quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O operário e o leão

Esta fábula foi recolhida no folclore europeu pela veneranda Tia Zulmira, sábia ermitã da Boca do Mato, que ultimamente tem gasto seu precioso tempo justamente em pesquisas folclóricas.

Era uma vez um leão. Este leão trabalhava num circo que havia num reino distante e era considerado pelo povo do reino como um dos leões mais ferozes do mundo.

Tal era o cartaz do leão que, quando ele trabalhava, o circo enchia mais que discurso de Flávio Cavalcanti, na televisão.

Um dia — foi num domingo — o povo daquele reino, que vinha sendo vítima dos reformadores contumazes de todos os reinos, países, principados e republiquetas, ouviu dizer que o leão ia aparecer em um número novo. E então todo mundo foi ao circo, ver a coisa, e se distrair um pouco.

Mas eis que, de repente, o feroz leão deu um pulo dentro da jaula e arrebentou as grades, fugindo para a rua. O pânico estabeleceu-se imediatamente. Todo mundo correu, menos um rapaz franzino que estava parado numa esquina, esperando a namorada.

O leão avançou para o rapaz que, sendo muito valente, puxou um canivete que tinha, para fazer ponta em fósforo e  economizar o palito. E só com aquele canivetinho, ele matou o leão. A fera pulou em cima dele e ele teve tanta sorte que acertou uma canivetada na jugular do leão, que morreu de anemia ali mesmo.

Foi uma coisa espetacular. Logo o povo todo correu para festejar o rapaz e veio a imprensa, veio o rádio, a televisão e até as altas autoridades.

Um ministro perguntou logo, diante da coragem do rapaz, se ele era chefe de esquadrilha de aviões de combate. Mas o rapaz não era. Um oficial de Marinha quis saber se o rapaz era piloto de submarino suicida. Mas o rapaz não era. Não pertencia a qualquer das forças armadas daquele reino.

— Mas então, que é que você é? — perguntou o diretor do maior jornal dali.

— Eu sou operário — respondeu o rapaz.

E no dia seguinte, todos os jornais do reino publicavam em manchete:

" Leão acuado e indefeso morto por feroz agente comunista".

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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
Fonte: GAROTO LINHA DURA - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975

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