quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Madrugada de 13 de Janeiro

Vou ver o Juarez, no Banco Nacional de Minas Gerais, ali na esquina de Ouvidor com Avenida. Tomo o elevador, salto na sobreloja. E, no corredor, sou recebido com uma saraivada de versos. Um funcionário ergue o gesto e declama:

— "Madrugada de 13 de janeiro / Rezo chorando o ofício da agonia" etc. etc. Perfilo-me como se aquilo fosse, não um soneto, mas o próprio Hino Nacional. E continua o rapaz, trêmulo de beleza: — "Sem um gemido assim como um cordeiro".

E, de repente, instalou-se, naquela sobreloja, o clima de Augusto dos Anjos. Sua tuberculose tossia para mim. O poeta falava da morte do próprio pai. Saíra para o jardim, ou quintal, e achou em tudo "o mesmo abismo de beleza". Depois, pareceu-lhe ver, "como Elias no carro azul de glórias", a alma do pai subir aos céus. Amém.

Quem acabava de declamar era o funcionário da portaria, Francisco Hilton Batista. Sempre que vou ao banco, ele me dispara, à queima-roupa, um soneto. De Bilac, Raimundo ou Augusto. Deste último, prefere a morte do pai, que começa forte e crispada:

— "Madrugada de 13 de janeiro" etc. etc. E a data, atirada na cara do ouvinte, tem um patético insuspeitado e fremente.

Entro para falar com o Juarez. Sou um brasileiro que paga, não as dívidas, mas os juros. E estou tratando justamente de juros quando entra o Batista. Vem com a bandeja e dois cafezinhos. (Eis um dos mistérios do nosso caráter: — não há brasileiro, vivo ou morto, que goste de café; e todos o tomam). Depois de acertar as contas com o Juarez, saio. Paro um momento junto ao Batista. Põe-se de pé e começa:

— "Ainda hoje o livro do passado abrindo, lembro-me e punge-me a lembrança delas". Era o Bilac. O rapaz termina o soneto; digo-lhe: — "Deus te abençoe". E saio para a Avenida. Pensava no velho Brasil.

Houve, sim, o Brasil do soneto. Do soneto e também do fraque e do espartilho. Era o tempo em que o nosso Afrânio Peixoto chamava Baudelaire de torpe realista.

Eis a verdade: — o fraque, o espartilho e o soneto influíam em nossos usos, costumes, maneiras, valores e pudores. O fraque predispunha à ênfase generosa; o espartilho disciplinava as ânsias femininas; e quantas se casavam por um soneto, ou traíam por um soneto?

Enfim, o brasileiro estava sempre a um milímetro do patético e do sublime.

E há o caso daquela bela senhora que amou o amigo do marido. Foi uma dessas paixões de ópera, de novela ou, ainda, de soneto. Combinaram dia, hora e endereço do pecado. Mas ela dizia que ia e, ao mesmo tempo, insinuava um escrúpulo. Confessava: — "Sou muito medrosa". E ele, arquejante de paixão: — "Ou você não gosta de mim?". Ela suspira: — "Gosto. Amo". Mas tinha medo, não do marido, não do pai, não da sociedade. Pausa e novo suspiro: — tinha medo do filho.

Desta vez, o bem-amado perdeu a paciência: — "Medo de um fedelho de três anos?". A Ana Karenina soluçou: — "Se eu for, nunca mais beijarei meu filho!". O garotinho era o seu Juízo Final. Mas ele tantas fez que ela prometeu: — "Está bem. Vou". Ele jurara que o filho não saberia nunca.

Até que chegou a data do pecado. Na véspera, ela deixara o garoto, o Juízo Final, na casa da avó. E já acordou suspirando. Era a belle époque e nunca a brasileira suspirou tanto como na belle époque. Enquanto o marido tomava café, ela, cheia de papelotes na cabeça (era o Brasil do papelote), imaginava: — "Não sabe!". O desgraçado passava manteiga no pão. E, ao mastigar, a manteiga vinha de volta, como uma baba amarela. Ela, varada de remorsos, dizia-lhe: — "Limpa aqui, meu bem!". Arquejante de apetite, o outro limpava-se na própria toalha ou na fralda da camisa. (Como se vê, estou exagerando).

Mas não é nada disso que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que o marido foi trabalhar e ela ficou sozinha, com seu pecado. Coincidiu que fazia um calor de rachar catedrais. E faltou água. Ou por outra: — o problema não foi a falta da água. Isso mesmo, não foi a falta da água. Olhava o relógio, numa espécie de terror. Devia estar lá às três e era meio-dia.

Portanto, daí a três horas, ela estaria batendo na porta. Tomou banho. Mas, quando olhou o espartilho, pensou que teria de vesti-lo, de tirá-lo, de vestir e tirar. Começou a sentir um cansaço, um tédio, uma irritação contra o espartilho. E, depois, não era apenas o espartilho, mas o ser amado; e, pouco a pouco, vinha o tédio do próprio pecado.

Pôs-se diante do espelho. Percebia, olhando a própria imagem, que o desejo é triste, que o desejo é vil. Às três horas estava em casa, ainda em casa e para sempre em casa. E foi a preguiça de pôr o espartilho, a preguiça de tirar o espartilho, que a salvou. Dirá alguém que influíram outros fatores secundários, como, por exemplo, o calor. Vá lá o calor. Mas foi o espartilho que começou todo um processo de angústia sufocante.

No dia seguinte, ela passa no armarinho; lá comprou um carretel. Voltava, quando viu o ser amado, na esquina.

Abordou-a, impulsivamente. Disse-lhe, baixo e violento: — "O que você fez não se faz. Esperei quatro horas. Está pensando que sou seu moleque?". Ela não teve medo: — "Não fale assim comigo. Nunca lhe dei essa confiança".

O sujeito recuou como um agredido: — "Nunca me deu essa confiança? Escuta. Não combinamos? Hem? Não combinamos? Fala!". E ela: — "Eu sou uma senhora casada! O senhor não sabe com quem está falando!". Ele balbuciou: — "Está tudo acabado?". Ela disse as últimas: — "Acabado o quê? Não houve nada. O senhor não se enxerga! Quer deixar eu passar? Quer?".

O outro, branco, afastou-se, para dar-lhe passagem.

De noite, quando o marido chegou, ela o recebeu aos soluços: — "Fui insultada!". Contou-lhe: — "Aquele canalha fez propostas!". O marido ouvia só, atônito. Foi apanhar o chapéu; disse: — "Volto já". E saiu.

Andando, na calçada, de fraque, parecia um estadista. O fraque, repito, dava mais ferocidade à sua honra conjugal. Foi encontrar o amigo, se não me engano, no Café Papagaio (exatamente, no Café Papagaio). O outro tomava cerveja, sozinho. O marido aproxima-se e diz: — "Seu cachorro!". Puxa o revólver e o fuzila.

O sedutor (como então se dizia) nem se levantou. Morreu sentado.

Se o ofendido não estivesse de fraque, talvez lhe tivesse apenas quebrado a cara. Quem sabe?

Aí está: — o espartilho frustrou um adultério e o fraque matou um homem.

E há também o episódio do soneto. Foi o caso de uma noiva na véspera do casamento.

De tardinha (era como se dizia: — "de tardinha") recebeu um envelope. Virou, revirou e abriu. Era um soneto e, por baixo, a assinatura do ex-namorado, por sinal, o primeiro de sua vida. Leu a primeira vez. E, depois, foi-se trancar no banheiro para reler dez, vinte, trinta vezes. De vez em quando, vinha alguém bater na porta: — "Está aí, Fulana?". Estava. E a pessoa ia dizer na sala que a noiva não saía do banheiro. A mãe explicava: — "Nervosa".

Até que, de repente, a rua ouviu aqueles gritos. Todos correram. A noiva embebera o vestido em álcool, ou querosene. E riscara um fósforo. Depois correu, dentro de casa, gritando, incendiada. Só muito tarde alguém se lembrou de abraçá-la com um cobertor. Levaram a moça para a cama, enquanto chamavam a assistência.

E, de repente, uma tia notou que algo se derretia, atravessava o colchão e vinha pingar no soalho. Era a banha que escorria. A velha foi apanhar uma bacia e a pôs debaixo da cama. Quando a assistência apareceu, estava morta. E, por algum tempo, ouviu-se o pingo tinir na bacia.

Só depois se falou no soneto.

(Já usei a mesma tia, o mesmo colchão, a mesma bacia, o mesmo pingo, em crônica anterior. Desculpem).

[17/8/1968] 
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A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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