sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As múmias dos chinchorros

Múmia chinchorra
Uma remota comunidade de pescadores da América do Sul tinha praticado a arte da mumificação antes mesmo do nascimento da civilização e pelo menos 2.000 anos antes dos lendários preparadores de múmias do antigo Egito. Já há algum tempo que se sabia que um povo antigo vivera outrora na costa de Atacama, na extremidade do deserto. Foi-lhes dado o nome de Chinchorros da palavra espanhola para designar uma pequena rede de pesca em forma de bolsa.

Os chinchorros vieram dos Andes, descendo os rios da cordilheira até o mar. Ocuparam os estuários da costa do Pacífico atraídos pela abundância de peixes, focas, moluscos e pelicanos, e viraram pescadores. A região em que se fixaram é uma das habitadas há mais tempo na América.

Segundo o professor Virgilio Schiappacasse, do Museu Natural de Santiago de Chile, na costa chilena há sítios arqueológicos, do complexo cultural Huentelauquen, com mais de 9.000 anos. “Em sítios andinos como Tojo-Tojone e Patapatane, de 9.400 anos, foram achados moluscos e ossos de peixe, confirmando o intercâmbio entre as montanhas e a costa.”

Os primeiros vestígios dos chinchorros foram descobertos pelo arqueólogo alemão Max Uhle em 1917. Desde estão, já foram desenterrados 282 corpos no deserto de Atacama, ao norte do Chile, dos quais 133 preservados naturalmente e 149 mumificados. Conhece-se ainda muito pouco sobre essa cultura fúnebre. Segundo o arqueólogo Bernardo Arriaza, da Universidade de Tarapacá, em Arica, Chile, as sofisticadas técnicas de conservação dos corpos foram “uma invenção local, melhorada pouco a pouco”. Mas o incrível mesmo é a antigüidade das múmias. A mais velha delas data de 5.050 a.C. Ou seja, 2.000 anos antes da mumificação surgir no vale do Rio Nilo, no Egito.

O embalsamamento exigia um longo trabalho meticuloso. Desenvolveram técnicas e estilos diferentes: de 5.050 a.C. a 2.800 a.C., removiam a pele, a carne e os órgãos do corpo (incluindo olhos e cérebro), deixando mãos e pés, cujos ossos diminutos dificultam o trabalho. Para sustentar o esqueleto, atavam pedaços de madeira à espinha, pernas e braços. O corpo era estofado com junco, plantas secas e uma pasta de cinzas e água, amalgamada com sangue de foca, ovos de aves e cola de peixe. A pele era recolocada e o rosto esculpido como máscara, com nariz, olhos e boca. Tudo pintado com tinta negra, extraída de areia rica em mangânes da praia. Uma peruca de cabelos humanos dava o arremate final.

De 2.800 a.C. a 1.700 a.C. a tinta passou a ser ocre vermelho, extraída de rochas. Os cadáveres deixaram de ser desmembrados e os órgãos eram retirados através de incisões. O corpo era estufado com terra. Tripas de pele humana ou de pelicano enrolavam pernas e braços. O último período durou de 1.700 a.C. a 1.500 a.C, quando os órgãos deixaram de ser retirados. O corpo passou a ser tratado só externamente, recoberto por uma pasta endurecida feita de lama, areia e cola de peixe.

Os chinchorros, afirma Arriaza, tinham uma relação de reciprocidade com os mortos, orientada para as necessidades dos vivos. “Cuidando das múmias, procuravam proteção dos antepassados. Os tempos eram difíceis. A costa sofria muitos terremotos e maremotos.” Esse, aliás, é o único vínculo entre esses pescadores pré-históricos e os incas, cujo império se consolidou 3 000 anos depois. Ambos povos veneravam os cadáveres. “Os mortos faziam parte da sociedade”, diz Arriaza. “Em muitas culturas eles são depositados em lugares distantes das aldeias. Mas entre os chinchorros e os incas não.”

A arqueologia andina deve muito à Companhia de Águas de Arica, no Chile. Uma instalação de encanamentos no costão de El Morro, na periferia da cidade, no dia 25 de outubro de 1983, revelou um cemitério inteiro a um metro de profundidade. Os arqueólogos do Museu Arqueológico San Miguel de Azapa, da Universidade de Taracapá, tiveram a surpresa de suas vidas. “Havia 96 corpos”, conta Bernardo Arriaza. “A maior parte, múmias sofisticadas, de períodos distintos, ao longo de 3 500 anos. As múmias artificiais mais antigas do mundo”.

El Morro revelou objetos, anzóis, arpões e lanças que mudaram o entendimento da pré-história americana. Os objetos mostraram que, ao contrário do que se supunha, os chinchorros não eram caçadores ou coletores que migravam por longas distâncias, mas populações estáveis, assentadas em vilas de pescadores.

A análise do intestino das múmias revelou 3 000 anos de dieta estável: peixe, foca, moluscos, algas, alguns poucos animais terrestres como o veado e o guanaco, e sementes de tomate e hortelã. Quase 20% sofriam de vermes, talvez porque comessem cru ou parcialmente cozido. Em compensação, não tinham cáries, porque peixes não têm carbohidratos capazes de danificar os dentes. A julgar pelos chinchorros, muita coisa ainda pode ser descoberta na pré-história americana.

Para saber mais:

Beyond Death: The Chinchorro Momies of Ancient Chile, Bernardo Arriaza, Washington, Smithsonian Press, 1995; Cidades Perdidas e Antigos Mistérios da América do Sul, David Hatcher Childress, São Paulo, Siciliano, 1987; Poder Político e Religião nas Altas Culturas Pré-Colombianas, Ciro Flamarion Cardoso, In: América em Tempo de Conquista, Ronaldo Vainfas, Rio, Jorge Zahar, 1992.

Fontes: Revista Superinteressante; Corvo Branco tripod.com.

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