domingo, 7 de agosto de 2011

O correr dos anos

Quem ficou contente foi Bonifácio Ponte Preta (o Patriota), com a inauguração da tal adutora do Guandu, que resolve o problema da água no Rio de Janeiro até o ano 2000. Tudo que é noticiário da imprensa sobre o assunto o Boni recorta e cola num álbum confeccionado por ele mesmo e que tem uma bonita fita verde-amarela, badalando na capa.

Por exemplo aquele artigo do David Nasser, que saiu no "O Cruzeiro', sob o título de “As águas da ingratidão", no qual o repórter começa assim: "As águas da ingratidão municipal começaram a rolar" e depois diz que "a obra do século", que quebrou o galho da falta de água até o ano 2000, foi inaugurada e se esquece, deliberada, criminosa e vergonhosamente do nome de Carlos Lacerda, que foi — segundo Nasser — o homem que botou o cano lá no rio, pois esse ai ligo — eu dizia - o Bonifácio achou tão bacana que comprou dez "O Cruzeiro" e colou tudo no álbum.

Estou contando o detalhe para mostrar que o patriótico Boni está exagerando às pampas, no seu fervor cívico pela obra. Ele não fala noutra coisa e ficou uma fera com o distraído Rosamundo, quando soube que o coitado nem tinha sabido dessa inauguração:

— Perfile-se! — berrou o Boni, assustando o Rosa: — Fique sabendo que estou lhe prestando uma informação que orgulha qualquer patrício, ouviu? Saiba, o senhor, que inauguraram o Guandu. Teremos água até o ano 2000.

Rosamundo ficou besta com que o outro lhe contou. Que coisa, não é mesmo? Água até o ano 2000!

Mas Rosamundo mora na zona do Centro, pois ainda não percebeu que aquilo não é zona residencial. Ontem ele passou os olhos pelos jornais e — como sempre — nem notou o que estava lendo, passando-lhe despercebida a notícia de que caiu uma ponte de Lajes, o que acarretou total falta de água no lugar onde ele mora.

E quando Rosamundo chegou em casa, ainda impressionado com o que lhe contara o patriótico Bonifácio sobre essa coisa de que não vai faltar água até o ano 2000, e abriu o chuveiro para um banho reparador, só caiu uma gotinha na cabeça dele e olhe lá.

Na sua proverbial vaguidão, ele comentou, apenas: — Puxa! Como os anos passaram depressa!
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Por: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).


Fonte: FEBEAPÁ 1: primeiro festival de besteira que assola o país / Stanislaw Ponte Preta; prefácio e ilustração de Jaguar. — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

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