terça-feira, 6 de setembro de 2011

A feia nudez

A propósito da melindrosa de 1929, escrevi, certa vez:

— "Como é antigo o passado recente". Gostei da frase e pinguei-lhe um ponto de exclamação. De então para cá, sempre que posso repito, e não sem uma certa vaidade autoral: — "Como é antigo o passado recente".

E, de fato, não há mulher mais antiga, mais fenecida, do que a melindrosa de 1929. É anterior a qualquer baixo-relevo assírio, fenício ou que outro nome tenha. Há pouco, andei repassando um dos primeiros números de O Cruzeiro. Exatamente de 1929, se não me engano.

E vi as grã-finas da época. Já não falo do vestido sem cintura, nem do penteado, nem do sapato etc. etc. O que me importa é valorizar o espantoso olhar e o espantoso sorriso. Cada época sorri de certa maneira, olha de uma certa maneira. Repito: — por um olhar, ou por um sorriso, pode-se dizer de uma certa dama: — "Esta é do século Fulano, ou do século Beltrano". E quanto mais antiga, a pessoa mais se parece conosco. Ao passo que há, entre nós e a melindrosa, como que uma distância abismal.

Dirá alguém que de 1929 para cá são passados apenas 39 anos. Ah, não acreditem no falso tempo das folhinhas. A idade da melindrosa de O Cruzeiro nada tem a ver com esses míseros, escassos 39 anos. E ela sorri de um tal jeito, e olha de tal jeito, que, por vezes, me ocorre a seguinte suspeita: —"A melindrosa de 1929 nunca existiu".

Se me perguntarem o que havia no seu olhar e no seu sorriso, eu diria que ambos eram idiotas. Recorram às velhas edições de O Cruzeiro e, mais velhas ainda, do Fon-Fon, da Revista da Semana. Vejam as mais belas mulheres e as mais amadas do tempo. Olhavam e sorriam como débeis mentais. Aí está dito tudo: débeis mentais. E só admira que alguém as suportasse, ou pior, que alguém as desejasse.

Não sei se me entendem. Se estou sendo obscuro, paciência.

Mas, como ia dizendo: — desdobro aqui a minha meditação de ontem. Falei do biquíni, que, a meu ver, é muito, muitíssimo anterior ao primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. O biquíni, repito, tem a idade do impudor, que podemos estimar em para mais de, sei lá, 40 mil anos. Digo 40 mil anos, como poderia dizer milhões. Bastam os 40 mil. O impudor era certo, natural, consagrado, na mulher pré-histórica. Mas, quando a mulher se tornou um ser histórico, o pudor foi a sua primeira atitude, o seu primeiro gesto. Mesmo as mais degradadas preservavam um mínimo de pudor. E eis que, de repente, em nossos dias, há todo um movimento regressivo. Aí está o biquíni.

Dirão que tenho a fixação do biquíni. (A nossa vida moral depende de uma meia dúzia de nobilíssimas idéias fixas. O santo ou, nem tanto, o simples homem de bem há de ser um obsessivo. Tenho um amigo que só pensa em biquíni. Nos pesadelos, os umbigos o atropelam).

Durante séculos e séculos, a História preservou o mistério e o suspense do umbigo. Era como se a mulher não o tivesse. Através das idades, só o marido de civil e religioso, ou o parteiro, conseguia vê-lo. Para os outros, o umbigo era irreal, utópico, absurdo. E, súbito, começam a aparecer, aqui e ali, as praias pré-históricas. Tal como no tempo em que os homens viviam em hordas bestiais. E começamos a época da nudez sem amor, do nu de graça e, repito, sem o pretexto do amor. A nudez exclusiva para o ser amado deixou de existir.

Todas se despem, para o ser amado e para outros, inclusive o crioulinho do Grapette. Deixo de lado os outros povos. O que me interessa é o nosso. Nunca o povo brasileiro viveu tanto do passado, das rendas do passado. Somos devorados por misteriosas nostalgias. Dizia-me, ainda ontem, o meu amigo Luís Eduardo Borgerth: — "Nós somos vestidos pelos nossos avós". O próprio Borgerth anda, por aí, estranhíssimo.

Inaugurou um bigode que me deu o que pensar. Eu quebrava a cabeça perguntando-me a mim mesmo: — "Onde é que eu vi esse bigode?". E, súbito, um nome faísca na treva: "Rio Branco, barão do Rio Branco". O nosso Luís Eduardo pôs o bigode espectral do barão.

E o Carlos Alberto, presidente do Banco do Estado da Guanabara? Doce figura. Um belo dia aparece com os bigodões de um longínquo avô. Quando ele entra, ou quando ele sai, dá a sensação de que é avô de si mesmo, ou o neto de si mesmo. No dia 2 ou 3 do presente janeiro, fui receber na TV Globo. Embolso o dinheiro e passo no gabinete do Walter Clark, o gênio da televisão. (Segundo o Otto Lara Resende, o Walter seria gênio do mesmo jeito, fosse arquiteto, veterinário, agrimensor ou bombeiro hidráulico).

Entro e vejo o meu amigo sem paletó, um vasto charuto. O charuto é o de menos. O transcendente eram os suspensórios. Não se pode falar dos suspensórios do Walter Clark sem lhes acrescentar um ponto de exclamação. Falei da melindrosa de 1929. Pois é esta a data dos suspensórios de Walter Clark, e repito: — era assim que os gângsteres da Grande Depressão seguravam as suas calças. Não só os suspensórios. Também o colarinho, a gravata, a camisa listrada, as botinas.

Eu disse 1929 e já não sei se a sua elegância não será um pouco anterior. O fato é que, ao me despedir, tive vontade de perguntar-lhe: — "Estás faturando bem com a Lei Seca?". Mas o leitor sairia frustrado se eu não contasse uma singularidade: — os suspensórios do Walter Clark têm paisagem. Neles há o Pão de Açúcar, corações flechados, faunos de gaitas, sátiros de pés de cabra etc. etc.

Para sair da Grande Depressão, tive de deixar o gabinete. E cá fora, no corredor, já comecei a respirar o ano de 1968. Mas por toda parte continuo sentindo focos do passado. Na quinta-feira passada, apareceu aqui, de repente, o Otto Lara Resende. Vinha de Lisboa. Às sete horas da noite, sua presença explodiu na casa do Hélio Pellegrino.

Mas era um outro Otto, sem nenhuma relação com o que daqui saíra para conquistar Portugal. Durante sua ausência mandara-me uma carta em que julguei perceber um sotaque lisboeta de Leopoldo Fróis. Mas na casa do Hélio Pellegrino deu-me outra impressão. Lusíada da cabeça aos sapatos. Ou melhor: Eça puro. O Otto instalou ali, na rua Nascimento Bittencourt, todo um clima antigo. E ele próprio parecia alguém expelido do ventre da primeira edição de Os Maias.

[15/1/1968]

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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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