua rainha e cantou:

— "Na rua / uma poça d'água / espelho da minha mágoa / transporta o céu para o chão".

Outra vez sorriu e outra vez praguejou seus palavrões. Foi então que um homem, vivendo ali seus dias e suas noites, isolado das misérias do mundo, sem mais um res­to de temperança, de compreensão, achou que o mendi­go estava lhe faltando com o respeito e chamou a polícia.

Pombas! A polícia. Esta mesmo é que não ia compre­ender nunca o sonho do mendigo-rei. Chegou e tentou agarrá-lo à força.

— Assim não — gritou o intrépido monarca: — Assim não.

Mas o policial insistiu e deu-lhe um tranco. O rei foi magnífico na sua dignidade, esfregando um bofetão certeiro e merecido nas fuças do policial. Um companheiro do esbofeteado sacou da arma e fez fogo. Morreu o rei, morreu o seresteiro, morreu o mendigo.

Caiu desfalecido na calçada, veio-lhe uma estranha impressão e ele morreu: 

"Na rua / uma poça d'água / transporta o céu para o chão" — cantara ele ainda há pouco. Mas desta vez não. A poça era de sangue.

Por: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).

Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

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