segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dos sertões ao matagal

Somente porque tem uma bicicleta o camarada não é necessariamente um ciclista. Do mesmo modo o camarada pode ter uma cuíca e não ser sambista, um telefone e não ser telefonista, uma batuta e não ser maestro, uma mulher e não ser casado. Já com este nosso personagem de hoje, a coisa foi diferente: tirou uma máquina de escrever na rifa e resolveu ser escritor.

Como, minha senhora? Se a rifa foi da paróquia de São Judas Tadeu, dirigida pelo Padre Góis, aquele que diz que o referido santo é tão rubro-negro que costuma suar a camisa número 12 quando o Flamengo está jogando? Não senhora. A rifa foi promoção de um amigo que precisava operar a avó. E fique quieta, madame, porque nós vamos contar a história toda.

Deu-se que ele ficou com um bilhete da rifa: o número 312, centena do burro. Quando a coisa correu, saiu premiado e ganhou a máquina de escrever. Não era lá muito nova; pelo contrário, faltava a letra "Q" mas, felizmente, tinha a letra "K" e quem escrevesse podia apelar, escrevendo mais ou menos assim: "Kue linda tarde, kerida — disse Kuincas ao entrar no kuioskue."

Mas isto são detalhes. O importante é kue, digo, que a máquina saiu premiada para ele e, num rasgo de impensado romantismo, resolveu ser escritor. Até então vivia dos seus proventos de aviador mas, entusiasmado pela presença daquela Underwood enferrujada, largou tudo pela nova profissão:

— "Nunca mais serei aviador!" — berrou na solidão do quarto.

O que, madame? Se ele largou a Aeronáutica? Não, dona. Ele era aviador de receita, numa farmácia do bairro. E pare de chatear, senão não conto a história.

Sim, seria um escritor! Mas de quê? Escritor propriamente dito, o único que consegue viver disso no Brasil (por causa das traduções pro estrangeiro) é o Jorge Amado. Outros escritores, por mais escritores que fossem, enriqueciam os editores. E se fosse escritor de contos policiais? Ah... boa idéia. Mas no Brasil é difícil, por causa da concorrência dos americanos do norte. Em cada três escritores americanos, oito escrevem contos policiais. O único escritor brasileiro no gênero é o Luís Coelho, mas este ganha dinheiro aos potes, no Foro de São Paulo. É um grande advogado e por isso é que se dá às veleidades de Conan Doyle do Anhangabaú. Talvez um escritor mais simples: de crônicas mundanas. Sim, cronista mundano.

Olhou-se no espelho e ficou encabulado. Tal como todos os cronistas mundanos, não tinha cara de cronista mundano. A decisão veio de repente. Lembrou-se que, na véspera, durante o bate-papo no café, alguém tinha dito que o último filme de Zé Trindade — "O Empacotador de Fumaça" — tinha dado 10 milhões de renda na cadeia do Luís Severiano.

O que, dona? Se o Luís Severiano está em cana? Ainda não, minha senhora. Por que haveria de estar? O filme tinha dado dez milhões na cadeia, mas cadeia de cinemas do referido cidadão.

Ora, se um filme cocoroca como aquele (ele assistira ao filme no Cine Rian, com uma mão na perna da namorada e outra na sua cocando pulga) tinha dado aquele dinheirão todo, imaginem um filme bem planejado, com um escrito inteligente, como aquele de "O Cangaceiro", que o Lima Barreto fez? É. Ia ser escritor de cinema. Faria um argumento com diálogos sérios, usando como tema algo bem brasileiro. Não usaria cangaceiro porque, de uns tempos para cá, cangaceiro é a mesma coisa que cowboy só que o chapéu é de couro e a aba é pra cima.

Durante uns três meses não fez outra coisa senão escrever e rasgar o que estava escrito. Não desanimou por causa disso. Pelo contrário: quanto mais escrevia, mais sentia que seria capaz de escrever um argumento que seria a redenção do cinema nacional. E, de tanto tentar, acabou encontrando a idéia genial: faria uma adaptação perfeita de "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Era a grande epopéia brasileira, na qual poderiam ser incluídos grandes números do nosso folclore, poderiam ser aproveitados os mais sérios intérpretes e ainda sobraria margem para diálogos soberbos. Isto sem contar as possibilidades imensas da história como linguagem cinematográfica e os recursos fotográficos que se poderiam usufruir das cenas imaginadas.

Duraram quase dois anos as suas vigílias, batucando a velha máquina, na adaptação da grande obra literária de Euclides da Cunha em obra supinamente cinematográfica. Suas economias, do tempo em que ainda era aviador (de receitas), já tinham ido pra cucuia. Devia quase 50 contos nos tamboretes da praça, pequenos bancos que se dão ao feio vício da agiotagem. Mas não desistiu.

Depois de tanta luta, viu um dia o trabalho pronto. Estava tinindo. O primeiro produtor que procurou foi o Eurides Ramos, que recusou a proposta. Bem-feito, quem mandou cair nas mãos de Eurides? Foi pro já citado Severiano, mas este também recusou porque estava com 16 fitas do Oscarito prontas para serem lançadas. Procurou aquela turma de São Paulo, que quis transformar os morros de São Bernardo do Campo em Beverly Hills, e penetrou pela tubulação. Nada.

Foi aí que soube de um italiano recém-chegado. Como todo italiano recém-chegado que não é nobre, este era cineasta. Já tinha interessado um outro italiano (este há muito chegado e nobre, além de industrial) a financiar um filme. O nosso abnegado amigo botou a papelada debaixo do braço e foi discutir o assunto com o "cineasta". Foi uma luta dura, na qual capitulou e acabou entrando pelos Canudos, que nem Euclides da Cunha. O "cineasta" já tinha contratado o Alberto Ruschel para fazer o mocinho e o Milton Ribeiro para representar o bandido.

— Aqui onde você botou um número folclórico, fica melhor a gente incluir uma marchinha que a Emilinha Borba vai cantar e vai ser um estouro — propôs o cineasta.

E não adiantava dizer que não. A Emilinha, realmente, defenderia melhor o capital do industrial que, por sinal, achou o argumento ótimo, mas ficou meio chateado porque o mocinho não tinha um amigo. Mandou modificar este detalhe e contratou o Grande Otelo. Enfim, foram introduzidas pequenas modificações no entrecho. Coisa de somenos, que não dava para atrapalhar muito. As lutas dos sertanejos foram devidamente adaptadas para uma briga na boite, cena que só aparecia no fim da fita, para dar mais sustança ao grande final. E o título, para que o tal Euclides da Cunha não viesse depois reclamar direitos autorais, também foi mudado. Em vez de "Os Sertões", passou a ser "Mulheres no Matagal". Vai estrear breve.

Como, minha senhora? O que foi que aconteceu com o grande escritor? Ora, dona. Teve que topar tudo para pagar o que devia. Não, senhora... não está mais escrevendo. Voltou a ser aviador. Está funcionando na Farmácia Santa Teresinha, aberta dia e noite.


Fonte: Tia Zulmira e Eu - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

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