domingo, 21 de agosto de 2011

Doente do pulmão

Certa manhã, quando foi apanhar o leite, encontrou aquilo no chão, junto da porta. Era um envelope branco, fechado. Por fora, estava escrito: “Para d. Clélia”. Balbuciou:

— Pra mim?

E, então, no seu quimono rosa por cima da camisola, os pés calçando as chinelinhas, abriu o envelope. Teve uma surpresa ainda maior ao desdobrar o papel: versos! Leu, releu, tresleu, como se o soneto, que lhe pareceu fabuloso, estivesse escrito em latim, grego ou chinês. E não havia dúvida: a destinatária era ela.

Imersa na releitura, não sentiu a aproximação do marido. Geraldo espichava o pescoço e lia também, por cima do seu ombro.

Clélia tomou um susto. Vira-se instantaneamente e seu primeiro impulso, instintivo e irresistível, foi esconder o papel. Mas Geraldo estendia a mão, exigindo: “Dá isso, aqui, anda!”. A pequena obedeceu, vermelhíssima. E ele, num espanto mudo, virava e revirava o papel, cheirava-o. Interpelou Clélia: “Quem mandou?”. Ela, ainda perturbada, respondeu:

— Sei lá!

Preparado para sair, num terno branco engomadíssimo, ele rosna:

— Ah, se eu descubro o engraçadinho que fez isso, parto-lhe a cara!

O MISTÉRIO

Para Clélia, o poeta anônimo, que irrompia na sua vida, era alguma coisa de insólito, de sem precedentes. Casada há três anos, sua existência matrimonial não oferecia uma variante, uma novidade, uma emoção especial. A rigor, a única compensação que lhe restava era o rádio. Adorava as novelas e os programas humorísticos. Aos sábados, ia ao cinema, sessão das oito. Só. Fora disso, era o tédio, a rotina, a vida que se repetia. O soneto, que o autor passara por debaixo da porta, significava uma experiência inédita.

Mal o marido saiu, indignado, falando em “quebrar caras”, ela foi, de porta em porta, anunciar o acontecido. Imediatamente formou-se, na calçada, um grupo feminino. Aquelas mulheres, falando pelos cotovelos e, ao mesmo tempo, num mexerico deslavado, faziam pensar em galinhas de desenho animado. Uma delas, de seio imenso, as pernas ilustradas de varizes, foi enfática:

— O que vale é que meu marido não faz versos!

Outra atalhou:

— Nem o meu!

As mãos nos quadris, atribulada, Clélia pergunta:

— Quem terá sido?

Súbito, d. Silene, que era uma língua de trapo tremenda, anuncia: “Já sei!”.

Baixa a voz:

— Quem é que faz versos aqui na rua? Quem? — Silêncio expectante; ela própria responde: — O Silveirinha! É ou não é? Batata!

Clélia e as demais caíram das nuvens:

— É mesmo!

O POETA

Talvez existisse, na rua e no bairro, um outro poeta, mas rigorosamente incubado, rigorosamente inédito. Conhecido mesmo, só o Silveirinha, rapaz esquálido e sebento, de calças cerzidas nos fundilhos. Na sua figura anti-higiênica, lamentável, só havia mesmo um único traço de distinção e bom gosto: o pobre-diabo fumava de piteira. O cigarro podia ser, e era, um mata-rato brabíssimo. Mas a piteira, muito longa, muito aristocrática, parecia infundir um quê de fatal e, mesmo, de satânico à sua pessoa.

Acresce que, recentemente, ele andara num sanatório gratuito da prefeitura. Após uns seis meses, retornara à rua. E coisa curiosa: obtivera alta, mas voltara mais escaveirado do que nunca, tossindo que Deus te livre e com um tom esverdeado de cadáver. E mais: não fosse a mãe viúva, que o sustentava, o miserando Silveirinha teria morrido, há muito tempo, de fome.

Identificado o poeta, Clélia pensa na tísica, que o consome, na aparência pessoal tão desagradável e patética. Sem querer, deixa escapar exclamação apiedada:

— Coitado!

Foi o bastante. Há em torno um burburinho: “Mas, oh, dona Clélia!”. D. Silene dramatiza: “A senhora se esquece que é casada!”. Ela cai em si:

— Claro! É evidente! É muito desaforo!

Geraldo chegou à noitinha, com um humor cordialíssimo. Esquecera por completo os versos enfiados por debaixo da porta. Encontrou, porém, a esposa exaltadíssima. Com o espírito trabalhado pelas vizinhas, ela recebe triunfalmente o marido:

— Sabe quem foi o cachorro?

Ele, tirando o paletó, faz espanto:

— Que cachorro?

— Você já se esqueceu, é? — Explode: — Logo vi! Você não pensa em mim, não me liga, não me dá nenhuma pelota! Falo do cachorro que me mandou os versos!

O marido bate na testa, envergonhado do lapso: “Sim! Os versos!”. Pigarreia e indaga: “Quem foi?”. E ela, num berro: “O Silveirinha!”. Geraldo quer saber: “Tem certeza?”.

E, então, na base da dedução lógica e infalível, ela demonstra que só pode ter sido o único poeta existente num raio de vários quilômetros. O raciocínio impressiona Geraldo. Clélia continua:

— Toda a rua está de olhos em ti, esperando tua reação. E eu vou te pedir um favor.

— Qual?

Diz:

— Tu vais me dar um tiro nesse descarado!

O marido recua, de olhos esbugalhados. “Tiro?” Clélia teima: “Perfeitamente. Tiro!”. Geraldo reage: “Sossega, leoa! Você está pensando que esse negócio de tiro é assim? Você é minha amiga ou da onça?”. Essa resistência, que não entrara nos seus planos, enfurece Clélia. Investe sobre o marido:

— Você não me ama! Se me amasse, matava esse miserável! E das duas uma: ou você dá o tiro ou toda a vizinhança vai saber que você não gosta de mim, nem se incomoda comigo! Você tem que mostrar que é homem!

E a verdade é que ela temia mais o comentário dos vizinhos que o Juízo Final. O desconcertado Geraldo apela até para as razões de saúde: “O homem é tuberculoso, ora bolas!”. Clélia exulta: “Você acha o quê? Que o tuberculoso pode desrespeitar a esposa dos outros?”. O marido embatuca. Ela termina historicamente:

— Você usa calças pra quê? Seja homem!

Em seguida, houve uma romaria de vizinhos. Todos, solidários e ferozes, eram de opinião que o Silveirinha merecia uma lição. Disseram horrores do poeta, inclusive uma coisa que ocasionou várias náuseas, ou seja, que ele escarrava no lenço. Então, cercado por todos os lados, submetido a uma pressão tremenda, Geraldo não teve outro remédio.

No fundo, era um pacífico, um bom. Mas acabou numa espécie de indignação artificial, de cólera fabricada, que a mulher e as vizinhas impunham. Prometeu não o tiro, mas uma sova. Já feroz, já heróico, rilhava os dentes.

TOCAIA

A esperança de Geraldo era que não houvesse um segundo soneto. Mudando a roupa no quarto, mais tarde, ele vira-se para a mulher: “Agredir tuberculoso é espeto! Imagina se o homem tem uma hemoptise?”. Clélia enfia a camisola, e simplifica:

— Azar o dele!

Geraldo dormiu. Clélia, não. Ficou em claro, de tocaia. Alguma coisa lhe dizia que o poeta tísico viria, na calada da noite, introduzir por debaixo da porta uma nova e desvairada poesia. Apanha o soneto da véspera e imerge na sua leitura. Era um grito ou, por outra, um uivo de paixão. Silveirinha falava em “braços de marfim”, “colo de alabastro” e “seio de neve”. Tratava-se do pior soneto do mundo e com várias pistas de vantagem.

Pois bem. Clélia continua a vigília, junto à janela entreaberta. Na altura das três horas, vê, à distância, um vulto que, no outro lado da calçada, caminha rente à parede. Era o bandido! Numa euforia medonha, ela acorda o marido: “Evém! Evém!”. Instiga-o: “Quero ver se você é homem!”. Geraldo desce. E, então, aconteceu o seguinte: no exato momento em que, de cócoras, o Silveirinha enfiava um novo envelope, com um novo e tenebroso soneto, talvez pior que o primeiro, Geraldo abre espetacularmente a porta. Ao mesmo tempo, Clélia punha-se a gritar, conclamando os vizinhos:

— Socorro! Socorro!

Dir-se-ia que estava todo mundo acordado. Imediatamente, as sacadas apinharam-se. Homens de pijama irrompiam das casas próximas. Criou-se uma platéia.

Assistido e estimulado por uma espécie de torcida, Geraldo bateu além da medida. Sem se lembrar do estado pulmonar da vítima, dava-lhe socos, murros nas costas e no peito.

Justiça se faça ao Silveirinha. Apanhou sem reagir. Agachado, com as mãos cobrindo a cabeça a chorar, soluçava alto, soluçava forte. Então, Clélia, que assistia a tudo, grita, num desvario: “Basta! Chega!”.

Investe sobre o marido; agride-o pelas costas: “Covarde! Covarde!”. Geraldo recua, atônito, e realmente acovardado.

Clélia cai de joelhos na calçada. Abraçada ao tísico, chora também; beija-o, soluça:

— Meu marido é mau! Meu marido não chega aos teus pés!

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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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