terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O poliglota

Vocês desculpem, mas nós num güenta! Nós num güenta e é preciso desabafar, inscrevendo mais uma vez aqui aquela frase que a posteridade já reclama com folgada antecedência: "Ah, Ibrahim, Ibrahim... se não fosse você, o que seria de mim?" Vocês leram o que escreveu o rapaz? Não leram? Aí é que está. Ficam perdendo tempo a ler Gide, Rilke e outros debilóides, depois perdem as maiores jóias literárias do famoso escritor líbano-carioca.

Imaginem vocês que Ibrahim — agora em viagem pela Europa, para desmentir definitivamente a máxima "quem viaja aprende" — vem de publicar uma notinha das mais importantes.

Diz o mestre de Jeff Thomas, o inspirador de Pouchard, que andou conversando com o Duque de Windsor. Para castigar um pouco de modéstia no seu escrito, o famoso "dramaturco" explicou que não conversou em português, o que, aliás, deve ser verdade, pois o Duque fala um pouquinho de português, mas Ibrahim não. A conversa foi num misto de espanhol, inglês e francês.

Quem conta é o próprio Ibrahim: usando um pouco do meu modesto espanhol, do meu inglês e do meu francês, consegui explicar ao Duque de Windsor o que é Brasília. Vejam vocês que pretensão! Explicar a um inglês o que é ponto facultativo já é um negócio considerado impossível pelos brasileiros que dominam perfeitamente o idioma de Henry Wadsworth Longfellow, quanto mais explicar em mau inglês, mau francês e mau espanhol o que vem a ser Brasília.

Brasília, como explicar Brasília a um inglês? Mesmo um inglês que saiba o português direitinho? É tarefa mais árdua do que marcar o Garrincha com um calo no dedão (no dedão do marcador e não do Garrincha, of course). Como é que o Ibrahim, incapaz de entender-se com qualquer plebeu, em qualquer língua, pôde explicar ao nobre e sofisticado Duque de Windsor o que é Brasília?

Dizem nossos olheiros especializados que estiveram apreciando a conversa dos dois, que ambos pareciam índios de fita em série, cada um soltando sons guturais para o outro, numa troca estranha de sons ininteligíveis, onde só se compreendia a palavra Brasília. Houve um momento em que Ibrahim afirmou:

— Brasília es la ville brésilienne who está the capital of Brazil.

O Duque de Windsor arregalou os olhos e não agüentou. Virou-se para a Duquesa que estava ao seu lado e afirmou:

— I’ll be a circus monkey if this cocoroca is not the famous Ibrahim Sued.

__________________________________________________________________________ Fonte: Tia Zulmira e Eu - Stanislaw Ponte Preta - 6.ª edição - Ilustrado por Jaguar - EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.

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