quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O homem, o bonde e a mulher

Cada um dá o golpe que quer. Uns ainda se escudam no manjadíssimo serão no escritório; outros preferem telefonar dizendo que chegou um amigo do interior; há os que só arranjam uma desculpa na hora de chegar.

Desta ou daquela maneira, maridos retardatários têm seus respectivos estilos, de acordo com as respectivas esposas.

As esposas, por sua vez, acreditam ou não; fingem acreditar ou não, e — por conta própria — têm suas maneiras de verificar se o que o marido contou ao chegar era verdade. Nunca é, mas... não custa nada admitir a hipótese, pois hipótese existe é para ser admitida.

Stanislaw tem um amigo que mora numa praça, cuja tem muitas árvores onde dormem muitos pardais. Para chegar em casa tem que passar pela praça e, quando chega depois que os passarinhos acordaram, a mulher controla a hora em que ele entrou pelo sujo que os passarinhos fizeram na roupa dele. Por isso o nosso amigo tem horror a passarinho.

Não sabemos se vocês leram a notícia de um bonde que perdeu a direção e entrou numa casa, na madrugada de 22 passada.

Nessa mesma noite, cavalheiro de nossas relações — cujo nome é impossível escrever aqui, pois não somos cronista mundano que nasceu para incrementar o desquite — saiu pela aí, desgarrado de casa, local para onde telefonou por volta de 7 da noitinha, avisando que ia à convenção do PSD (ele na hora esqueceu que votara no Jânio).

Calçado o regresso, pelo menos no seu entender, tomou umas e outras e telefonou mais uma vez, agora para uma desajustada em disponibilidade amorosa, que, quando se encontra em estado de "jogada fora", sai com ele.

Meteram um boteco legal, espalharam muita brasa e, quando os leiteiros já tinham recolhido as carrocinhas, ele chegou em casa. Eram 4 e lá vai perdigoto.

Tirou a roupa e deitou, como bom pessedista, fingindo que vinha da convenção, embora o bafo.

A mulher, no dia seguinte, não lhe dirigiu a palavra e ele, para confraternizar, puxou conversa de todo jeito, acabando por pegar o jornal e começar a ler. Ao passar os olhos na coluna de polícia, deu com o cabeçalho:

"De madrugada — bonde entra em casa."

Virou-se para a mulher, para tentar mais uma vez a pacificação, e disse:

— Ouve só, querida, que notícia curiosa. — E leu: — "De madrugada — bonde entra em casa."

A mulher olhou-o com desprezo e comentou apenas:

— Aposto como entrou mais cedo do que você

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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.

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