domingo, 7 de agosto de 2011

Humilhação de homem

Gostava de dizer: — “Boba não sou!”. E explicava:

— Escreveu, não leu, o pau comeu.

De fato, pertencia a uma família de nervosos e exaltados. Dizia-se à boca pequena que o pai, na mocidade, matara um homem num cabaré do Recife. A mãe, por sua vez, tinha origem italiana. Rosinha podia dizer de boca cheia: — “Tenho a quem sair”. Quando começou a namorar Arturzinho, foi avisando:

— Meu anjo, sou muito boa, tal e coisa. Mas não me queira fazer de palhaça, porque eu...

Ele trabalhava no Itamaraty e era delicado ou, como diziam os despeitados, um “pomada”. Perguntou:

— Você faria o quê?

E a menina:

— Nessas ocasiões, topo qualquer parada.

Arturzinho achou graça:

— Sabe que você tem uma gíria muito gostosa?

O CONTRASTE

Havia entre os dois um contraste flagrante e até espetacular. Rosinha, cheia de corpo, de vitalidade, sem papas na língua, com uma exuberância de modos e de palavras quase inconvenientes; Arturzinho, de uma polidez, uma cerimônia, um formalismo que só vendo. Foi talvez a própria força do contraste que os aproximou. Num dos primeiros dias do namoro, ele foi encontrá-la, agitada, fremente. Admirou-se: “Que é que há?”. E ela:

— Imagine você! Agora mesmo um engraçadinho, no ônibus, fez-se de besta comigo e meti-lhe a mão na cara!

Arturzinho balbuciou:

— Você fez isso?

Exultou:

— Fiz, sim, fiz e faço. Ou tu pensas que é a primeira vez que eu dou na cara de um homem?

Arturzinho pigarreia. A verdade é que não entendia que uma mulher pudesse assumir atitudes brutais de homem. Dois dias depois combinaram um cinema na sessão das seis. Acontece, porém, que, quando ia saindo do Itamaraty, foi chamado ao gabinete do chefe. Demorou-se lá e quando, por fim, apareceu na porta do cinema, Rosinha o esperava já há quarenta minutos, debaixo de chuva. A pequena fez um escândalo:

— Você fez comigo um papel de moleque.

Protestou, chocado:

— Mas o que é isso?

E a pequena:

— Moleque, sim, senhor. E não me faça isso outra vez, porque senão já sabe!

Ele se encrespou também: —”Já sabe o quê?”. A irritação dele aumentou a dela. E, súbito, Rosinha diz-lhe:

— Quer ver como eu lhe meto a mão na cara, aqui, na frente dessa gente toda?

Lívido balbuciou: — “Quero”. Então, diante dos curiosos, que acompanhavam o incidente, Rosinha deu-lhe uma bofetada, uma bofetada de estalo, como no teatro. Em seguida, deixou-o plantado à boca da bilheteria e afastou-se, precipitadamente.

A FAMÍLIA

Chegando em casa, ela conta o episódio de rua. O pai, que acabara de chegar, passou-lhe um pito:

— Isso não se faz, não está direito. Vou te dizer uma coisa, minha filha: — na cara de homem não se bate!

— E é justo eu ficar esperando uma hora, papai?

Pondo o cigarro na piteira, o velho continua:

— Não tem explicações. Pensa um pouco, raciocina: — como é que você esbofeteia o homem com que vai se casar?

Então, Rosinha começou a chorar: — “Tem razão, papai, tem razão!”.

O pai pousou a mão na sua cabeça:

— Faz o seguinte: telefona para ele, pede-lhe desculpas, diz que foi a primeira e a última vez.

A mãe também secundou: — “Você fez mal, Rosinha. Homem é homem”. E quando ela, arrependida, já se dirigia para o telefone, não sei se o pai ou a mãe perguntou-lhe:

— E ele não reagiu? Não te deu uns empurrões? Não fez nada?

— Nada.

A irmã, caçula de catorze anos, que ouvira tudo até então sem comentários, chamou-a: “Vem cá um instantinho, Rosinha”. Leva-a para um canto:

— Olha aqui: — se eu fosse você, percebeste? Mandava o Arturzinho passear.

— Por quê?

E a outra:

— Um sujeito que leva uma bofetada e não reage, é o fim. Pra mim, não servia. É um boboca!

O que entendia a caçula de vida e relações humanas? Seja como for, o fato é que seu comentário impressionou profundamente Rosinha. Resolveu não telefonar. De noite, no quarto, a irmã insistia:

— Ou o homem é homem mesmo ou não interessa.

ESPANTO

No dia seguinte, pela manhã, bate o telefone. Era Arturzinho. Antes de dizer “bom dia”, começa:

— Meu bem, estou telefonando para te pedir desculpas.

Era demais. Rosinha pula:

— Como pedir desculpas? Você apanha na cara e ainda pede desculpas?

Ele gagueja:

— Eu te fiz esperar e...

Rosinha corta novamente: “Pelo amor de Deus, Arturzinho! Não me peça desculpas. Sou eu que vou te pedir, eu! Andei mal, mas você pode ficar certo de que nunca mais, ouviu?”. Do outro lado da linha, o pobre-diabo insiste: — “Quer dizer que você não está mais zangada?”. Rosinha perdeu de vez a paciência:

— Quem deve estar zangado é você, e não eu!

À tarde, encontraram-se no jardim de sempre. Ela abriu a alma: — “Escuta, meu anjo: — eu merecia uma surra por ter te esbofeteado”. Mais que depressa, ele bate na madeira: — “Isola!”. E a pequena, agarrada a ele:

— Escuta, meu amorzinho: — se, um dia, você me der uma surra, eu acharei que mereci, compreendeu? Te devo uma boa surra!

AS BODAS

Passou-se. Uns três meses depois, ficaram noivos. Mas, coisa curiosa: — de vez em quando, ela, aninhada nos seus braços, suspirava: — “Aquela bofetada não me sai da cabeça. Eu acho que só vou ficar em paz com a minha consciência quando me deres uma surra!”. O noivo, todo borrado de batom, exclamava: — “Deus me livre!”. Era uma doce figura, de quem se dizia: — “É uma pérola de gravata!”.

Até que chegou o dia do casamento. Depois das duas cerimônias, no civil e no religioso, e de uma breve reunião na casa dos pais da noiva, o casal parte para a nova residência. E lá, quando Arturzinho quer beijá-la, Rosinha desprende-se num movimento inesperado e ágil:

— Já, não. Primeiro você vai fazer uma coisa.

Na impaciência do desejo, ele indaga: — “O quê?”. E ela, trincando os dentes:

— Você vai me dar uma surra! Ou me dá uma surra ou não terá um beijo de mim, nada!

Ele não entende: — “Mas surra como? Que surra?”. A pequena, porém, já premeditara tudo. Vai no guarda-vestidos e volta com uma vara de marmelo, que ele olha no maior espanto de sua vida. Ela está diante dele:

— Dei uma bofetada no meu namorado. Agora quero apanhar do meu marido. Anda, bate!

Durante uns quarenta minutos, discutem. Desesperado, ele argumenta: — “Mas isso é loucura! Uma criancice! Onde já se viu?”. Rosinha era irredutível: — “Ou a surra ou não haverá nada entre nós dois!”. Por fim, inteiramente fora de si, ele ensaia duas lambadas. Ela exige: — “Mais forte! Mais forte!”. O marido obedeceu. Durante uns cinco minutos, Rosinha o instigou: — “Mais, mais! Não pára!”. Por fim, exausto e desvairado, ele larga a vara de marmelo.

Então a mulher atira-se nos seus braços, soluçando:

— Agora, posso te beijar e podes me beijar, porque és homem!

A partir de então, para fazê-la vibrar, Arturzinho tinha que lhe dar umas lambadas.

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A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é... / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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